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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Gabi Guedes, O Agidavi de Ouro da Bahia

Hoje vou falar um pouco, sobre a história de mais um dos grandes Mestres dos Atabaques, o Agidavi de Ouro da Bahia, Gabi Guedes.

Foi em 1.962, no Alto da Federação, bairro que abarca em seu seio, o Terreiro de Mãe Menininha do Gantois e que é circundado por diversas das mais respeitadas Casas de Candomblé, que nasceu Gabriel Guedes dos Santos.

Sua história com a música do Candomblé iniciou-se muito cedo, mas precisamente no quintal de sua casa, de onde ouvia o virtuosismo do aclamado Euvaldo Freitas dos Santos, o grande Vadinho Boca de Ferramenta, que no Gantois, tocava o chamado “Busca Longe”, e que de fato, tinha o poder de buscar o menino Gabriel para aquele Terreiro.
E foi a proximidade da sua casa com o famoso Ilé Omi Asè Ìyá Mase, o Gantois, que fez traçar o destino de Gabi para a arte dos atabaques. No quintal de sua casa, ao lado da Casa de Candomblé, ele ficava tocando latas, Gabi com sorriso fácil diz:

Aqui era o nosso Candomblé, eu tocava, e fazíamos roda e tudo”.

Gabi Guedes vêm de uma família de pessoas do Òrìsà, sua avó, a antiga egbon-mi do Gantois, Maria Felipa de Ògún, ficava atenta as inocentes brincadeiras do neto e, observava que mesmo nas latas, o menino já apontava o seu futuro para música.

E foi ela, Dona Maria Felipa de Ògún, que em um dia de obrigação no Gantois, levou o neto Gabriel para tocar.

Gaba (nome que era chamado pela avó), venha estão precisando de você no Terreiro”.

Nesse dia de Oro, o menino Gabi tocou pela primeira vez nos atabaques da casa onde, futuramente, seria iniciado para os Deuses Africanos, pelas mãos da querida Ìyálòrìsà Mãe Menininha do Gantois. Não por acaso, executou um dos toques mais queridos e admirados do Candomblé, o Agéré de Òsóòsì. Tocou aquilo que sabia por ouvido, que aprendera da sua casa, ouvindo o som que vinha do Gantois. Sua avó, no ouvido do neto dizia:

Toca mais, Toca Mais”.

Decorridos mais de 40 anos daquele momento, em que o Menino “Gaba” tocou o Agéré pela primeira vez, Monica Millet, neta de Mãe Menininha e experiente musicista comentou ao Jornal A Tarde:

Gabi é o Agidavi de Ouro da Bahia, ele ainda tem a elegância do Agéré, que está se perdendo”.

Desta forma, Gabi Guedes, definitivamente entrou para a Música Sacra do Candomblé.

Deste dia em diante, a presença do menino Gabriel no Gantois era certa. Por volta dos 6 anos, ficava observando atentamente o Grande Mestre Vadinho do Gantois, seus irmãos, Hélio e Dudu além de Loló e Edinho Carrapato. Tentava repetir tudo que ouvia daqueles “Monstros Sagrados”, para depois, no quintal de sua casa, fazer o seu “Candomblé de Latas”.

Comenta que jamais fez sequer uma pergunta à Vadinho. Ficava somente observando atentamente as passagens do atabaque e como os Òrìsàs respondiam na dança, sendo que depois tentava fazer da mesma forma como os seus Mestres. Comenta também que, além do Gantois, ia muito ao Terreiro de Mãe Senhora de Yewa, que era junto à sua casa e ao Gantois, antes de instalar-se na Praia Grande - Salvador. Essa proximidade com a casa de Mãe Senhora fez nascer em Gabi, um grande fascínio por Yewa e pelos seus toques: Savalu, Sató e Bravun. Narra que ama tocar para todos os Òrìsàs, mas que tem uma predisposição maior em tocar para a Deusa do Rio Yewa.

Prova disso, é a execução primorosa do toque Savalú, que Gabi Guedes apresentou no festival soteropolitano “Tudo é Percussão”, e que exponho abaixo, para deleite e estudo dos apreciadores dos tradicionais toques de Candomblé.


O toque acima evidencia a facilidade de Gabi em tocar os atabaques, mostra, sobretudo, o virtuosismo de alguém que ama o que faz, contagiando-nos com sua arte.

Mas Gabi Guedes, não centrou seus estudos, somente na música do Candomblé. Durante 9 anos, trabalhou como percussionista ao lado de Jimmy Cliff, na Oneness Band, passando por países como USA, Alemanha, França, Havaí, Taiti, Austrália, Suíça, Itália, dentre outros.

Além de ter participado do Balé Folclórico da Bahia, tocou, ainda, com grandes músicos como Margareth Menezes, Lazzo, Gerônimo, Armandinho, Paulo Moura, Hermeto Pascoal e Raimundo Sodré (Sodré, que no passado, trabalhou com Dudú e Vadinho, em suas excursões musicais pelo mundo).

