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sábado, 9 de julho de 2011

Mestre Robson, O Homem Que Revolucionou o Atabaque de São Paulo

Hoje vou falar daquele que é considerado o maior dobrador de Hun de SP, Robson de Òsóòsì, o meu Mestre dos Atabaques.

Robson Costa Pinto, filho do saudoso Babalòrìsà Waldomiro Costa Pinto (Waldomiro Baiano) teve e ainda tem um papel de suma importância para a história da tradição musical do Candomblé em SP. Mas antes, vou falar como conheci aquele que tornar-se-ia o meu Grande Mestre.

Todos em São Paulo comentavam sobre ele, que ele era um Grande Tocador, que aprendeu com Vadinho do Gantois, enfim... Mas para mim, era somente um nome, um mito, pois jamais havia visto ele.
Em um dia de festa das Ayabas, eu cheguei à minha casa de santo e fui ao atabaque (sempre fiz isso, chegava, tomava banho e ficava tocando antes do Ipade). Fiquei tocando e tocando, sem dar muita importância para quem estava no barracão, particularmente para um homem sentado ao lado dos atabaques, com um walkman amarelo (lembro bem, pois não era nada discreto – rs). Após eu ter tocado boa parte do que eu sabia à época, meu Babalòrìsà veio ao atabaque e me disse:

Meu filho, eu queria que você deixasse um irmão de santo meu tocar o Ipade”.

Ele então chama o homem do walkman e eu pensei: Esse cara? Com esse walkman amarelo? Ele me apresentou:

 “Esse é meu irmão de santo, o Robson do Gantois, quero que ele toque hoje, então você puxa no Hunpi, para ele”.

Eu fiquei muito sem graça, pois ele estava lá, no barracão, me ouvindo desde o começo. Logo que ele subiu ao Hun, começou a fazer um monte de perguntas:

“Com quem você aprendeu a marcar as passagens do Agéré que você estava tocando? O Ijesa e o Lagunló você aprendeu onde, com quem”?

Muito mais que envergonhado, respondi que algumas coisas, eu havia escutado nos discos do Vadinho, outras com meu Tio Erenilton e com meu Pai Tarrafa (a verdade é que ele não acreditou muito que eu havia aprendido algo nem com o meu Tio Erenilton, nem com meu Pai Tarrafa, afinal, eu muito novo e paulistano..., nem eu acreditaria....). Bom, naquele dia, além do Ipade, ele tocou toda a festa das Ayabas, eu nem cheguei perto do Hun.

Tive então, a grande honra de ouvir algo que realmente me chamou atenção. Fiquei híspido diante do Agéré de Òsóòsì, era algo que transcendia o próprio atabaque. Recordo-me, que nesse dia, diante do meu interesse em ouvir as variações e, por conseqüência aprender alguma delas, cometi inúmeros erros ao Hunpi. A cada passagem executada por ele, até então desconhecida por mim, impulsionava-me sobremaneira à falha... O engraçado é que ao invés de repreender-me, ele ria copiosamente.

No ano seguinte, ele foi à todas as festas da roça e sempre ficava ao Hun, enquanto eu puxava no Hunpi. Antes de executar uma variação mais complexa, ele caprichosamente batia com o Agidavi na minha perna. Era o sinal para eu prestar atenção, sendo que depois, ele iria me pedir para repetir aquela mesma passagem. Um dia, na festa de Nana ele me mandou tocar. Toquei, fiz muitas das passagens que eu o ouvi fazer durante todo o ano anterior, ele gostou do que fiz, mas... No final da festa ele me chamou e disse:

Gostei de tudo que você fez, mas quero te perguntar uma coisa: Qual a ligação de Nana com Yewa?

Eu respondi: Acho que nenhuma! Então ele novamente indagou:

“Então, porque que na hora do Toke Daju-a de Nana, você tocou pra Yewa e não para Nana”?

Fiquei atônito, com cara de interrogação e ele, somente ria, mas ria muito, como uma criança. Quando ele finalmente parou de rir, eu disse:

“Não é assim que toca, não”?

Então, ele respondeu sério:

Não! Mas um dia eu te ensino a tocar essa cantiga, aliás, você ouviu muito o disco de Vadinho, agora eu vou ser seu Mestre e vou te mostrar como ele tocava, pois você ouviu o disco e eu, o vi pessoalmente”.

