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quarta-feira, 13 de abril de 2011

Maktub - Minha Avó, Percília Araújo

Maktub, Embora seja Candomblecista desde que nasci, valho-me desta expressão islâmica (Maktub) a qual diz que inevitavelmente, tudo o que acontece no universo está previsto pela vontade Divina. E, foi por vontade divina, que minha avó paterna, Dona Percília Araújo, partiu para o Orun em 12 de abril de 2011.


À luz da concepção religiosa dos Yorùbás, minha Avó cumpriu sua missão no Aye por completo, afinal, deixou-nos Agbalagba (anciã). Cumpriu todas as etapas de sua vida, nasceu, cresceu, teve filhos, netos e bisnetos e se foi quase que centenária.

Recordo-me das vezes que fui à Castro Alves, cidade do Recôncavo Baiano, onde minha Avó morava e que hoje, repousa em paz. Sempre atenciosa comigo e com minha irmã, os filhos de “Binho”, maneira carinhosa a qual ela chamava meu Pai. Recordo-me do feijão verde que ela nos fazia e do mangalô, outra iguaria, sem igual quando feita por ela. Por ter medo de viagens, jamais veio à São Paulo, ver tudo o que seu filho Binho fez. Alias, o medo de viagens não era a única particularidade dela que remete-nos às pessoas do tempo de outrora, que quase não existem mais.

Minha Avó, descendia de Índios, razão talvez pela qual era profunda conhecedora dos segredos da mata, como poucos, sabia preparar banhos, ungüentos e chás curativos. Talvez, essa tenha sido a mola propulsora da ligação do meu pai com as folhas e, por conseqüência dos seus filhos.

Minha Avó, não pertencia ao Candomblé, contudo respeitava muito a missão do seu filho, o meu Pai José Carlos, aliás quando meu pai foi iniciado, ela questionou o porque de Ibùalámo, pois conforme um acontecimento quando da gravidez dela, o santo seria outro..... conforme transcrevo abaixo:

"Quando eu estava grávida de "Bim" (Bim, é o apelido que meu pai recebeu de seus familiares ainda criança) eu estava passando por uma mata, carregando um feixe de lenha com Firmina, quando vi um homem negro alto em uma árvore. Esse homem negro, flechou minha barriga e então desmaiei. Quando acordei, comentei com Firmina que havia perdido a criança, sendo que um homem havia flechado minha barriga. Ela então se pegou a rir, dizendo que ninguém tinha flechado ninguém, e que eu na verdade devia ter visto "Oxosse"..."

Quando meu Pai foi iniciado, ela perguntou que santo ele havia feito, ele então disse que Ibùalámo. Na hora, minha Avó disse que estava errado, e que seu santo era "Oxosse" o caçador. Ela então, contou a história da flechada (até então, desconhecida). Meu Pai explicou que Ibùalámo, à exemplo de Òsóòsì era um grande caçador que tinha um grande enredo com Obaluwaiye. Nesse momento, ela disse que o santo estava certo, sendo que a pessoa que estava com ela quando foi flechada (Firmina) era filha de Obaluwaiye”....

Vejo meu Pai como uma pessoa que fora escolhida, no entanto, creio que as pessoas são escolhidas em função de sua ancestralidade. Por isso, hoje, no dia do sepultamento de minha Avó, refleti sobre a sua importância na estrutura religiosa da minha família.

Creio que hoje, se meu Pai é um Sacerdote Sério, Digno e Conhecedor, em suma deve-se à ela. Por conseqüência, a espiritualidade minha e de minha irmã, a paixão pela religião, também, em parte devemos à ela. Aliás, se Obaluwaiye é um santo tão importante em nossa família, é por conta dela.

Minha Avó Percília Araújo, a Mãe de Binho partiu, está no Orun, mas tenho plena convicção que de onde ela está, certamente olhará pelos seus familiares. Agora, retornou ao meu Avô, Rosalvo Santana, que estava lá, com um violão na mão, cantando uma serenata para recebê-la.

Olorun Kosi Pure!!!
Olorun Ase Nde!!!

Sem mais,
Carlos Vinicius 13/04/2011

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