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terça-feira, 8 de março de 2011

Sobre Mim e Sobre Meu Processo de Aprendizagem

OPOTUN VINICIUS, O INÍCIO DE TUDO:

Antes de tudo, acredito ser importante que as pessoas saibam um pouco sobre mim, sobre as minhas escolas, meus mestres, etc. Dessa forma, o diálogo com aqueles que visitarem o meu Blog, tornar-se-á mais fácil. Assim sendo, inicialmente esclareço que o nome do blog “Opotun Vinicius” faz alusão ao título religioso, que possuo em um dos Terreiros de Candomblé mais Tradicionais de São Paulo, o Ilé Alákétu Asè Ibùalámo, casa fundada pelo meu Pai, José Carlos de Ibùalámo. “OPOTUN” é o primeiro nome de um título, em que uma das funções é apoiar o Sacerdote em importantes tomadas de decisões (não confundir com Apa Otun – “O Braço Direito”). Alguns podem me perguntar por que não usar o nome “Ogan Vinicius”, sobre isso, certamente esse tema será objeto de alguma postagem minha, mas essencialmente, não utilizo o nome “Ogan”, simplesmente pelo fato de eu não ser Ogan e sim Adosu (iniciado na religião dos Òrìsàs, aquele que carregou o Osù). Digo que farei uma postagem sobre esse tema, haja vista muitos acreditarem que, somente pelo fato de um iniciado homem, não ser manifestado pelo Òrìsà, ele seja Ogan, o que é uma grande inverdade.


Meu nome é Vinicius Santana, paulistano de nascença e baiano de coração e hereditariedade. Tenho o privilégio sem par, de ser filho carnal do Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo. Homem simples, nascido no recôncavo baiano, reto, honesto de caráter e brio inquestionáveis, fundador da Sociedade Ilé Alákétu Asè Ibùalámo. Tudo que sou hoje, seja dentro, seja fora da Religião dos Deuses Africanos, devo em suma ao meu Pai, e minha Mãe, também baiana do recôncavo, Lindinalva Santana. Meu Pai é uma dessas pessoas que ao conhecer, voltamos a crer que o mundo pode ser melhor, que há ainda pessoas de bem. Sou casado com uma linda e enérgica mulher, Michelli, que carrega em si, as características da Deusa que lhe rege, a intempestiva Yansan. Irmão de Gabriela Santana, Ìyákekère do Ilé Alákétu Asè Ibùalámo, uma mulher sábia, de personalidade forte, algo intrínseco do seu Òrìsà Obaluwaiye e que trás consigo, a espiritualidade do nosso Pai. Foto: Eu (Opotun Vinicius) e Meu Pai (Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo).

Trabalho em Telecomunicações, nos processos de estudos, diagnósticos, qualidade e estatística, com ferramentas como Six Sigma, MASP, COPC, CIPOC e, tantas outras que não vem ao caso, sendo que minha vida profissional não será objeto de abordagem nesse espaço. Mas vislumbro que seja salutar que as pessoas saibam que tocar atabaques não é uma profissão, mas sim uma missão com o Òrìsà, razão pela qual abomino de todas as formas, a comercialização da Sagrada Música dos Deuses Africanos. Acho que, o dinheiro que alguns Sacerdotes investem na contratação de Equipes para a realização de suas festas, poderia ser aplicado para o ensinamento de seus próprios músicos, valorizando sua casa. Resumidamente, os “tocadores de atabaque” devem ter seus empregos, sendo que Candomblé é Religião e não profissão.

Fui iniciado Adosu Omo Òrìsà Ògún, no Culto aos Deuses Africanos, ainda criança, pelo Sacerdote Pércio de Airá, fundador do Ilé Alákétu Asè Airá (Batistini). Ao meu Sacerdote, em memória, os meus eternos agradecimentos por tudo que me ensinou e que fez por mim. Tenho muito orgulho em poder dizer que convivi muito com o meu Sacerdote, acompanhando-o e, sobretudo, respeitando-o. Tenho a alegria, ainda, de saber que ele também gostava muito de mim e, me tinha também como um filho. Tive como Mãe criadeira, a sábia Mãe Marília de Òsàlá, que em sua infância e juventude, aprendeu os mistérios do Candomblé com o meu Babalòrìsà e com a saudosa Mãe Rosinha de Sàngó. Tive ainda, o privilégio de ter como Mãe Pequena, uma das vozes mais bonitas do Candomblé, minha querida Mãe Elza de Òsun, que perpetuou sua melodia sacra no disco “Canto de Oxum”, que ainda hoje, é tocado de forma abundante nas lavagens do Bonfim, em Salvador.

