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quinta-feira, 31 de março de 2011

As Escolas de Atabaques e a Importância do Mestre no Processo de Aprendizagem

(Ao lado, eu e alguns de meus alunos)


Hoje, com o avanço da internet e o advento de comunidades específicas para Ogans e atabaques, observo um interesse muito grande de pessoas em aprenderem a arte musical dos Òrìsàs.


No Youtube, por exemplo, há diversos vídeos com toques de atabaque, sendo que alguns até ensina passo à passo, como “tocar”. Há também, uma profusão de CDs de Candomblé que muitos os utilizam como meio para aprender. Em parte, isso é benéfico, pois possibilita o acesso à informação que alguns não tinham até então, por outro lado, pode causar grandes embaraços.

Quando iniciei meus estudos na arte dos atabaques, também comecei pelos discos (graças à Olodunmare, comecei com os discos de Vadinho). No entanto, ao longo desse processo de aprendizagem que perdura até hoje e que, muito provavelmente perdurará até o meu sopro derradeiro, tive a honra de ter Mestres e, somente após tê-los, tive a percepção de quão importante é ter um Mestre, seguir uma escola e não ficar preso aos discos e CDs.

Quando digo escola, não me refiro a um curso de atabaques ou algo parecido. Quando digo Escola de Atabaques, refiro-me aos “estilos” musicais que perduraram em algumas casas de Candomblé da Bahia. À minha percepção, há três grandes Escolas de Atabaques. Quais sejam: Ilé Iya Naso Oka (Casa Branca do Engenho Velho); Ile Omi Ase Iya Mase (Gantois) e Ile Osumare Araká (A Casa de Oxumare).

Creio que, 90% de tudo que se toca relacionado ao Candomblé de Ketu, são fundamentados em uma dessas três escolas. Nessas três Comunidades Religiosas, surgiram àqueles que foram considerados os maiores tocadores de atabaque do Brasil. Exemplificarei com alguns nomes da velha e nova geração. São eles:

Ile Iya Naso Oka: Cipriano Alagbe (provavelmente, o mais venerado Ogan deste Asè), Jorge Alagbé (discípulo e sucessor de Cipriano), Jorginho “olho de gato” (Filho de Mãe Nitinha, um exímio tocador) e Edvaldo “Papadinha”, que perdura essa arte, ensinando crianças na Casa do Benin, em Salvador.

Ile Omi Ase Iya Mase: Pai Preto (virtuosíssimo - Pai de Gamo), Eduardo (Pai de Vadinho), o próprio Vadinho Boca de Ferramenta, Hélio dos Anjos, Dudú, Hubaldo (um monstro do atabaque), Papao, Gamo da Paz, Robson, Gabi e Iuri.

Ile Osumare Araka: Januário, Manuel Alagbe, Cidinho, Mirtinho, Erenilton Bispo dos Santos, Nei de Òsóòsì, Edfran, Valnei, dentre outros.

MAS PORQUE A NECESSIDADE DO MESTRE?

Vejamos: No HUN, há mais de 50 toques distintos e, mesmo que alguém faça uma coletânea com todos os Discos de Vadinho, meu Tio Erenilton, Gamo e outros que existem na praça, não chegarão a todos os toques existentes, simplesmente pelo fato, de muitos toques (os raros), não terem sido gravados (como, por exemplo, o Adahun, o toque de Toke Daju-a, alguns toques de Iroko, alguns toques de Yemoja, Sango, Osala, etc.).

Nesse sentido, cabe ao Mestre, de forma paulatina, ensinar àqueles que merecem aprender. Na Bahia, nas tradicionais casas, é o Mestre que valida o discípulo à tocar. É ele quem diz: “Hoje você vai subir ao Hun e tocar o Vassi para Ògún”. Mesmo que o “novel” se confunda com alguma passagem, lá está o Mestre, ao seu lado, para dizer: “Está errado faça dessa forma” ou “É isso mesmo, está tocando bonito”.

O Mestre não ensina somente à tocar. Ele mostra ao discípulo a prestar atenção no Òrìsà, ele ensina que algumas determinadas cantigas, pedem variações distintas no Hun, quando são entoadas imediatamente após outra. Os grandes Mestres, mais que ninguém, conhece o ritmo de cada Òrìsà da sua casa, por isso, ele mostra ao discípulo que para o Òrìsà de determinada pessoa ele deve fazer essa ou aquela passagem, pois aquele Òrìsà gosta. Ou ele dirá: “Menino, toque mais devagar, pois embora aquele Òrìsà seja Ògún, a Egbonmi tem mais de 70 anos, então pegue leve, vá devagar”.