Como hoje, recordo-me que cheguei à minha mãe e disse: Mãe, a senhora não acredita, o Robson vai ser meu mestre de atabaque! Ela disse: Não se empolga, ele deve ter falado para te agradar.....

Passou algum tempo e ele me ensinou uma passagem (na boca mesmo – era exatamente isso: “kun Dan” – somente isso e nada mais), sem me falar o que era. Depois de alguns meses, me ensinou mais uma passagem e depois outra e outra. Decorrido exato um ano, na festa de Nana, antes do início da festa ele me chamou e disse:

“Pronto, você já sabe tocar Toke Daju-a”.

Desta feita, eu quem riu bastante.

“Como eu sei tocar Toke Daju-a? Você não me ensinou!”

Ele então disse:

“Junte todas aquelas passagens que eu te ensinei ao longo do ano, pronto! Esse é o toque de Toke Daju-a!”

Eu não acreditava que havia aprendido o tão famoso toque que a grande maioria desconhecia, sem ao menos saber que eu havia aprendido. A noite, na hora do Candomblé, ao entoar Toke Daju-a, ele disse, suba e toque o que você aprendeu! Assim é Robson do Gantois, que prefiro chamar de Mestre.

Robson nasceu no Rio de Janeiro, mas foi no Alto da Federação que ele aprendeu a arte dos Atabaques. Meu Mestre Robson me disse, que ele sempre falava ao seu pai: “só faço santo se for no Gantois e por Mãe Menininha” e, assim foi. Disse que a primeira vez que foi à Federação, Mãe Menininha chegou e perguntou:

“Menino você é de que santo”?

Ele respondeu: “Não sei não minha mãe, a senhora que vai dizer qual é meu santo”.

Robson disse que Mãe Carmem, atual Ìyálòrìsà do Gantois, à época comentou: “Minha mãe, ele é filho de Waldomiro, não vai falar nada, nem adianta tentar, já deve ter sido treinado para ficar mudo”... Ele confessa que seu Waldomiro, realmente o orientou para ele entrar mudo e sair calado, que ele deveria somente pedir à bênção à todo mundo e nada mais....

E conforme seu desejo, dito ao seu Pai, Robson foi iniciado em Salvador, para Òsóòsì e Ògógiyàn, no Gantois, pelas mãos da aclamada Ìyálòrìsà  Mãe Menininha. Diz que a lembrança remota sobre atabaques que tem, é de ter chegado ao Gantois e deparar-se com Vadinho no Hun e com Gabi no Hunpi....

Mas ainda não seria esse o momento em que o menino que tinha o sonho de se iniciar no Gantois, aprenderia a arte dos atabaques. Regressou à sua terra e, em um Candomblé, seu Pai Waldomiro, observou que ele não tocava Toke Daju-à (o mesmo que eu não sabia) e, então, mandou o filho de voltar ao Gantois, para aprender a arte dos atabaques, com o maior mestre de todos os tempos, o já comentado neste blog, Euvaldo Freitas dos Santos, o Vadinho do Gantois. Nascia então, a história musical do meu Mestre Robson.

Comenta que Vadinho, era um monstro no atabaque, que não havia nada igual, que quando ele subia no “Busca Longe” (apelido dado ao então Hun do Gantois), todos se surpreendiam com tamanho virtuosismo. Narra que por vezes, ficava ele e seus irmãos (Gabi Guedes e Gamo da Paz), “remedando” Vadinho, nos atabaques reservas, enquanto o Candomblé transcorria no barracão. Aliás, esse trio, “aprontou” bastante no Candomblé do Alto da Federação.

Gamo da Paz, exímio mestre dos atabaques, certa feita me disse:

Vinicius, Vadinho ficava no Hun e agente que era bem novo, ficava puxando e marcando o agogô, então, o santo jogava dinheiro nos pés do atabaque. Só que agente não podia pegar, então, Eu (Gamo), Robson e Gabi, combinava pra deixar o agidavi cair, pois agente pegava uma moedinha para comprar de bala e refrigerante - risos”....