Meu despertar pela música dos Deuses Africanos, ocorreu muito cedo, antes mesmo de adentrar oficialmente à Religião. Lembro que ainda criança ficava prestando atenção ao Ogan Sidney de Omolu, que tocava Agogo aqui em casa e, fazia um verdadeiro “malabaris” executando os ritmos de angola, utilizando mais de um atabaque. À época eu ficava pensando: “Poxa será que um dia eu vou saber tocar pelo menos 1 atabaque...?”, eu não tinha a pretensão de tocar mais de um instrumento concomitantemente, à exemplo do que o Sidney fazia. Para mim, um bastava...

Algum tempo depois, mexendo na estante do meu Pai, descobri os discos do grande gênio da harmonia musical religiosa baiana, Luís Alves de Assis, o saudoso Luís da Muriçoca. Mesmo com pouca idade, conseguia perceber a complexidade impressa naquele documento sonoro único. Seu Luís com uma voz memorável, dono de um ritmo perfeito e, com um coro de dar inveja a muitos grupos musicais, enfim, uma obra prima. À época, ficava escutando, escutando, no entanto, nada mais que isso.

Passado algum tempo, com mais ou menos 6 ou 7 anos de idade, ganhei de um Ogan do meu Pai (Waldir de Òsóòsì), uma cópia (fita) do antológico disco em comemoração ao cinqüentenário de Mãe Menininha do Gantois. Na gravação, conforme narração de Manoel Queiroga, 5 importantes toques de atabaque, gravados pelos mais famosos e renomados Ogans da Bahia. O Ogan, ninguém menos que Vadinho do Gantois, os toques: Agéré, Hamunya, Alujá, Ijesa e Igbin. Foi nesse momento, precisamente ao ouvir as perfeitas e complexas variações rítmicas do Agéré, que nasceu o meu amor pela arte dos Atabaques, desde então, iniciei meus estudos musicais africanos, que sigo com afinco até hoje.

Meu interesse era tamanho, que ficava horas e mais horas escutando atentamente aquela fita. Como não possuía atabaques, sendo que meu Pai ainda não havia fundado seu Terreiro, meu primeiro instrumento foi a mesa de centro da sala da minha querida Mãe, as baquetas, simplesmente duas facas da cozinha e, quando aventurava-me a reproduzir algo do Hun, uma colher de pau. Recordo-me, com muita clareza que ficava com o ouvido na caixa de som, tentando repetir na boca tudo que ouvia e, depois, tentando reproduzir na mesinha de centro. Minha irmã, a Iyakekère do Ilé Ibùalamo, Gabriela de Omolu, ficava dançando, enquanto eu achava que estava tocando como na gravação... Enfim, ouvi muito, muito essa fita e, acabei destruindo a mesa de centro, que minha Mãe faz questão de guardar como lembrança, até hoje.

Com o despertar pelo atabaque, comecei a acompanhar o meu Pai em algumas festas que ele visitava. Na minha infância, ao lado do meu Pai, fui muito na casa de Pai Carlinhos de Òsóòsì, na pedreira e na Casa do Saudoso Pai Zé Mauro, na Vila Guarani. Nessa época, dois Ogans se destacavam entre os demais, Tião de Sàngó e Ismael de Òsùmàrè. Mas nunca nenhum deles me dera a oportunidade de chegar perto dos atabaques, muito pelo contrário, sempre que eu tentava pegar no para tocar, alguém logo fazia questão de me tirar, a frase já tornava-se um mantra na minha mente em formação: “Atabaque não é lugar para criança”. Entretanto, sempre que alguém me dizia isso, algo em mim, motivava-me a escutar e escutar aquela fita, com aqueles 5 toques de atabaque, jamais desisti. Mais à frente, ganhei do meu Pai, outra fita, desta feita o disco “Candomblé”, também gravado por Vadinho. Quando ouvi fiquei impressionado, tornando-me fã incondicional daquele que, sem dúvidas, foi o maior Alagbé da história. Nascia então, a idolatria àquele que, verdadeiramente sabia comunicar-se com os Deuses por meio do Atabaque.

