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quinta-feira, 24 de março de 2011

Existe Ogan Raspado? Ìyáwò Pode Tocar Atabaques?

Para responder essas perguntas, precisamos discorrer um pouco sobre o que é Ìyáwò e o que seria Ogan.

Há uma grande polêmica acerca do tema em título. Hoje, sobretudo no Sudeste, há uma grande discussão em relação se aqueles que foram iniciados na Religião dos Òrìsàs, Raspados, “Adoxados”, contudo não são manifestados por Òrìsà (rodantes), seriam ou não Ogans. Nesse aspecto, afirmo de forma indubitável, com toda a segurança que não, ou seja, Ogans Não São Raspados! Face ao exposto, surge a indagação: Àqueles que são raspados, “adoxados”, entretanto não são manifestados por Òrìsà, seriam o que, então? Respondo categoricamente: Ìyàwó – Iniciado na Religião do Culto aos Òrìsàs!


Hoje, infelizmente, pela falta de cultura e, sobretudo, pela falta de interesse à busca da informação correta, muitos crêem que o “ato de tocar atabaques” está correlacionado ao tipo de iniciação, o que é uma inverdade. Nesse sentido, não há óbices religiosos fundamentados que interditem um Ìyàwó homem que não manifeste Òrìsà, em tocar atabaques. Aqui, posso mencionar uma lista de Grandes Tocadores, todos não Ogans, que são respeitados pela sua arte musical, inclusive por Ogans e, chamados por muitos de Ogans.


O fato da confusão generalizada em acreditar que um Ìyàwó Raspado que não é manifestado por Òrìsà seja Ogan e não Ìyáwò em grande parte, deve-se aos próprios sacerdotes, vejamos:


O indivíduo que entra em uma Casa de Candomblé, antes mesmo de ser suspenso, confirmado, ou iniciado, mas que não é manifestado por Òrìsà é chamado pelo sacerdote como? Ogan! Seus “irmãos”, o chamam de qual forma? Ogan! Como ele se autodenomina? Ogan! Quando esse indivíduo (“Ogan”) adentra oficialmente na religião, se ao invés de ser confirmado como Ogan, ele for raspado e adoxado, ele está sendo iniciado como Ìyàwó - portanto é Ìyàwó - e não Ogan. Não obstante, todos, inclusive seu Sacerdote continuarão (via de regra é isso que ocorre) a chamá-lo de Ogan e não Ìyàwó! Aliás, se perguntarmos aos Sacerdotes, uma definição sobre Ogan, a maioria será breve e dirão erroneamente: Ogan é o indivíduo homem que não é manifestado por Òrìsà, sem discorrer sobre os pormenores com acuro.


Desta forma, observa-se que esse erro comum, decorre do processo de aprendizagem do noviço na religião. No exemplo supracitado, o correto, independente de manifestar ou não, o noviço deverá ser considerado “Abiyan”. O fato do Abiyan não manifestar Òrìsà, a priori não lhe concede a posição de Ogan. Esse “status quo”, além de indevido, gera as inevitáveis dúvidas sobre o tema em questão, principalmente no futuro da vida religiosa desse noviço.


Ante a afirmativa acima; o que seria o Ogan? À luz do Candomblé Tradicional Baiano, Ogan é o indivíduo (Homem) que não é manifestado por Òrìsà, mas que é CONFIRMADO (E NÃO INICIADO). A princípio, esse Ogan, em suma, é “apontado” (escolhido) por um Òrìsà em alguma determinada festa, ou mesmo função dentro do Ilé Òrìsà. Na ocasião, esse Ogan é “suspenso”, por outros desta confraria. Daí, o advento do termo “Ogan Suspenso”. Deste momento, à diante, esse indivíduo passa a executar tarefas no Ilé Òrìsà, sem cunho religioso.


Posteriormente, a Ìyálòrìsà/Babalòrìsà, determinará que esse Ogan (suspenso), deverá ser Confirmado (leia-se confirmado e não iniciado) – geralmente para o Òrìsà que o suspendeu. Daí a razão de na Bahia, por exemplo, um Ogan ser do Òrìsà Ògún (ele é filho de Ògún), mas ser chamado de Ogan de Omolu (pois, muito embora o Òrìsà dele ser Ògún, ele fora suspenso e, posteriormente confirmado para ser Ogan do Omolu de “beltrana”). O processo de Confirmação de um Ogan diverge demasiadamente do processo de iniciação (Ìyàwó).