E foi assim, deixando o Agidavi cair para pegar uma “moedinha”, ou na ante-sala do barracão do Gantois, que Robson aprendeu a arte dos atabaques. Além de Vadinho, Robson teve ainda, grandes exemplos, menciona com muito carinho Hélio e Dudu (ambos, irmãos de Vadinho). Sobre Hélio diz:

Nunca ouvi ninguém tocar Pawó no atabaque como ele, agora veja, como pode ter algo especial no Pawo? Pois bem, Hélio tocando tinha, era algo sem igual, algo mágico”!

Lembra ainda, com muita satisfação, que Papaú (também do Gantois), o ensinou a marcar o Agéré de Òsóòsì na cabaça (sem repetir a mão) e, por isso, ainda hoje, ele ensina dessa forma. Robson discorre também, sobre a pancada firma de Hubaldo, que era algo que realmente despertava-lhe atenção. Mas principalmente, orgulha-se de seus dois irmãos Gabi Guedes e Gamo da Paz. Ao falar desses dois, meu Mestre Robson emociona-se fácil, recordando-se de muitas histórias que ainda vou comentar nesse blog...

Após ter iniciado seus estudos musicais com Vadinho, Hubaldo e Papaú, Robson vem para SP, onde fincaria não somente moradia, mas sim, a história da música do Candomblé baiano. Digo isso, pois muito embora, o Candomblé de São Paulo já possuísse à época, tradicionais casas, muitas oriundas das matrizes em Salvador, a arte musical não havia aqui chegado na mesma proporção.

Nesse aspecto, ainda que muitos pensem de forma diferente, a grande realidade é que o atabaque de São Paulo pode ser dividido da seguinte forma: AR e DR (antes de Robson e depois de Robson).

Robson chegou com uma cultura de valorização do atabaque, querendo mostrar aos Ogans, a necessidade de um atabaque mais cadenciado, a necessidade de entender as danças dos Òrìsàs, de entender que a cantiga como “arawara tafa rode”, não é tocada como Ogun. Que o Adahun não é o toque de Ogun, que o alujá deve ser cadenciado, enfim, mas não foi fácil. Afinal, como mudar algo que as pessoas já tocavam e que acreditavam ser da Bahia, que acreditavam ser o certo?

Aos poucos, Robson foi implementando uma cultura e uma tradição de atabaque em SP. Fez isso, também, disseminando seu conhecimento com alguns alunos, hoje, todos respeitados tocadores em SP. A saber: Elemoso Cláudio; Kiko; Badangue, Eu (Vinicius) e Dudú. Há tantos outros, que não conheço ou que ainda, são incipientes na arte musical, mas que, se seguirem os ensinamentos do Mestre, irão se tornar grandes tocadores.

Isto posto, reverencio-me ao Meu Mestre dos Atabaques, Robson de Òsóòsì, que pacientemente, ensinou-me a arte dos atabaques e que, principalmente, permite-me comungar da sua amizade.

Almejo um dia, poder tornar-me virtuoso como meu Mestre e espero, sobretudo, dos Ogans de São Paulo, o reconhecimento àquele que é o responsável pelo que tocamos hoje nesta terra da garoa.

Sem Mais,
Opotun Vinicius

11 comentários:

  1. Querido irmão, parabenizo vc por homenagear uma pessoa que realmente revolucionou o candomblé de São Paulo, mas, uma revolução à moda da nossa real tradição e não uma revolução futuristica, que ocorre em alguns outros casos. No entanto, o que mais me admira é sua modéstia, pois, vc hoje é sim um extraordinário tocador, e mais que tocador é respeitador dos toques e cantigos, pois, são raros ogãns subirem para louvar os orisas que realmente pensem somente nos orisas. Muitos querem tocar e ou cantar tão somente para se sentirem importantes, sendo que a única importância real é a essência de nossa religião, ou seja, os orisas. E é menor quantidade ainda os ogãns que seguem os preceitos para tal ato, pois, assim como àquele que esta em preceitos para receber a energia do orisa, é de obrigação daquele que se atreve a cantar e tocar à estes orisas participar do mesmo preceito. E é com muito orgulho que afirmo nunca ter visto vc meu irmão subir ao atabaque com o teor alcoólico evidênciado. Você foi, é, e será sempre virtuoso.
    São palavras sinceras de sua irmã Luciane de Yewa.