Meu Pai, então em 1987, inaugura a Sociedade Ilé Alákétu Asè Ibùalámo, chegava enfim, a oportunidade de eu finalmente tocar em um Candomblé... Engano meu, mesmo em casa, os Ogans repisavam: “Atabaque não é lugar de criança”... Confesso que demorou muito para eu tocar no Ilé Ibùalámo, no entanto, aos finais de semana, quando ia à roça do meu Pai, havia algo novo, desconhecido, o Atabaque. Aos sábados e domingos, eu passava o dia inteiro tocando atabaques, descobrindo os sons, de mão, com o agidavi e, descobrindo que era muito mais difícil tocar atabaques, do que tocar uma mesa de centro. Nessa época, todos reclamavam do barulho que eu fazia e que não deixava ninguém em paz. Em minha defesa, sempre se manifestava a Tia de Santo do Meu Pai, a saudosa Ìyálode Neide de Òsun, filha da minha saudosa avó, Mãe Célia de Òsun (Ìyá Omi Lewa). “O deixem tocar, um dia esse menino ainda vai tocar um Hun igual ao meu Pai Tarrafa”, dizia ela com carinho fraternal.

Fui crescendo e continuei a estudar atabaques, mesmo em horas inapropriadas como na sala de aula. Nas reuniões, minhas professoras falavam para minha Mãe que eu tinha algum problema. Pois eu não parava de batucar na carteira durante as aulas e mesmo no intervalo. À medida que eu crescia um pouco, conseguia algumas oportunidades de mostrar aquilo que eu já havia aprendido. Em suma, eu conseguia tocar uns 5 minutos, depois alguém me tirava do atabaque...

Aos onze anos, fui iniciado no Ilé Alákétu Asè Airá e, recordo-me que, quando minha Mãe criadeira (Mãe Marília de Òsàlá) ia rezar no Honkó, eu ficava batucando no Apoti. Dessa forma, ela sempre que possível ia ensaiar com a minha irmã e eu tocava no Apoti. Certa vez, o meu Babalòrìsà foi ao Honkó e disse para minha irmã: “Eu vou te ensinar a dançar o Opanijé, a dança do seu Santo”. Quando ele começou a ensinar a dança, eu fui tocando no Apoti (afinal, eu já era um Alagbé de mesa e apoti). Ele não reclamou e, pelo contrário dizia: “Agora é hora de você dobrar, dobra menino”.

Já iniciado, pensei que as coisas seriam mais fáceis, mas ainda era muito novo para tocar, afinal, atabaques era lugar para adultos... Eu tinha duas casas, o Ilé Alákétu Asè Ibùalámo e o Ilé Alákétu Asè Airá (Batistini), em nenhuma delas eu conseguia tocar... Na casa do meu Pai, pelo menos eu tocava aos finais de semana (sem festa), no Batistini, nem aos finais de semana sem festa (rs). Acho que a pessoa que mais me tirou do atabaque, foi o meu irmão de Santo Sidney de Sàngó, ele dizia com firmeza: “Atabaque não é lugar de criança”. Hoje, ele é uma das pessoas que realmente admiro na religião, um grande amigo, que já me ensinou muito. Sempre que eu o recordo dessas “tiradas do atabaque” ele me fala: “Então eu te ajudei, pois eu não deixava você tocar e hoje você sabe tocar, se eu tivesse deixado naquela época você não teria estudado e hoje não saberia tocar” e, então caímos na risada.
Certa vez, finalmente consegui subir ao Hun do Ilé Alákétu Asè Airá (Batistini), naquela época não era qualquer pessoa que tocava ou cantava. Recordo-me como se fosse hoje, Agéré, o toque que mais estudei em toda a minha vida. No entanto, uma antiga egbon-mi olhou para o atabaque e disse: “O que esse menino está fazendo no atabaque, desce daí que você não sabe tocar”. Quando já estava saindo, com lágrimas nos olhos, eis que em minha defesa surge Tio Carlinhos. Todos respeitavam muito Tio Carlinhos, afinal ele era irmão de santo do meu Sacerdote, filho Carnal de Manoel Cerqueira de Amorim (Pai Nezinho de Ògún) e filho de santo, da venerável Mãe Menininha do Gantois. Lembro como hoje, as palavras dele à egbon-mi: “Ele vai tocar sim e, ninguém vai tirar ele do atabaque”. No meu ouvido ele me disse: “Menino, agora você vai ter que tocar alguma coisa bonita, pois senão, vai ficar feio para mim”. Esse dia, finalmente eu consegui tocar um Agéré para Òsóòsì... Naquela noite eu não dormi. Foto: Eu (Opotun Vinicius), com 13 anos tocando o Hun, na Fogueira de Airá, no Batistini.
Desse dia em diante, comecei a estudar mais e mais. Logo depois do ocorrido, meu Pai realizaria as festividades de Ibùalámo. Naquele tempo, todos os anos, vinha de Salvador, o Saudoso Ogan Tarrafa, da casa de Meu Avô Camilo de Òsóòsì – Camilo da Vila América. Foi então, que iniciei o meu aprendizado com um dos maiores Ogans da Bahia.
Meu Pai Tarrafa foi sem dúvida alguma, o Ogan com maior postura religiosa que já conheci. Filho de Obaluwaiye, com uma voz inigualável era um membro característico do chamado “Candomblé da Linha 15”. Eu já havia visto meu Pai Tarrafa em outras obrigações na casa do meu Pai e, em muitas na casa de minha Avó, em Salvador. Entretanto, nessa festa de Ibùalámo havia algo de diferente, o meu interesse pela arte dos Ogans já havia sido despertado. Eu ficava admirando tudo que meu Pai Tarrafa fazia. Como ele cantava, como ele tocava, como ele falava. Até o modo como eu seguro o Agogo é herança dele, pois ele tocava com a boca do Agogo virada para ele e, por conta de tanto observar e imitar, hoje faço da mesma forma. Nessa ocasião, em verdade, o meu aprendizado foi só observar, sendo que meu Pai Tarrafa era bastante ortodoxo e eu, muito tímido para chegar até ele e, perguntar algo sobre atabaque ou cânticos.
No mesmo ano, faria uma viagem à Salvador, que mudaria a minha trajetória no que tange a arte dos atabaques. Viajamos em razão da festa de Ògún que seria realizada na casa de minha avó Célia, lá uma vez mais me deparei com meu Pai Tarrafa, sendo que ele quem fazia as festa de lá. No dia do Oro, meu Pai Tarrafa estava bastante aborrecido, sendo que os Ogans que tocavam não estavam presentes e, ele gostava que o Oro fosse tocado. Foi então, que minha irmã Gabriela disse: “Meu Pai Tarrafa, meu irmão sabe tocar”. Meu Pai Tarrafa riu dizendo: “Esse menino paulista sabe tocar”? Minha irmã, firme respondeu que sim! Eu muito mais que envergonhado queria sumir dali. Mas, ele me chamou e disse: “Menino de São Paulo, vá tocar”. Eu fui, com muito medo, com receio, enfim, mas fui. Acabou o Oro e ele não me disse nada e eu nem tinha coragem de olhar para ele. Eu pensei que ele devia estar arrependido de ter me colocado para tocar. Foto: Ogan Tarrafa na Casa de Minha Avó Célia - Salvador