Não posso aprofundar no tema, por tratar-se de Awo (segredo que não compete àqueles que não são iniciados). Mas um Ogan Confirmado, não saí à sala no “Arole Komurajo” (cantiga destinada à Ìyàwó). Há um conjunto de cânticos e rituais específicos para a Confirmação de um Ogan (que reitero, não se trata do “Arole Komurajo”). Caso esse Ogan, por exemplo, seja confirmado Alagbé, há ainda, outra seqüência especifica de cantigas; o mesmo ocorre para alguns outros títulos.


Quando pensamos em iniciação no culto aos Òrìsàs na África, não são encontrados indícios/relatos de alguma iniciação com o “modus” da Confirmação de Ogan no Brasil. Em verdade, esse tema é muito mais polêmico que parece. Quando pensamos em Confirmação de Ogan, temos que entender que esse indivíduo não está sendo iniciado em todas as etapas que a religião apregoa, dessa forma, jamais o Ogan poderá proceder a iniciação de um Ìyáwó.


Mas se na África, berço da cultura dos Òrìsàs não há esse processo, qual teria sido a razão do aparecimento deste no Brasil? Vejo como um fato histórico, liderado pelas Ìyálòrìsàs de outrora, à busca da manutenção da hegemonia da mulher nos cargos de liderança nas comunidades Nágò.


Quando da fundação das mais tradicionais Casas de Candomblé da Bahia, todas, sem exceção, tiveram o apoio religioso de homens (iniciados – porém não rodantes), exemplifico: Gbongbose Obitiko, Okarinde, Oje Lade, Oba Sanya, dentre outros. Entretanto, após a fundação dessas casas, para que não houvesse a concorrência masculina no sacerdócio, as Ìyálòrìsàs começaram a não iniciar homens (quer seja rodante, quer não). Contudo, a figura masculina permanecia essencial para o bom andamento da casa. Nesse sentido, como manter o homem na casa de Candomblé, com funções distintas, sem que esse se tornar-se Sacerdote futuramente e, por conseqüência, concorrente do poder supra-sumo da mulher? Criando a figura do Ogan (ou seja, realizando alguns rituais para que os homens não rodantes – pudessem ser partícipes de algumas atividades na casa).


Nessa busca contumaz, as mulheres do Candomblé da Bahia, cercearam da religião os homens rodantes (uma espécie de apartheid), configurando status e poder aos Ogans, figura criada pelas mesmas, - mas que não lhe ameaçavam na supremacia do Candomblé. À eles eram concedidas funções como Tocar Atabaques e Cantar. Razão pela qual, erroneamente, crê-se que somente os Ogans podem tocar atabaques.


Diante disso, o que posso afirmar é que, se não rodante e homem – independente de Ogan ou Iyawo, ele pode tocar sim atabaques. O que digo, mas por concepção religiosa minha, sem embasamento teológico algum, é que a privação em tocar atabaques deve ocorrer àqueles que são manifestados por Òrìsà. Essa óptica deve-se única e exclusivamente há eminente possibilidade de um Ìyàwó que manifeste Òrìsà, poder entrar em transe, durante a execução do toque. O mesmo emprega-se às mulheres, também, sem fundamentação teológica.


Por fim, apesar de distintos, não vejo como macular, o iniciado não rodante, denominar-se Ogan, sobretudo pelo vício de linguagem, fato que ocorre mesmo comigo. No entanto, é importante que todos saibam que são distintos, com funções distintas, com processos iniciatórios distintos!


Espero, com a explanação acima, tirar um pouco da dúvida de muitos sobre a questão!


Abs.,
Opotun Vinicius

10 comentários:

  1. olha,um tema realmente muito polêmico.mas, atentando para uma explicação lúcida e seguida de embasamentos, enntendi perfeitamente aquilo q foi proposto pelo meu irmão Vinicius. depois, tivemos uma conversa em off (hehehe) e ele me explicou de forma ainda mais detalhada tudo o q vem descrito no post de maneira elucidatória.Vinicius,mais uma vez parabéns do seu irmão q muito te admira e te respeita!Felicidades!!!!

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  2. Excelente explanação, vc consegue até explicar os motivos principais desde do inicio do candomblé Nago Baiano, para que hj a lente da evolução do nosso candomblé, possa assim entender e comparar as praticas de iniciação dos homens...
    Porém vale a pena frizar, que no paragrafo que vc se refere aos homens que compoem a fundação do nosso candomblé juntos as mulheres, esses estiveram presentes por tem conhecimentos do culto a Ifá (Orumila), e assim foram conselheiros delas para a formação.
    Abração, e que os Orisa possa sempre lidar prazer e vivacidade para que vc possa que neste forum e outros expor seus conhecimentos e sua visão aguçada do nosso candomblé.
    Ase o !

