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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Miguel Santana, o Fidalgo Ògán do Opo Afonjá

Em continuidade as histórias dos Grandes Ogans, hoje falo sobre aquele que foi considerado fidalgo entre os membros da Comunidade Nàgó, o Oba Are do Ilé Asè Opo Afonjá e Oje Orepe do culto à Egúngún, Miguel Santana.


Nascido na região do Pelourinho, aos vinte e nove dias do mês de setembro de mil oitocentos e noventa e oito, Miguel Arcanjo Barradas Santiago de Santana, fora confirmado no Candomblé da Casa Branca do Engenho Velho, mas ganhou notoriedade e respeito no Ilé Asè Opo Afonjá, de Mãe Aninha, onde recebeu o título de Oba Are.



A importância de Miguel Santana para o Opo Afonjá pode ser constatada nas frases derradeiras da saudosa Ìyálòrìsà, Mãe Aninha, conforme relato do Alapini, o Sr. Deoscorédes Maximiniano dos Santos, o Mestre Didi:

“No dia 3 de janeiro de 1938, às nove horas, Iyá Obá Biyi reconheceu a hora da morte, uma vez que, devido aos seus conhecimentos, estava ciente do seu fim e tinha até roupas preparadas para o enterro. Chamou, então, seu neto, o Assobá (eu próprio), o Obá Aré, Miguel A. de Santana e a Ossi Dagan, Senhora. Chegaram imediatamente e se apresentaram ao lado da cama onde ela se encontrava, em um quarto da atual casa de Ossanhe. Iyá Obá Biyi (Mãe Aninha), já com a fala um pouco incompreensível, disse: "Obá Aré, Obá Abiodun fica como Presidente da Sociedade, e você eu quero que fique ao lado de Ossi Dagan, Iessé orixá (nos pés do Santo)".


O reconhecimento na hora da morte, por Mãe Aninha, evidencia de forma contundente a importância desse Ogan para a história do Opo Afonjá e, por conseguinte, das demais tradicionais casas de Candomblé da Bahia.


Muito embora, tenha ganhado fama nos Candomblés da Nação Ketu, Miguel Santana era descendente de uma tradicional família da Nação Tapa, os quais detinham o Segredo do Culto à Idako (Danko) e Igunuko.


Miguel Santana e, sua família, cultuava o Ancestral Igunuko, em uma árvore onde hoje está situado o Vale do Bonocô, em Salvador. Muito provavelmente, o nome “Vale do Bonocô” seja alusão ao nome do Ancestral cultuado outrora naquele lugar. As cantigas dessas Divindades são ainda conhecidas hoje no Ilé Asè Opo Afonjá, por aqueles que tiveram a oportunidade de ouvir Miguel Santana entoá-las. Sobre o Vale do Bonocô, Valdeloir Rego, comenta:


“Em outro ponto da cidade onde existe uma baixada chamada Baixa do Bonocô, antes Gunocô, que é uma corruptela de Igunokô (...), essa pequena área que hoje deu nome a todo o vale (Vale do Bonocô), era onde se fazia a maior concentração de negros”.


Mas como disse no inicio do texto, Miguel Arcanjo Barradas Santiago de Santana era considerado nobre à época, atingiu ascensão financeira, foi empresário na administração de embarcações no porto. Conforme Marcos Roberto de Santana, a posição de prestígio financeiro de Miguel Santana o fez figurar no livro As elites de cor na Bahia, de autoria do sociólogo Thales de Azevedo.


Comungou da amizade de pessoas como Pierre Verger e Jorge Amado. Sobre o último, é importante frisar que o personagem Miguel Arcanjo da obra do autor, foi inspirado no Grande Oba Are do Candomblé do São Gonçalo, conforme o próprio Jorge Amado narra:


‘Sou um Obá, e acho que isso explica tudo. [...] É o caso de Carybé, de Caymmi, como também de um homem que já faleceu, Miguel Santana, sobre o qual construí o Pedro Archanjo de Tenda dos milagres - ele não é o único, Archanjo é a soma de pessoas diferentes, mas uma delas é Miguel Santana, Obá Aré, que já foi um personagem importantíssimo na vida do povo. Ele já morreu. É nesse sentido que sou um obá, isto é, uma pessoa que o povo conhece, ama e respeita”.


Miguel Santana foi também, alfaiate, sendo considerado além de nobre, um Ogan de elegância particular, Jorge Amado comenta no Livro Bahia de Todos os Santos:


Encontro no peji de Xangô, o velho Miguel Santana, o mais velho, o mais antigo dos obás da Bahia, o derradeiro dos obás consagrados por mãe Aninha, vestido no maior apuro como se fosse para uma festa de casamento. Assim se veste sempre, mantendo aos 85 anos contagiosa alegria de jovem. Quem não o viu dançar e cantar numa festa de candomblé não sabe o que perdeu. Quantos filhos você semeou no mundo, Miguel? O sorriso modesto, a voz tranqüila: Descemos juntos a Ladeira do Cabula, a voz de Miguel Santana Obá Aré recorda distantes acontecimentos. Sabe mais sobre a Bahia do que os doutores, os eruditos do Instituto, os historiadores e os membros da Academia. Sabe por ter vivido. Foi rico e é pobre, teve mando de barcos, hoje possui apenas o respeito do povo - a bênção, Obá Aré! Deus lhe salve, seu Miguel Santana”, escreveu Jorge Amado no livro Bahia de Todos os Santos”.