Quando chegou no dia da festa, todos os Ogans da casa de minha avó estavam presentes e já nos atabaques. Antes de começar o Candomblé, meu Pai Tarrafa me chamou e disse: “Menino de São Paulo, suba ao Hun e vá tocar o Candomblé, e fique lá até eu mandar sair”. Eu fiquei muito assustado, pois eu nunca havia tocado um Sire inteiro e, muito menos na Bahia e, principalmente porque os Ogans já estavam no lugar dos atabaques. Eu não tinha nem tamanho para tocar direito. Mesmo à contragosto, o Ogan que estava no Hun (Vado), o obedeceu, afinal, ninguém iria contrariar meu Pai Tarrafa. Eu toquei o Candomblé inteiro, mesmo sem saber muitos dos toques (ele queria na verdade, dar uma lição aos Ogans). Quando acabou a festa, ele reuniu todos numa sala que existia próxima ao barracão e disse: “Se eu fosse vocês, eu teria vergonha de vir um menino de São Paulo e tocar na frente de vocês, aqui no berço do Candomblé”. Eu não sabia onde colocar a cara, mas, desde então, nasceu a admiração e respeito por ele...

No outro ano, quando meu Pai Tarrafa voltou à São Paulo, novamente por ocasião da festa de Ibùalámo, ele começou a me ensinar a cantar, ele dizia que eu tinha interesse em aprender, que na Bahia os “mudernos” não queriam aprender mais nada, por isso ele me ensinava. Dizia também que não precisava ficar o dia inteiro cantando, pois eu aprendia rápido. Recordo-me que, a primeira cantiga que ele me ensinou foi um sotaque. Ele me disse: “Você precisa conhecer essas cantigas de sotaque, pois se alguém cantar um para você, você terá que saber o que responder, até que a outra pessoa não tenha mais o que cantar”.

Mais que cantigas, meu Pai Tarrafa me ensinou a postura religiosa, ele nunca parou para falar: “Vinicius, um Ogan faz isso, Ogan faz aquilo”. Eu aprendi, simplesmente observando o modo dele, vendo a postura dele, de um Ogan que entrava no barracão no início do Candomblé, e saía somente após o “Pawó”. Ele era verdadeiramente um Ogan da Linha 15, de Salvador.

