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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Cipriano, o Alagbé do Ilé Asè Ìyá Naso Oka

Em seqüência as postagem dos Grandes Ogans da História, abaixo, falamos um pouco sobre o famoso Cipriano Alagbé do Candomblé da Casa Branca.

Aproveito, outrossim, para agradecer as muitas mensagens de incentivo que recebi, bem como, as críticas de muitos que me questionaram porque estou levantando temas polêmicos como “Se Existe Ogan Raspado”. Concernente à isso, estou tranqüilo (e muito por sinal), pois em momento algum não fui verdadeiro com o que aprendi. Lembro, ainda, que o tema pode parecer polêmico aqui em SP, conquanto, em Salvador, a terra onde o Candomblé nasceu (Pois o Culto aos Òrìsàs nasceu na África, mas o Candomblé, esse é soteropolitano) esse tema não é tabu algum.
 
Por oportuno, reitero aqui, o mote maior desse Blog que, nada mais é que, relembrar a História dos Maiores Ogans do Brasil, da Cultura dos Ogans e do Atabaque.


Enfim, mas vamos ao que interessa que é falar um pouco sobre um dos maiores Ogans da História, Pai Cipriano Alagbé. O aclamado Cipriano Alagbé, foi um dos maiores nomes do Tradicional Candomblé da Bahia.

Nasceu, em Salvador, Cipriano Manuel do Bonfim, filho do decano Ogan Sr. Manuel do Bonfim, que era Ogan da Ìyálòrìsá Ursulina Figueiredo (Mãe Susú da Casa Branca). Cipriano Alagbé foi confirmado por Maximiniana Maria da Conceição (Tia Massí – Iwin Funké), em meados da década de 20, para o Omolu de Tia Lucia. Talvez, a grande maioria dos Ogans de hoje, não sabem que esse, foi sem dúvidas, um dos maiores Ogans da Bahia.


Para ilustrar, basta mencionar que Cipriano foi mestre de Erenilton Bispo dos Santos (Elemoso do Òsùmàrè), de Luiz Angelo da Silva (Luiz Gbangbala) e Jorge Alagbé (Casa Branca), dentre outros. Mestre Cipriano, fez parte da geração dos insuperáveis mestres como Pai Preto, Antônio Manuel do Bonfim (não confundir com o Pai de Cipriano –Sr. Manuel do Bonfim), Seu Eduardo (Pai de Vadinho) e, tantos outros. Os antigos comentam que o próprio Cipriano fazia seus atabaques. Meu Tio Erenilton disse que: “Ele me ensinou a fazer atabaques de dendezeiro, a escolher o pé certo para dar o som bom e não apodrecer. Esses atabaques do Engenho Velho foi ele quem fez”.


Além dos Atabaques, na Casa Branca do Engenho Velho, há um banco de madeira, que Ekeji Sinha me mostrou dizendo:


Veja esse banco, ele pertenceu ao Pai Cipriano, o Mestre do seu Mestre Erenilton...”.


Mãe Sinha me disse, ainda que, ele por vezes, ficava sentado nesse banco, cantando o Candomblé, coisa que adorava a fazer e, fazia como poucos. Comenta-se que Cipriano era muito exigente com a música no Candomblé, preocupava-se muito com o ritmo e a atenção dos Ogans. Edvaldo Araújo, o conhecido Papadinha da Casa Branca, discorre sobre o Mestre Cipriano à Jorge Luiz Sacramento de Almeida:


“Seu Cipriano suspendia a cunha do atabaque (desafinava) para ninguém tocar e se ele ouvisse de sua casa alguém tocando os instrumentos, descia para reclamar. Ele dizia que lugar de aprender é no erê (ritual interno do Candomblé). E cantava de costas para o atabaque; quem errasse, ele já identificava e mandava descer da bancada”.


Cipriano era muito querido por todos. Meu tio Erenilton, com lágrimas nos olhos, me disse:


“Quando acabava o Àsèsè, ele de terno e, um chapéu branco, levanta-se e cantava: Arole Imose Yin-o....... Ele então tirava o chapéu, apresentava ao público e dançava no fim do Àsèsè”.Quando eu era “muderno”, todo mundo achava que ele estava xingando as pessoas, pois ninguém sabia o que aquilo queria dizer. O pessoal falava: “Vai lá Cipriano, dançando e xingando todo mundo aqui! Mas, uma vez ele me falou que houve uma grande mortandade no Candomblé do Engenho Velho, muita gente antiga morreu. Então fizeram os ebós necessários para acabar com aquela mortandade toda. Então, ele (Cipriano) fez essa cantiga, pedindo à Òsóòsì, que não morresse mais tanta gente, pedindo à Òsóòsì vida, por isso que ele se Levantava, Dançava e Cantava! Desde então, nunca mais morreu tanta gente na Casa Branca igual àquele tempo. E, é por isso, que eu (Erenilton), quando termino um Àsèsè, me levanto como meu Mestre Cipriano me ensinou e canto a mesma cantiga, pedindo Vida à Òsóòsì...”.


Nessa hora, meu Tio Erenilton, com a voz embargada completa:


“Nunca Mais! Nunca Mais vou Ver Meu Mestre Cipriano, Fazendo Isso, Nunca Mais!....