A narração acima ilustra que, além de um homem elegante (vestido no maior apuro), o Oba Are do Opo Afonja, fora rico, entretanto nos últimos anos de sua vida, possuía apenas o respeito do povo...


A condição derradeira de Miguel Santana, não mancha, em nada, a história desse que foi, talvez, o Ogan de maior representatividade no meio social da Bahia.


Ora, para muitos o que digo acima, pode soar estranho, ao passo que tivemos outros como Jorge Amado, Carybe e Vinícius de Moraes. No entanto, somente ele, Miguel Arcanjo Barradas Santiago de Santana, tinha legitimidade religiosa, dentre todos os “nobres”.


Conforme dito, Miguel Santana descendia de uma importante Nação (Tapa). Com seus ancestrais aprendeu o segredo do Culto. Há registros os quais comentam que Miguel Santana, cantava por horas, paras as Divindades Igunuko, Danko e Kajapriku, a última que aprendera com Mãe Aninha, da Nação Grunci.


Mas, Miguel Santana, não perpetuou-se apenas em meio as Comunidades Nago, como nobre, não podia ser diferente, por exemplo, fora homenageado com o Teatro que leva seu nome, no Centro Histórico de Salvador, bem como, o Centro de Estudos Miguel Santana!


Além da importância religiosa desse Ogan, não podemos olvidar que, à época, ante tanta repressão e perseguição, o Candomblé ter em seu quórum, um membro da estirpe de Miguel Santana, contribuiu certamente, para alavancar as tradições do negro na sociedade cível. Elucida, também, a perspicácia de Mãe Aninha, em identificar nele, mesmo na hora de sua morte, a importância que o mesmo teria no processo de construção da imagem do povo de sua casa (o Afonja) e, mormente do povo do Candomblé.


Figuras representativas como Miguel Santana, contribuíram para que o Candomblé chegasse onde chegou no Brasil, por isso, quão bom seria, a aparecimento de novos como ele, que desta feita, não levasse o Candomblé ao futuro, mas que sim, refletissem sobre o passado, fazendo com que a religião voltasse a cultuar o Òrìsà como outrora e que, contribuíssem para o processo de construção de imagem desta religião tão massacrada por muitos.


Sem mais,
Opotun Vinicius

7 comentários:

  1. Meus parabéns Vinicius.Tive o prazer de ouvi-lo quando ainda podia cantar.Fui amigos dos seus filhos e filha, hoje somente sua filha Jaguaracira e vida. Ela perdeu recentemente um filho Zé Grande , Oje do Terreiro de Bàbà Ágbòulá.Ele era pai de: Antonio Alberico de Santana(Kakanfo,Oba do Afonja), Jaguaracy Santana, Almir Santana ( Todos Ojes do Terreiro de Bàbà Ágbòulá)Didi Alapini, montou o terreiro de sua família Asipa, com as tres famílias: A dele Asipa, Miguel Santana e de Paizinho Arcenio.
    Um abraço

    Oje Deyi, Ile Òlukòtun.

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  2. Oje Deyi, Ore Mi, Mojuba!

    Fico muito contente por ter gostado, primeiramente por ter conhecido o Grande Miguel Santana e, por ser do mesmo Asè que o mesmo, o Ilé Asè Opo Afonja. Realmente, Miguel Santana também teve e tem agora como ancestral, grande importância para mestre Didi. Alias, a foto que ilustra o texto, fora retirada do CD ROM, Ancestralidade Africana no Brasil, de mestre Didi, justamente na parte que ele menciona o Oba Are ati Oje Orepe Miguel Santana. Espero continuar ver sua participação nesse Blog e, em breve, vou escrever, conforme sua sugestão sobre a antológica “Linha 15”.

    Um grande Abraço.
    Vinicius

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  3. Fico feliz em saber que você se preucupa em momstrar ao novos adeptos da religião quem foram estas pessoas que ajudaram a manter a religião. Tenha a certeza que todos os ancestrais que aqui você relata, vai lhe cubrir de ase. A Linha 15 foi uma forma de se ir a todos os candomblés da epoca com uma passagem só. Poucas pessoas conhecem esta historia.

    Um forte abraço.

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  4. Oq eu posso falar é q o seu blog vicia kkk cada semana um história melhor q a outra se todos se doaçem apenas um pouquinho do seu saber nao estariamos tao destantes uns dos outros mas uma vez parabens

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  5. Mirian, que bom que está gostando e acompanhando o Blog. É meu dever, compartilhar um pouco da história que aprendi com os mais velhos, sobre esses grandes Ogans. Esse semana, vem uma nova história,aguarde!

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  6. gostari de saber qual o significa do ogan o que faz e qual suas qualidades

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    1. Junior, nas diversas postagens do blog, constam as respostas às suas perguntas... Abs. Vinicius

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