Ele confiou a um “Menino de São Paulo”, muito jovem (ainda criança), o Hun de uma Casa de Candomblé da Bahia. Nunca, nunca terei como pagar tudo que meu Pai Tarrafa me ensinou. A ele, meus respeitos, minha gratidão, meu amor. Infelizmente, meu Pai Tarrafa partiu para Orùn, quando fazia uma operação no coração. Alguns dias antes de internar para a cirurgia, meu Pai se encontrou com ele em Salvador. Meu Pai Tarrafa pediu ao meu Pai que ligasse para mim, que queria me ensinar uma cantiga que havia acabado de se lembrar. Ao telefone ele me dizia: “Só vou cantar uma vez e você aprenda direito”. Mesmo pouco antes de morrer, ainda tive o privilégio de aprender uma cantiga linda de Òsàlá que, ainda hoje, passados tantos anos, nunca ouvi outra pessoa cantar. Certamente, meu Pai Tarrafa está aos pés de Olodunmare, mas aqui no Aiye, onde eu estiver sempre o reverenciarei como meu Grande Mestre, pois o maior orgulho que tive, foi ouvir dele, que eu era seu discípulo.

Passado algum tempo, mas ainda “criança”, tive mais uma honra, desta feita a de conhecer o Grande Erenilton Bispo dos Santos. Lembro-me muito bem desse dia, festa de Òsàlá na casa do meu Babalòrìsà. Lá estava ele, um homem cantando ininterruptamente para os Òrìsàs, mas com um, porém... Todos que subiam ao atabaque ele dizia que estava errado, todos que faziam uma “bossa” diferente, ele afirmava ser criação...

Ele começou a cantar Ijesa, eu então subi no Hun. Ele disse: “Se os grandes não sabem quem dirá esse menino muderno”. Foi o suficiente!!!! Nesse dia, fechei os olhos, e tocava imaginando o disco de Vadinho.. ele não me tirou do atabaque, mas eu estava meio irritado, afinal, ele tirou do Hun, grande parte dos Ogans que eu admirava à época.
No final da festa ele me chamou e me perguntou: “Menino, com quem você aprendeu a tocar ijesa”? Eu não titubeei e respondi: Com Vadinho Boca de Ferramenta. Ele riu e falou: “Menino, você tem quantos anos”? (eu devia ter uns 12 não me recordo bem). Ele então disse: “mas menino o que você tem de idade é o tempo que Vadinho tem de morto, como você aprendeu com ele”? Eu disse: “Com os discos que ele deixou gravado”. Ele então não parou de rir dizendo que eu era engraçado e me deu um cartão, pois estava montando um afoxé em São Paulo (Filhos do Korin Efan). Não dei muita importância, pois não sabia quem era ele, e embora ele tivesse tirado um monte de Ogans do Hun, ele não encostou no atabaque. Para mim, então, ele não passava de um “Tiozinho Folgado”. Foto: Meu Tio Erenilton e Eu (Opotun Vinicius).

Meu Pai, o Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo, me viu conversando com ele e me perguntou: “o que você estava falando com Erenilton”? Eu disse: “esse tiozinho quer que eu vá num afoxé que ele está montando, mas eu não vou não, por que ele é muito folgado”. Meu Pai então me disse, que esse “Tiozinho Folgado”, era na verdade, Ogan Erenilton um dos mais virtuosos tocadores da Bahia e, pior, amigo de meu Pai Tarrafa. Por insistência do meu Pai, acabei indo no endereço do Afoxé (na verdade, era a casa do Babalòrìsà Fábio de Ògún em Diadema).