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  3. ozymandias,
    Realmente é um tema muito polêmico e que poucos aventam comentar fora dos templos religiosos, mas fico contente em ver que aos poucos, estamos conseguindo elucidar temas tão importantes da nossa cultura.

    Abs.,
    Vinicius

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  4. Meu Tio Wilson,

    Para mim é uma honra ter sua participação no meu Blog, sabes quão o admiro e respeito. Sim, esses homens, lendários eram sacerdotes do Culto à Ifá e, tiveram um papel de fundamental importância em todo o processo de construção das comunidades Nago na Bahia, muito bem lembrado, Obrigado!

    Espero, em breve, vê-lo em casa, para podermos`ir ao Mercadão Municial, degustar algumas iguarias.

    Abs.,
    Vinicius

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  5. Parabéns, meu Irmão Vinícius, pelo Blog. Suas explicações são excelentes. Quem sabe, um dia, as casas de Candomblé tenham em seus textos base de ensinamento.

    Abraço,

    Mário de Ògún

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  6. Mário, bom dia!

    Fico novamente feliz em ver sua participação no meu blog. Digo isso, pois quando nos propomos a escrever em uma ferramenta como essa, é porque queremos interagir com que acessa, por isso, novamente meu myuito obrigado! Não espero tanto, mas espero que esses texto, contribuam ainda que de forma ínfima, para elucidar um pouco sobre nossa religião.

    Abs.,
    Opotun Vinicius

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  7. Acho que de maneira resumida me esclareceu muitas duvidas e com certeza de muitos outros amigos frequentadores do seu Blog ...

    Obrigado
    Leonardo

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    1. Leonardo, que bom que o objetivo desse blog está sendo atingido...

      Abs e obrigado!
      Vinicius

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  8. Prezado Vinicios:
    Sou Ogã Runto da familia Ceji Unde (caxoeira Bahia) fui confirmado ogã no ano de 1981 nesta minha trajetoria dentro do candomblé eu nunca tinha visto vodunci sair acordado na sala como se faz hoje en dia aqui en São Paulo realmente não reconheço isso na minha familia ogã e ogã e vodunci vodunci nunca vi uma noviça entrar para a roça e passar por un adarrun e sair acordada realmente não entendo isso meus mais velhos dizen que isso e arte de ogã metido a pai de santo, sinto tambem um enorme desrespeito para con os ogãs como você mesmo colocou hoje en dia tenho visto tanto yawo tocando atabaque que e fora de serie~, atabaque e un intrumento sagrado se recolhe junto com o ogã come e passa por preceitos inclusive atos funebres aos pés de vodum legbara não entendo este desrespeito, persebemos tambem que com a banalização que o candomblé vem tendo não vemos mais vodun ( orixas ) como antes te pergunto voçe tem visto hoje en dia um odé como o do saudoso Jose Carlos ( teu pai ) ta dificil né... deixo aqui um ponto de interogação para pensarmos será que não e falta de ogã para chamar o santo deste povo de verdade...
    grande abraço meu querido
    vodun gu ace nu we
    Runto Eduardo D´gu

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    1. Huntó Eduardo!

      Muito obrigado por sua participação aqui nesse espaço. Sua família é um dos grandes berços da cultura Jeje Mahin no Brasil, grande Ventura! Complicado meu caro, as coisas estão se perdendo.... o Adahun mesmo que você mencionou, quase já não se ouve, pouquíssimos são aqueles que o executam com propriedade, com perfeição. Em verdade, acho que é um conjunto de coisas. Acho que falta empenho dos Ogans em aprender e compreender a sua missão no que tange o poder evocativo dos Deuses. Há, igualmente, falta de preparação das pessoas que são manifestadas pelos Orisas ou Voduns para receberem em seus corpos essa energia tão poderosa. Hoje, as pessoas entram no Ilé Òrìsà ou no Xwe Vodun e sequer querem tomar um banho de folhas, não estão voltadas aos Deuses... Isso também contribui negativamente para a não vinda do Deus à Terra. Em relação ao Adahun isso nunca foi arte de Ogan/Huntó metido a Pai de Santo.... Dizem isso, somente aqueles que não conhecem o poder desse toque... No jeje principalmente, em que a importante cerimônia do Grá tem a participação sine que non do Adahun... Acho no entanto, que na Bahia (seja Salvador, seja as cidades do Recôncavo, como Cachoeira) isso é mais forte, as pessoas se preparam para serem manifestadas, tem prazer em se preparar para isso.... No sudeste, em grande maioria, infelizmente as pessoas se preparam para brilhar.... e não para o Orisa/Vodun.

      Muito obrigado pelo seu comentário e espero novamente vê-lo por aqui.

      Abraços.
      Vinicius

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