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  2. É, isso prova o quão devemos valorizar as pessoas que de uma forma ou de outra preservam e põe-se a levar a tradição para todo o conglomerado religioso, para que possamos perpetuar de maneira cada vez melhor, em todos os aspectos, o culto aos nossos orixás. Quando estava na casa de meu Pai José Carlos Ibualamo, o Vinicius me falou sobre o mestre Robson e via-se nos seus olhos, o fascínio exercido pela figura, pela simples mas muito importante lembrança do seu mestre. Hoje, me espelho e aprendo essa arte tão maravilhosa com você, Ogan Vinicius, que em um futuro não tão longíquo, será a figura entre algumas outras, que reverenciarei de forma ímpar. Muito obrigado pelos toques, cânticos ensinados. suas palavras sobre a nossa conduta dentro do axé e sobretudo o seu respeito pelos seus antecessores e o apoio que você dá aos mais jovens nessa longa mas gratificante jornada. Parabéns mais uma vez de um cara que te admira e te respeita muito. E você sabe disso!

    Do seu irmão Carlos de Oxalá.

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  3. Luciane, minha queria irmã.

    Eu jamais poderia olvidar daquele me ensinou essa arte que tanto amo, admiro e respeito. E você falou algo muito importante, ele fez uma revolução à moda da nossa real tradição. Quando ele chegou em SP com seu atabaque, ele nada mais fez que trazer aquilo que seu mestre o ensinou e que tinha aprendido com seus mestres também. Isto posto, trouxe algo mais que centenário que não havia ainda chegado em SP. Ele não criou ou inventou um novo modo de tocar, mas sim, apresentou-nos algo que sempre existiu, mas que não tínhamos conhecimento. À exemplo do que você disse, eu aprendi que os atabaques também são deidades, afinal, como os nossos Orisas, eles são consagrados e recebem oferendas, logo não posso tratá-los de forma diferente que senão a mais respeitosa possível. Obrigado pelas palavras que sei, são sinceras e, espero poder de fato, estar à altura de tudo que disse, contribuindo um pouco para o enriquecimento dessa nossa cultura tão alvejada. Por fim, sabes o apreço e admiração que tenho por você, não de hoje, mas desde àquela época, há uns 20 anos, em que ensaiávamos para as memoráveis apresentações no Vera Cruz.

    Seu irmão, Vinicius

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  4. Parabéns pela postagem, adorei a foto em que ele esta segurando meu filho e seu aluninho. Este su Blog é um documento que vale ouro, e futuramente ira valer muitooooooo maissssss.

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  5. Adorei a matéria,voltei ao passado quando conheci meu querido amigo Robson,sou filha de santo de Waldomiro meu saudoso pai.Hoje tenho 46 anos,aos 15 anos meu coração tinha um príncipe
    encantado que chegava apenas em dezembro,eu ficava o ano todo sonhando com este momento.Morava perto da roça no parque fluminense em Duque de Caxias rj
    Eu acorda ao o som do atabaque uma melodia linda diferente de tudo,ai eu já dizia Robson chegou!!!
    Fico muito feliz com sua trajetória,e aproveito para mandar um grande abraço ao meu amigo muiiiito querido(ROBSON)

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  6. Daia,

    Gostou né? é uma linda foto, por isso coloquei. Seu filho terá muito orgulho e lhe dará muito orgulho!!!

    Abs.,
    Opotun Vinicius

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  7. “Thiazinha Victor”, bom dia!

    Que bom que teve boas recordações ao ler esse artigo, fico muito feliz! Só me diga seu nome, que farei questão de repassar o seu recado ao meu mestre Robson.

    Abs.,
    Opotun Vinicius

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  8. Parabêns pela postagen .
    Como vc disse é muito importante a colaboração de robson para o atabaque de sp .
    Espero que a exemplo dele , todos os tocadores de atabaque perpetuem a cultura , não somente guardando para si , o conhecimento .

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  9. entro nesse site todos os dias pra conhecer um pouco mais da historias de grandes mestres,e sempre um pouco mais a historia do candomble ,muitoo boom !!

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  10. Caro amigo meus parabéns, pois aprendi com Robson e Paulinho já fiz parte dessa equipe e é muito bom vê eles novamente e lembrar-se de tudo que vivi com esses caras e que estão sendo homenageados, pois eles merecem.

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  11. Olá, poderia me mandar um email pra que eu pudesse lhe fazer algumas perguntas? maisaemily@gmail.com

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