Disco nenhum diz: Essa pancada é com a mão esquerda e não com a direita. O Mestre mostra como tirar o som do atabaque de forma correta, ele ensina desde como colocar a pele do animal para secar, até como bater nos Birros do atabaque, de modo que não prejudique o instrumento.


Ele ensina como reverenciar o Òrìsà por meio do atabaque. Na minha postagem anterior, comentei que o Ogan deve saber dançar para poder tocar de forma correta. Vou além, posso dizer que, os grandes Mestres dos atabaques tiveram participação crucial na formação da dança de muitas egbon-mi. Isso fez e faz com que, aquele Òrìsà (bem como a egbon-mi que é manifestada por ele) se acostume com a “pancada” daquele Ogan, logo, se o discípulo for atento e empenhado, conseguirá receber do Òrìsà, esse mesmo carinho despendido ao Mestre.


Garanto que, nenhum Mestre quer morrer e levar consigo a arte que aprendeu. No entanto, é preciso entender que o processo de aprendizagem é lento. Iuri, do Gantois, aluno de Gamo e de Yomar (atual “boca de hun” do Gantois), certa feita me disse: “Gamo, me deixava o dia inteiro fazendo uma única passagem! Ficava ali, horas e horas repetindo a mesma coisa, sem mudar...!”.


Nenhum discípulo escolhe o Mestre, é o Mestre quem escolhe o discípulo. Um Grande Tocador pode ter dezenas de alunos (leia aluno e não discípulo), mas dentre as dezenas de alunos, ele escolherá quais serão seus discípulos. Embora eu diga que é o Mestre que escolhe o discípulo, cabe ao aluno também fazer por onde tornar-se um discípulo.


Meu Tio Erenilton, comenta que ele nunca passou à frente dos Mestres, sempre os respeitou. Ele disse: “Vinicius, eles gostavam de mim porque eu sempre os respeitei, sempre fui um menino bom com eles. Eles passavam na roça e diziam à minha mãe: estou levando ele para o Candomblé. Então eu ia acompanhado por eles. Se algum dia, eu tivesse desrespeitado eles, pronto! eles não teriam me ensinado nada. Aliás, naquela época, o povo do Candomblé, eram as pessoas que mais respeitavam as outras. Era muito bonito, mas hoje.....”. O venerado Ogan Erenilton, com essas palavras, ensina à todos, o caminho das pedras e, convida-nos à uma reflexão!


No início da postagem eu disse: “Há também, uma profusão de CDs de Candomblé que muitos utilizam como meio para aprender. Em parte, isso é benéfico, pois possibilita o acesso à informação que, alguns não tinham até então, por outro lado, pode causar grandes embaraços”.


POR QUE EMBARAÇO? Aqui entra a importância da Escola do Atabaque, além da já comentada importância do Mestre.


Vou exemplificar com o Disco Candomblé, gravado por Mãe Hilda e Vadinho. Nele há uma cantiga de Omolu (“Ago Lele, Ago Lonan Kewa Saworo, Ago Lele”). Vejamos: Alguém que, por exemplo, estudou com afinco as pancadas dessa cantiga pelo Disco, terá aprendido a forma que a mesma é tocada no Gantois (das casas matrizes de Salvador, somente o Gantois e seus descendentes toca essa cantiga da forma na qual está gravada no disco, inclusive, a dança e o nome do toque no Gantois, são distintos das demais casas).


Mas afinal, onde está o embaraço: Digamos que essa pessoa que estudou o toque pelo Disco de Vadinho (e que não tem um Mestre), ser descendente da Casa Branca do Engenho Velho. E, em uma oportunidade ele consegue subir ao HUN dessa casa, justamente na cantiga que ele tanto estudou (Ago lele, Ago Lonan Kewa Saworo, Ago Lele). Pronto, lá estará ele tocando como no Disco de Vadinho, um toque específico do Gantois, só que não no Gantois e sim na Casa Branca do Engenho Velho. Pronto, as Egbon-mi certamente não vão dançar, pois lá é diferente e os Ogans irão olhar com desdém, sendo que aquele não é o toque da casa deles. O Ogan sem entender nada, saí do atabaque e ainda é capaz de criticar: “vejam só, estou tocando como o Vadinho tocava e as pessoas me olham torto?”.


