Pesquise no Meu Blog

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Desmistificando os Toques: Bravun, Sató e Savalú

Hoje vou falar um pouco, sobre três importantes toques da cultura Nago-Ketu, que são amplamente confundidos, seja nas variações rítmicas do Hun, seja nas variações de suas danças.

Os nomes desses toques variam entre casas, mas vou escrever e nomeá-los da forma que aprendi, ou seja: Bravun, Sató e Savalú. Esses, são três importantes toques usualmente executados que, por assim dizer “pegamos emprestados” da tradição Jeje, englobando-os em nossa cultura Nago-Ketu.


Antevendo que haverá, uma grande confusão no que concerne a identificação de qual toque estarei me referindo, ao longo deste texto, mormente em função da nomenclatura dispare entre os Ogans, vou ilustrá-los por meio de três exemplos. A saber:

--> Faixas 7 e 10 do CD Odun Orin, respectivamente, dos Òrìsàs Òsùmàrè e Yewa, gravados por Gamo da Paz.

--> Vídeo: Savalú, fornecido à mim, por Gabi Guedes.

Inicialmente, vou falar do Sató e Bravun, pois vejo que existem dúvidas e erros graves no que tange a execução desses toques no Hun, bem como, na execução de suas danças.

Para muitos, não há diferença entre os toques (nesse caso, me desculpem a sinceridade e objetividade, mas para quem pensa dessa forma, faltam-lhes duas coisas básicas para tornar-se um bom tocador: bom ouvido e bom mestre! E não adianta, os dois são necessários!

Àqueles que possuem bom ouvido e desejam aprender, peço que escutem de forma atenta ao Sató (principalmente as frases musicais do Hun), da faixa 10 (Yewa), que posto abaixo.


A magnífica gravação na interpretação de Mãe Delza, mostra-nos um toque cadenciado e como se fala em Salvador (sem “descarrilar”).

Agora, peço que escutem com o mesmo acuro, o Bravun, constante na faixa de número 7 (Òsùmàrè), do mesmo CD Odun Orin.


 

Conforme a primorosa execução de Gamo da Paz, o Bravun, mostra-se totalmente distinto do Sató. Desta feita, um toque com mais frases musicas (e, principalmente, distintas do Sató) e um pouco mais acelerado (algo bem diminuto).


O que desejo, em verdade, é chamar atenção para as variações tênues entre esses dois toques (e aqui, nem me refiro ao nome, que varia entre as três maiores escolas de atabaques de Salvador: Gantois, Òsùmàrè e Casa Branca – Bravun, Sató, Savalú, Modobi, Hunto, Zandó e, por aí vai – nesse âmbito, sugiro que cada um, veja com seu Mestre ou com seu Sacerdote, a nomenclatura a ser utilizada, em conformidade a sua escola musical que deve estar em consonância ao seu Asè).

Isto posto, chamo atenção para três pontos de fundamental importância que, conforme minhas andanças, observo que estão ficando de lado, em relação ao Bravun e Sató e, por conseguinte, deturpando toda a história musical do Candomblé. Quais sejam:

1: Saber diferenciar as frases musicais desses dois toques; (é papel do Ogan, daquele que está à frente do Hun saber as diferenças entre os dois toques, o que vejo e muito, é que os Ogans inserem as frases musicais do Bravun no Sató, mas como diz meu Tio Erenilton, e o pé menino, como fica?).

2: Saber diferenciar as frases coreográficas desses dois toques; (em complemento a observação acima, de nada adianta o Ogan saber que no Sató, não existem todas as frases musicais do Hun que há no Bravun, se a pessoa que estiver dançando, executar as frases musicais do Bravun, enquanto o Ogan estiver tocando Sató).

3: Saber em quais cantigas aplica-se um ou outro: (caso os Ogans e as Iyawos/Egbon-mi souberem executar, cada um em seu papel, de forma distinta o Sató e o Bravun, não haverá problemas, desde que não se cante - rs. É aqui onde mora o problema, como o Ogan saberá que uma cantiga é Bravun e a outra é Sató? Bom, certamente não será nesse Bolg! Cada vez mais, recomendo àqueles que querem aprender a arte dos atabaques, tenham um mestre! Sem mestre, o Ogan poderá até tocar algumas coisas de forma correta, mas dificilmente tudo. O mestre é o mentor do seu discípulo, ele e/ou seu sacerdote deverá saber informar qual cantiga é Bravun e qual é Sató).