Narra ainda, que no dia de Òsóòsì na Casa Branca, ele era um fenômeno, um espetáculo, que cantava e cantava sem repetir uma cantiga. Comenta também, que outra tradicional cantiga do Engenho Velho, também é de autoria de Cipriano “Okerele Okerele....”. Disse que quando Cipriano entoou essa pela primeira vez, no dia da Missa de Òsóòsì, todos os santos se apresentaram, que foi lindo, ao som do Agere.


Sim, Cipriano, o Grande Alagbé, o Grande Mestre partiu, mas deixou um legado! Legado esse perpetuado pelos Ogans da Casa Branca, por meu Tio Erenilton, por Ogan Gbangbala e outros. Seja no Banco que lhe pertencerá e que, permanece ainda hoje no barracão da Casa Branca, seja no famoso Sete de Setembro (Nome dado ao Hun da Casa Branca, aludindo a data da primeira “encora”) feito por ele, ele está presente. Certamente, o Mestre está alegre no Orun, cantando suas cantigas de Òsóòsì, cantando as cantigas de Osogiyan para Mãe Massi! Viva sempre, esse Grande Mestre.


Sem mais,
Opotun Vinicius - 11/04/11

10 comentários:

  1. Mais um entre tantos mestres tendo um pouco da sua história contada pelo grande Ogan Vinicius.é bom conhecermos todas as histórias para darmos valor aos nossos precursores, por todas as dificuldades que passaram e enaltecer cada vez mais o amor que eles tinham em reverenciar os nossos orixás. Ogan Vinicius, meu irmão, muito obrigado por nos colocar no seleto grupo de conhecedores dessas maravilhosas histórias de vida,amor e sobretudo fé!que Oxalufã e Ogum te abençõe cada vez mais!!!!!

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  2. como diz minha mae juju não podemos viver o presente nem o futuro sem lembrarmos do passado
    parabens mais uma vez pai vinicius, abrindo o tunel do tempo nos brinda com esta passagem malhavilhosa de um dos grandes mestres do passado ,passado este metaforico pois é vivo e presente entre nos estes mestres que hoje são essas , nos olhando observando guardando e protegendo reliquias de nossa nação candomble mais uma vez parabens pai vinicius

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  3. Carlos,

    Obrigado pelas palavras, sou apenas alguém que tive a oportunidade (e curiosidade – rs), de saber sobre esses Grandes Nomes da Nossa Cultura. Espero, com esse espaço, paulatinamente expor esses nomes esquecidos, pois são muitos, muitos os grandes Ogans que merecem nossa atenção.

    Abs.,
    Vinicius

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  4. Aldeia de Ogun,

    Certamente Mãe Juju está certa em suas palavras. Um antigo provérbio Yoruba diz que: Saiba o Nome dos Seus Pais, Avós e Bisavós, para saber dar Nome aos Seus Filhos, Netos e Bisnetos. Não há documentos que fundamentem nossa religião, por isso, a lembrança desses antigos sábios, mestres de uma cultura pouco difundida e, por vezes, marginalizada que é a Cultura dos Ogans, deve ser exposta e enaltecida. Agradeço suas palavras e, garanto-lhe que fico muito feliz por ter gostado.

    Abs.,
    Vinicius

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  5. (Com lágrimas nos olhos) Por que não temos mais isso nos dias atuais? por que não existe mais este respeito com as pessoas mais velhas? Por que o pensamento de muitos dos que se denominam "OGANS" hoje em dia é somente ser melhor do que o outro? Sinto saudades de um passado que não viví mas que certamente está vivo nas poucas das passagens de Rwn e nas poucas cantigas que sei (ainda que incorretas) cantar...

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  6. Me emocionou, Vinicius! Lembrei-me de meu mestre de Atabaques e Batás, o mestre Barroso... Uma figura lendária - provavelmente um dos maiores de sua época, aqui em São PAulo - que um dia vou homenagear em meu blogue também.

    Orbigado pela postagem!

    Ayan Gbo Gbo O!

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  7. Obashanan,

    Que bom que te fez recordar seu mestre, espero em breve ver sua homenagem à ele em seu Blog, ficamos no aguardo.

    Abs.,
    Vinicius

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  8. Pois é Buda, por vezes me pegando pensando exatamente a mesma coisa. Hoje, a grande maioria dos “jovens” pouco importam-se com os antigos, muito menos, em respeitá-los. Não sabem talvez, quão duro será não tê-los mais para servir de exemplo. Uma vez ouvi a catedrática Mãe Bida de Yemoja dizer: “Sou triste por não ter meus mais velhos para pedir à benção”.....

    Abs.,
    Vinicius

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  9. NOSSA MEU IRMÃO MUITO ODARÁ SUAS PALAVRAS, MEU PAI TEVE O PREVILÉGIO DE VER O MESTRE CIPRIANO EO MESTRE MANOEL BOMFIM SOU FILHO DO PAPADINHA DA CASA BRANCA UM DIA FAÇO UMA DESSA PRA ELE ASÉ Ô!

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  10. Eddy,

    Seu Pai é um dos maiores representantes do tradicional Candomblé Baiano, que aprendeu com os Grandes. Não tenha dúvidas de que, em muito em breve vou falar da história dele. Abs. Vinicius

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