Quando eu cheguei lá, meu Tio Erenilton me disse: “Chegou o aluno do Vadinho”, rindo como o que... Ele mandou que eu fosse tocar Ijesa. Fui direto no Hun, então ele indagou? É aí que começa? Então eu fui para o Hunpi. Novamente ele indagou: É aí que começa? Já bravo, fui pegar o Agogo. Logo no começo ele já foi dizendo: “ESTÁ ERRADO! VADINHO NÃO LHE ENSINOU A TOCAR AGOGO NÃO?”. Muito irritado (afinal, ele era apenas um mito, não tinha nem escutado a tocar), pedi para ele me ensinar. Ele me ensinou duas batidas de Ijesa no Agogo (uma para o Candomblé e a outra para o Afoxé). Depois mandou eu ir para o Hunpi, quando comecei a tocar ele novamente riu e falou: Pelo jeito você não aprendeu tocar Hunpi também! então, ele me ensinou a tocar o Ijesa no Hunpi. Quando eu aprendi, finalmente ele pegou no Hun e começou a tocar...
Pronto, estava humilhado por ver que eu tinha cometido a gafe de tentar tocar na frente dele. Tocando Hun, ele se tornou grande, um verdadeiro monstro, fiquei impressionado. Depois ele me perguntou: ”E aí, vai querer participar do afoxé?” Imediatamente disse que sim. A partir daí, comecei a tomar aulas com ele de Ijesa e ajudar aos meninos do Afoxé. Nos finais de semana, ele me levava com ele nos Candomblés e Àsèsès que fazia aqui em SP. Em cada festa uma aula diferente, um show que ele dava no Hun. Criei, então, um respeito e carinho incomensurável com meu Tio Erenilton. A maior festa que assisti, foi na casa do meu Pai, quando os dois Mestres, estavam juntos, Meu Pai Tarrafa e Meu Tio Erenilton, aquela festa foi antológica uma verdadeira aula de Candomblé. Meu Tio Erenilton é hoje, o Maior Ogan da Bahia, o qual todos, sem exceção, devem reverenciá-lo, pois quando ele partir, a história dos Grandes, partirá com ele. Certamente, ele será mote de uma bela postagem nesse blog. Foto: Meu Tio Erenilton e Eu (Opotun Vinicius). Festa de Ibùalámo, Ilé Alákétu Asè Ibùalámo
Eu já havia aprimorado bastante meus estudos, afinal, já tinha no “currículo” dois dos maiores Ogans da Bahia como mestres, Meu Pai Tarrafa e Meu Tio Erenilton. Por outro lado, as coisas não eram fáceis, sendo que meu Pai Tarrafa já havia falecido e, meu Tio Erenilton, após uma longa estadia morando em São Paulo, havia regressado à Salvador. Por aqui, todos comentavam muito sobre Robson do Gantois, que era chamado por todos de o Maior Dobrador de Hun de São Paulo. Para mim, era somente um nome, um mito, sendo que, sequer eu sabia como ele era fisicamente. Tinha muita vontade de conhecê-lo, sendo que ele era aluno de Vadinho do Gantois, o responsável pelo meu interesse pela música sacra do Candomblé.

Em um dia de festa das Ayabas, eu cheguei na minha casa de santo e fui ao atabaque (sempre fiz isso, chegava, tomava banho e ficava tocando antes do Ipade). Fiquei tocando e tocando, sem dar muita importância para quem estava no barracão, particularmente para um homem sentado ao lado dos atabaques, com um walkman e fone de ouvidos amarelo (um amarelo ridículo, diga se de passagem). Após eu ter tocado boa parte do que eu sabia na época, meu Babalòrìsà entrou no barracão veio ao atabaque e me disse: “Meu filho, eu queria que você deixasse um irmão de santo meu tocar o Ipade”.  Ele então chama o homem do walkman amarelo, e me apresentou, dizendo: “Esse é o meu irmão Robson do Gantois”. Eu fiquei muito sem graça, pois ele estava lá, no barracão, me ouvindo desde o começo. Foto: Meu Babalòrìsà, Pai Pércio de Airá e Eu (Opotun Vinicius) no Hun - Festa das Ayabas
Logo que ele subiu no Hun, ele começou a fazer um monte de perguntas: Com quem eu tinha aprendido a passagem xpto do Agéré que eu toquei, o ijesa, o lagunló e por aí vai. Disse que algumas coisas com os Discos do Vadinho, outras com meu Tio Erenilton e com meu Pai Tarrafa. Lembro que ele perguntou: “você conhece Erenilton”? Nesse dia, ele tocou o Ipade e toda a festa das Ayabas, eu nem cheguei perto do Hun... Observava nas passagens dele, as mesmas passagens que fiquei anos estudando nos discos.