Outro ponto importante: FAÇA O FEIJÃO COM ARROZ! Sei como é ouvir, por exemplo, um disco de Vadinho e depois querer fazer tudo aquilo no Candomblé, mas vá com calma! É muito melhor (e mais bonito), você executar uma menor quantidade de variações, de forma correta e com esmero, do que fazer dezenas de passagens sem começo, meio e fim, de forma desconexas, que deixa à todos (sobretudo os Òrìsàs), estarrecidos. Uma vez, em um Candomblé com meu tio Erenilton, um Ogan fez um monte de passagens para Ogun, ao final, meu tio perguntou para ele: “Venha cá, você sabe fazer no pé, todas essas modernidades que você inventou com a mão?”.....

Converse: É de suma importância que os Ogans resgatem a conversa com as iyawos e Egbon-mi em relação a dança, afinal, a música no Candomblé, é composta de diversas variáveis, dentre elas a dança. É importante que os Ogans, Iyawos e Egbon-mi se entendam, conheçam a dança e toque do outro. Quando você ver em uma casa, que quando o Ogan saí do Hun, todas as mulheres olham feio, tenha certeza, eles se conversam. A Iyawo/Egbon-mi, sente-se confortável em dançar com alguém que ela conhece o Hun, que ela sabe que não “inventará modas” no atabaque, somente porque há um Ogan de uma casa irmã, presente. Logo, ela não quer que ele dê o Hun à outro. Vejo muitos Ogans dizerem: “Eu faço a passagem na minha casa, mas ninguém acompanha”. Eu os indago: “Você já parou para ensinar???” Então, meus conselhos sentem e conversem.

Bom, mas o que é o Savalú. Abaixo, posto um vídeo do grande Gabi, gravado no festival, tudo é percussão em Salvador.



O Savalú, é um ritmo cadenciado, com frases de Hunpi e Hunlé, semelhantes ao Jiká. Esse, sem dúvidas, também é um toque em que, a dança e o atabaque devem estar em total harmonia. Há algumas formas distintas, de “chamar” a passagem da dança do Savalú, por meio do Hun, por essa razão, reforço a necessidade dos Ogans reunirem-se com as iyawos e Egbon-mi, objetivando alinhar essas particularidades. O Savalú, muito utilizado para Òsùmàrè,  merece toda nossa atenção e estudo.

No Jeje, especificamente, há outros toques, como, por exemplo, o “quebrado”, mas que não vou ousar a discorrer, pelo fato de não ser um toque utilizado no tradicional Candomblé Ketu. Esse não nos apropriamos.

Bom, uma vez mais, espero ter contribuído um pouco para o entendimento de alguns toques do chamado candomblé Nago-Ketu, a qual pertenço. Aproveito, por oportuno, para agradecer a receptividade e elogios sobre os temas aqui postados, bem como, as sugestões que estou recebendo de amigos.

Quero também, afirmar que em momento algum, nesse veículo de comunicação, revelei ou revelarei os segredos da minha religião, que é permitido somente à alguns iniciados, estou sim, divulgando aquilo que se pode falar, aquilo que muitos não falam, não porque querem manter o “Awo” e sim, porque não conhecem.

E, por fim, peço sinceramente aos Ogans, vamos resgatar a nossa cultura antes que ela se finda!

Abs.,
Opotun Vinicius

4 comentários:

  1. Pow Vinicius, que aula hein. ah, você tocou num ponto interessante do qual também conversamos sobre a questão das passagens. e com o seu ensinamento ( do qual serei eternamente grato), consigo, hoje, deiferenciar o Sató do Bravun de forma bem mais fácil já que eu incorria no mesmo erro de achar que os toques são " quase " iguais. e sobre a importância do mestre, não tenho nem o que falar, pois encontrei em ti essa pessoa, que pacientemente, no Ilê Alaketu Axé Ibualamo, me ensinou coisas que levarei para o resto da vida e com a eterna gratidão de um díscipulo para com o seu mestre. parebéns mais uma vez. fico feliz e orgulhoso por fazer parte dessa casa fantástica onde do patriarca, o meu querido pai José Carlos Ibualamo, a todos os outros componentes do egbé, vemos que o amor incondicional aos orixás, é a mola mestra q move nossas vidas no Ayê. obrigado por tudo.

    Asé o!

    ResponderExcluir
  2. Carlos,

    Fico feliz com suas palavras e, por saber que está discernindo todas essas informações relacionadas a sublime arte dos tambores. E, acredite, um mestre sem alunos, não é mestre!

    Abs.,
    Vinicius

    ResponderExcluir
  3. Vinicius com sua licença..

    Sei que já faz algum tempo que postou o assunto acima acho que até por esse motivo não consegui acessar aos videos ,mas como só conheci seu blog agora lhe pergunto será que haveria possibilidade de atualizar os mesmos ??

    Ficarei extremamente grato

    Leonardo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Leonardo,

      Vou procurar esses videos e corrigir esse problema.

      Abs.
      Vinicius

      Excluir