Hoje, Gabi Guedes é o percussionista principal da premiadíssima “Orkestra Afro-Jazz Rumpilezz”, do Maestro e Saxofonista Letieres Leite. Como enuncia o seu nome, a Rumpillez tem uma “pegada” do Candomblé e Jazz (Rum e PI, são nomes dados à dois dos três atabaques do Candomblé Nàgó-Ketu). Nesta orquestra, vestido de terno branco, Gabi Guedes, mostra seu virtuosismo e criatividade, como em inserir o Ilú (Toque de Evocação à Yansan – a Deusa dos Ventos) em meio, aos tradicionais metais do Jazz.

Essa carreira de sucesso na música, pode levar-nos à crer, que ao Atabaque, Gabi Guedes insere seus conhecimentos percussivos adquiridos ao longo dos anos como respeitado músico. Mas Gabi afirma justamente o contrário:

Percussão é Percussão e Candomblé é Tradição! Podemos levar para o setup de percussão nossos atabaques, nossos toques e toda a nossa musicalidade, mas não podemos fazer o inverso. Não podemos levar o mundo da percussão para o Candomblé”.

Diz ainda:

“No Candomblé agente tem que tocar aquelas pancadas dos Antigos Mestres. Aliás, todos os percussionistas de hoje, deveriam pegar um pouco do seu tempo e ir conversar com os antigos mestres do Candomblé, com aqueles senhores de cabelos branquinhos. Pois eles sim são as pessoas que guardam em suas mãos e mentes, a arte da música afro-baiana. É o Candomblé que tem à ensinar para a percussão!”.

Ainda nesse sentido, Gabi discorre:

Tem gente que coloca pancadas do mundo da percussão no atabaque, isso não é legal. Legal é tocar como os antigos faziam e, principalmente, prestando atenção no Òrìsà”.

Gabi narra também, que os tocadores devem estar mais atentos ao Òrìsà:

“O pessoal precisa observar mais o Òrìsà na sala, tem que prestar atenção em como o santo está dançando e, também, tem que prestar atenção na pessoa que está manifestada no Òrìsà. Ainda que o Vasi de Ògún tenha uma pegada mais rápida, se ele estiver manifestado em uma senhora de idade, tem que tocar um pouco mais lento. O Grande Tocador tem que se atentar à tudo isso”.

Quem já viu Gabi Guedes ao atabaque, identifica que ele, realmente se entrega à música, tocando de forma bastante particular, não ficando inerte ao som. Nesse sentido; Gabi Comenta:

O Atabaque é um Meio de Comunicação entre o Homem e o Espírito; tocando eu fico em outro plano”.

Abaixo, exponho um vídeo gravado na Argentina, por ocasião do Workshop Pradarrum, que mostra-nos como Gabi, realmente muda de plano ao som da sua música.


Preocupado com a disseminação da Tradicional Arte dos Atabaques, Gabi Guedes desenvolveu o Workshop Pradarrum, onde elucida de forma didática, os inúmeros toques do Candomblé. Esse Workshop seria realizado também em SP, mas em função da morte do meu Babalòrìsà, que ocorreu à época em que havíamos marcado, o mesmo foi cancelado por questões de luto, mas que espero brevemente poder remarcar, para que o público da Terra da Garoa tenha o prazer de ouvir esse grande Mestre.

Ademais, Gabi está produzindo um disco de mesmo nome (Pradarrum), onde irá expor os tradicionais toques do Candomblé Baiano.

Gabi Guedes, diz que as pessoas devem estudar bem os atabaques, estudar as danças, entender cada passagem e procurar os Grandes Mestres. Somente dessa forma alguém se tornará um grande Dobrador de Hun.

Diz que as pessoas devem estar muito atentas aos Mestres. Narra que ao lado dos seus irmãos Gamo e Robson, ficava prestando atenção à tudo que Vadinho, Hélio e Dudú faziam. Que eles só aprenderem a arte, porque ouviam muito, perguntavam pouco e estudavam incansavelmente.

Para Gabi, ainda é importante que os Ogans parem de tocar para as pessoas e toquem para o Òrìsà, que busquem os antigos, que tenham seus mestres, pois assim serão grandes tocadores.

Gabi é uma das lendas vivas do atabaque, que preserva uma arte milenar, arte que aprendeu com Vadinho. Espero em breve, poder ver nas prateleiras de CDs, a obra desse que tive a honra de poder escutar ao vivo e em cores, na Federação, tocando um ilú simplesmente maravilhoso para Yansan.

Bom, espero com texto acima, ter participado àqueles que ainda não conheciam, um pouco sobre a história deste grande mestre.

Sem mais,
Opotun Vinicius – 18/07/2011

7 comentários:

  1. Mestre dos mestres...Um ser que emana sua própria luz, brilhando forte mesmo em meio a tantos talentos. Salve mestre Gabi!!!

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  2. Morgana, Realmente, gabi Guedes é uma maravilha dos Atabaques, da Música, do Candomblé. Abs. Vinicius

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  3. Letícia, Gabi é de fato um mestre, que merece todas as nossas reverências.

    Abs. Vinicius

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  4. Que todos os orixás abençoem essas maos!

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  5. parabéns irmão por mais uma postagem. Como sempre nos encantando e nos trazendo informações e conhecimentos . mojuba

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  6. Eu tive a Honra de conhece-lo pessoalmente e gravar algumas passagens com ele, realmente é e merece ser chamado de Agidavi de ouro.

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