No ano seguinte, ele foi à todas as festas da roça e sempre ficava ao Hun. O fato de eu ser um fã incondicional do Vadinho fez com que ficássemos um pouco próximos, pois falávamos dos discos. Eu então, sempre que podia, tentava conseguir alguma orientação sobre atabaque, mas depois da gafe antes do Ipade, nunca ousei tocar novamente na frente dele. Ele era de poucas palavras e não dava muito espaço. Hoje comento com ele, que atualmente ele está bem mais sociável (rs). Ele tocava o Hun nas festas e eu era uma espécie de “puxador” oficial de Hunpi dele. Entretanto, em uma festa de Nana ele me chamou e disse: “Menino, quem vai tocar hoje pra Nana vai ser você”. Eu fiquei contente e, realmente eu toquei para Nana, fiz muitas passagens e ele atentamente olhava e observava tudo com muita atenção, aparentemente ele gostava do que estava ouvindo, “aparentemente”. Foto: Meu Mestre Robson e Eu.
No final da festa ele me chamou e me disse: “Gostei de tudo que você tocou, mas quero te perguntar uma coisa: Qual a ligação de Nana com Yewa”? Eu respondi: “Acho que nenhuma, não sei!” Então ele indagou: “Então porque que na hora do Toke Daju-a, você tocou pra Yewa”? Eu respondi: “Não é assim que se toca”? Ele riu, riu, riu e disse: “Um dia eu te mostro como é o toque dessa cantiga. Aliás, você ouviu muito Vadinho, agora vou te mostrar como ele tocava, o que ele fazia com a esquerda, com a direita, o Nukaka”....Nasceu ai, uma história que está beirando os 20 anos, de muito respeito e admiração. Meu mestre jamais me cobrou um centavo para me ensinar um toque sequer, devo muito à ele, é um Grande Mestre, à quem devo respeito e que tenho muito carinho. Meu Mestre Robson me ensinou muito mais que o toque da cantiga Toke Daju-á. Teve a paciência que somente os grandes possuem, me confiou muito do que aprendeu com os seus Mestres Vadinho, Hélio, Dudú, Hubaldo e Papaú. Devo muito, muito à ele. Sou muito feliz, por ser discípulo do Maior Tocador de Hun da Cidade de São Paulo, meu Mestre Robson e mais que isso, sou feliz por ele ser um grande amigo.

Uma vez um Ogan de SP me questionou: “É Vinicius, só você quer ter mestres bons, Tarrafa, Erenilton e Robson... Eu acho que tudo isso é mentira”. Bom, sobre isso, infelizmente meu Pai Tarrafa já é falecido, contudo, seus filhos estão vivos no Engenho Velho de Brotas e podem confirmar. E meus dois outros mestres, Meu Tio Erenilton e Mestre Robson estão aí, vivos e com saúde, que podem confirmar tudo que narrei. Mas, em verdade, sou privilegiado como poucos, por ter tido mestres exemplares, da mais pura tradição musical do Candomblé. Sou feliz, ainda, por esses três mestres serem de escolas distintas, o que proporcionou um leque de aprendizado sem igual.

Mas ainda tenho muito, muito que aprender para quem sabe um dia, tornar-me também um grande tocador. E, nesse caminho à busca do meu aprimoramento musical, tenho fé nos Òrìsàs que ainda terei outros mestres que vão contribuir nesse processo infinito que é a música dos Òrìsàs.

Além dos meus Mestres, há pessoas que muito me inspiram no que concerne a arte musical dos Atabaques, uma delas, é aquele que considero muito mais que um Dobrador de Hun, mais sim, um amplo conhecedor do Candomblé Baiano, meu Tio Gamo da Paz. Quiçá um dia, eu tenha a oportunidade de nesse espaço falar dele e, mais ainda, poder com ele aprender um pouco. Outro grande homem virtuoso no atabaque que muito me impressiona é o Grande Gabi Guedes, dono de um ritmo como poucos. Espero também, poder um dia aprender algo com ele e, contar um pouco de sua história. Outro grande tocador é o grande Papadinha, meu primo carnal, mas que infelizmente em razão da distância tenho pouco contato. Ele é um exímio tocador, discípulo de Alagbés como Cipriano e Jorge da Casa Branca. Certamente, ele terá aqui, uma bela homenagem discorrendo sobre sua vida e obra. Não posso ainda, olvidar de um grande amigo que tenho, que admiro e respeito muito e com quem também aprendi muito. Ele é, sem dúvidas, o maior discípulo de meu Tio Erenilton, meu irmão Ney de Òsóòsì. Dono de um belo Hun, leva consigo a arte que aprendeu criança com Meu Tio Erenilton, Januário, Mirtinho e, tantos outros grandes e renomados Alagbés.

Bom, acredito que mostrei um pouco de quem sou, um pouco sobre meus mestres, os Alagbés que me motivaram e impulsionaram a estudar essa maravilhosa arte dos atabaques. A medida que tiver tempo, vou abordar os importantes toques do Candomblé, um pouco da história dos grandes mestres e temas relacionados a nossa religião. Espero que esse seja, verdadeiramente, um espaço em que as pessoas possam aprofundar um pouco sobre esse tema tão lindo, rico, mas infelizmente pouco comentado, que é a Música Sacra do Candomblé.

Sem mais,
Opotun VInicius

11 comentários:

  1. Parabens seu blog esta otimo.ja tive o prazer o honra de ve~lo e ouvi-lo toca e sei q apesar de tudo é otimo no q faz .......mutumba

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  2. Mirian, obrigado. É vivo Awe, E Madozan Awe.....