Nesse sentido, qual escola de atabaques está certa? Gantois ou Casa Branca? Respondo: Ambas! Errado é o Ogan não saber que naquela casa, o toque é distinto. Novamente, entra a importância do Mestre. O Mestre diria ao seu discípulo: “Menino, você vai à Casa Branca? Olha, tem cantigas lá, que o toque é diferente do que agente toca. Então, se você não tiver a certeza de como se toca lá determinada cantiga, não suba no atabaque, para não passar carão”, o inverso também pode ocorrer.


O verdadeiro Mestre, na sua casa, toca somente um estilo de atabaque (de uma das escolas mencionadas), entretanto, ele também conhece as outras escolas e, sobretudo, as respeita. Lembrando novamente meu Tio Erenilton. A referida cantiga de Omolu, não é executada por ele como Vadinho tocava. E então, quem está certo? Reitero ambas as escolas! Mas porque meu interesse em discorrer sobre esse assunto? É preciso incutir a importância do Mestre e entender a história do Atabaque. Sim, o Atabaque do Brasil tem história, que ainda está viva na mente dos Grandes Mestres.


Hoje é comum ir à um Candomblé e, depararmo-nos com Ogans que, hora tocam como uma escola e hora tocam como outra. Pior, as vezes intercalam na mesma cantiga, toques e variações de escolas distintas, isso sim é errado! Por vezes, fazem isso pelo fato de, simplesmente desconhecerem que há “Escolas de Atabaque”, por tanto, sem saber que estão errando.


Vejamos outro exemplo: No Asè Òsùmàrè, em Salvador, as cantigas de Yánsàn no Sire, quando entoadas, são tocadas ao Hun, somente com as mãos (o mesmo se aplica no Iya Naso Oka). Contudo, no Gantois (vide Disco de Mãe Hilda e de Edinho Carrapato), as mesmas cantigas são tocadas ao Hun, com Agidavi. Nesse aspecto, repiso a necessidade dos Tocadores de Atabaque, ter Mestres, que mostrem essas particularidades para que os mesmos não incidam em erros.


Com esse exemplo, se a pessoa não tiver a orientação correta, é possível o Ogan tocar metade do Sire com Agidavi e, a outra metade na mão! Isso sim seria algo tenebroso. Como disse, não há problemas em tocar uma ou outra escola, mas escolha uma e siga com determinação. Sim, aprenda um pouco das demais escolas, para que você, em uma visita à uma casa descendente dessa escola (ou mesmo a matriz), você possa comungar com outros Ogans. Mas saiba o que uma ou outra pregam! Tenha discernimento!


Sem Mais,
Opotun Vinicius 31/03/11

3 comentários:

  1. sou milene tenho 25 anos sou ekedi do Ilé Alákétu Asè Ibùalámo.nascida no candomblé e fico perplexa em saber que tem ogan que se senti tocador de atabaque mais estao enganados vcs deven estar se perguntando quem essa menina pra fala de atabaque sou adimiradora do som e critica sobre o asunto sei do que estou falando ,pense bem quando! dizer sou tocador de atabaque e se juga o melhor tambem toco atabaque e percusao geral tive o melhor tocador de atabaque como professor o nome dele ogam VINICIUS ele mi disse que se eu fosse homen ele faria de mim melhor do que eu ja sou e nao preciso que nimguem mi diga ele ja mi disse e para vcs ogans que se achan procuren se aperfeiçoar mais .a vc VINICIUS MUITO OBRIGADO POR TOCAR BEM PARA QUE EU POSSA OUVIR APRENDER TI OUVINDO ISSO SIM É SABER TOCAR ISSO SE CHAMA PERCEPÇAO PARABENS POR SER O MELHOR

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  2. é vinicios milene tem razao vc toca muito!!! sem duvida, agora so estou curioso em saber sobre a parte que vc ainda nao postou lagun lo... nao e um toque para ogun!? me explica? abraços e continue fazendo esse trabalho,esta otimo parabens!!!

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  3. Kleber,

    Valeu! Sou apenas um aluno! Sim, Lagunló é um dos toques de Ogun, em breve vou postar sobre esse também. Aguarde (rs).

    Abs.,
    Vinicius

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