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  3. Lagunlò, como é chamado o ritmo de Ogun no axé qual pertenço, dizia meu avô Théo de Osun que recebe este nome por, se um toque de movimento e de suor do corpo.

    Mo tugba Oga
    Egbonmi Lúcia de Ogun

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  4. Sua bênção Egbonmi Lúcia, acho que a senhora iria postar no tópico sobre os nomes do atabaque. Sim, Lagunló é um toque de Ogun, nome esse dado outrora no Gantois, em breve, vou postar sobre esse importante ritmo, do nosso Grande Pai Ogun.

    Abs.,
    Vinicius

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  5. Meu pai Vinicius,
    A tradição narra que Ogum era caçador e costumava descer do orun
    por meio de uma teia de aranha, para caçar. Narra ainda, que quando
    todas as divindades vieram ao mundo, tiveram dificuldades para
    encontrar o caminho, competindo a ele abrir clareiras na selva com seu
    facão mágico, para que pudessem passar. Em conseqüência disso, foi
    Aclamado por todos como Osin Imale, chefe entre as divindades.
    Através desse relato, temos certeza que vc é um verdadeiro representante deste grande guerreiro,desmistificando e falando de um modo coerente sobre nossa religião,a cada dia a vaidade das pessoas crescem ,e as vezes elas pensam ser elas o próprio ORISA,me confundo em ocasiões que não sei se estou em um espetáculo teatral ou em uma casa de CULTO A ORISA,parabéns pelo seu blog,que vem elucidando ,trazendo importantes informações sobre nossa religião.Agradecemos aos seus ancestrais e a seu “ORI”,Agradeço ao meu pai Aiyra por ser sua irmã de santo, me orgulho da pessoa e do Omo orisa que vc é!!!!
    "IGI T'OLORUN GBIN KO SI
    ENI TI O LE FA ATU "
    "A ÁRVORE QUE OLORUN PLANTA,
    NÃO HA NINGUÉM QUE POSSA ARRANCA-LA "
    Iyalode Chris t`Osun

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  6. Minha irmã Chris, sua bênção!

    Faltam-me palavras para responder à altura suas linhas que, confesso, arrancaram-me lágrimas. Quando começamos um trabalho como esse, não sabemos o que vai acontecer, se alguém vai gostar, sequer se alguém vai ler....Hoje, esse blog possuí mais de 100 seguidores, algo que jamais imaginei, como jamais imaginei ter mais de 1.000 acessos (hoje, já passam dos 12.000). Me deparo com muitas críticas, algumas de desconhecidos, outras de “amigos” outras de “irmãos”. Alguns me dizem que estou falando de mais, outros que estou lhes ofendendo...Sobre isso, as opiniões expostas nesse espaço são minhas, sem querer impor nada à ninguém, tampouco ofender à alguém que pense diferente, mas sempre há os que acham que é direcionado. Nesse sentido, graças aos Òrìsàs, vivemos em uma “democracia”, quando recebo essas invariáveis críticas, penso em findar esse trabalho. No entanto, quando deparo-me com um relato como o seu, fico especialmente encorajado em continuar, em perseverar, mormente por não partir de alguém incipiente no culto dos Òrìsà e, sim, que com propriedade pode discorrer sobre nossa Cultura. Diante do fecundo vocabulário da nossa língua portuguesa, não há palavra melhor à lhe dizer que: OBRIGADO!!!! E, o orgulho é meu minha irmã!

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  7. Olá meu amigo Carlos Vinicius, fico feliz por encontrar você e seu blog, meus parabéns pelo seu trabalho, queria eu ter um mestre como você, difícil, mais já é um sonho, rs, é uma pena que eu more aqui no Rio, grande abraço.

    Gustavo Luz

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    1. Gustavo, eu quem fico feliz, quem sabe esse mundo é muito pequeno, boa sorte na sua jornada.

      Abs.,
      Vinicius

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  8. Tive a oportunidade de ver o Sr. Vinicius tocar algumas vezes no Batistini e admirei a sua postura dentro da casa do Orisá.. E fiquei admirado com tamanha habilidade e tranquilidade que dominava o run !!!

    Parabéns pelo seu carinho e amor pela nossa religião gostei de tudo que li no blog e espero quem sabe um dia conhece-lo pessoalmente e me enriquecer com seus conhecimentos.

    Asé Ogan Leonardo

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    1. Leonardo,

      Obrigado pelas palavras, infelizmente em razão da morte do meu Pai, esse ano não vou à Candomblés, mas será um grande prazer conhecê-lo.

      Abs.,
      Vinicius

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