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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Ao Cantar, Você Evoca o Òrìsa ou Faz Insultos e Desencadeia a Cólera? Os Cânticos no Candomblé Ketu-Nago.

Para os Ogans, esse é sem dúvidas um tema muito importante, sendo que, em grande parte dos Terreiros de Candomblé, são os Ogans os responsáveis pela condução musical das cerimônias religiosas. O universo musical sacro do Candomblé é infindo, complexo e almejado por muitos, prova disso é o “comércio negro” de fitas de Candomblé, sem falar, nas centenas de pessoas que gravam à escondida, as cerimônias religiosas como Festas/Asese/Oros, etc. Isso mostra-nos como os “Cânticos do Candomblé” são valiosos.

Mas ao cantar, o que você faz? Louva/Evoca? Faz Insultos? Desencadeia a Cólera do Òrìsà? Conscientemente ou não, podemos fazer tudo isso por meio dos cânticos dos Òrìsàs. Inicialmente, muito embora de uma abrangência singular, vou procurar dividir o que cantamos no chamado Tradicional Candomblé Ketu-Nago, da seguinte forma:


Cânticos de Sire: que dão início às festividades;
Cânticos de Evocação: que tem por objetivo chamar o Òrìsà à terra;
Cânticos de Saída: àqueles que os Òrìsàs saem perfilados na festa;
Cânticos de Oro: aqui, refiro-me a Oros como Pilão, Ipete, etc.;
Cânticos de Títulos: para postos, Oloye, Ajoye, Ogans, Ekejis, Babalorisas, etc;
Cânticos de Hun: para o Òrìsà comungar com seus filhos em terra;
Cânticos de Mló: para o santo entrar – ou seja, ir embora;
Cânticos de Oye: Honoríficos, que servem para homenagear uma pessoa específica; a casa; um Òrìsà ou, ainda, o dono da casa;
Cânticos de Sotaque: que enaltecem uma pessoa em detrimento de outra;
Cânticos de Sasanyin: que tem por objetivo evocar/potencializar os poderes das plantas e demais elementos utilizados na Religião dos Òrìsàs;
Cânticos do Ipade: que são entoados, somente nesta ocasião;
As Rodas: Sàngó e Oduduwa.
Cânticos de Matança: uma infinidade, com sequências especificas, distintas entre os Òrìsàs;
Os Cânticos de Morte: Asese, centenas, divididos por dias, nação, sequencias, etc.,
Cânticos de Baba-Egungun: distintos dos de Asese.

Há, também, cânticos específicos, como por exemplo, para serem entoados quando se chega à casa de alguém, ou ainda, para serem entoados quando recebemos uma ilustre visita em nossa casa. Há os cânticos de iniciação, de nome (Orukò), as rezas (de quarto de santo, do Mlé, etc.), dentre muitos. Como disse, esse tema é infindo. O Candomblé está cercado por cânticos, diante disso, posso afirmar que nossa religião também é fundamentada nos cânticos, essa ideia é fortificada ainda, quando pensamos na Tradição dos Òrìsàs na África, toda fundamentada por meio do poder da fala, o chamado “Ofó”.

Vejamos, quando chegamos à casa de Candomblé, ao “despachar a porta” usamos frases Yorùbá pedindo para entrar; o mesmo ocorre ao sairmos, em que pedimos proteção em nossos caminhos. Ao pedir a bênção, também utilizamo-nos do dialeto africano, ou seja, em tudo dentro do Candomblé, recitamos palavras em Yorùbá, ou cantamos algo em Yorùbá (algumas vezes, em Fongbe/Ewe-Fon).

Mas porque todo esse intróito? Bom, quero chamar atenção para a profusão de momentos em que cantamos, num idioma que não é o nosso e, pior, que a grande maioria das pessoas sequer tem noção do que estão proferindo. Mas alguns podem perguntar, e qual a importância disso? Eu digo: TODA!

Nós cultuamos os Òrìsàs, que são a própria representação da natureza. Esse é o discurso que escutamos e que todos falamos, correto? Mais você já refletiu em o que pode ser a força da natureza? A força da natureza pode ser o lindo mar onde as pessoas jogam flores à Yemoja, como pode ser um Tsunami. Pode ser uma brisa que nos refresca, ou pode ser um vendaval que derruba árvores e casas. Pode ser o fogo que aquece no frio, como pode ser o fogo que mata no calor.

Mas o que isso tem haver com a postagem: Você Louva/Evoca o Òrìsa ou Faz Insultos e Desencadeia a Cólera ao Cantar? Os Cânticos no Candomblé Ketu-Nago. Vou explicar:

Nossa religião é também fundamentada no poder da fala “Ofó” (tudo que falo, canto, etc. tem poder), logo por meio dos cânticos, eu posso louvar/evocar um Òrìsà, insultar uma determinada pessoa ou mesmo, desencadear a cólera dos Deuses. Numa cerimônia religiosa, eu posso por meio dos cânticos, evocar os ventos de Oya ou o “Twister” de Obaluwaiye. “Twister” de Obaluwaiye? Sim! Alguém já parou para saber o que significa “Iji”, o principal epíteto de Omolu?

Ao entoar uma cantiga no barracão, eu posso dizer que Ògún dança nervoso, afinal, essa é a característica intrínseca dele, ou então, posso cantar algo que diz que Ògún vai cortar a cabeça de todos que estão presentes (ou seja, evocar o seu lado negativo). Lado negativo? Sim! Nossos Òrìsàs são ambiláteros, por isso são tão próximos de nós, pois como nós, os humanos, os Òrìsàs em vida acertarem ou erraram. Quer mais prova que Ògún, intrépido e furioso, que cometeu o insano ato em Ire, em decepar os seus? Depois, arrependido, tornou-se Òrìsà.

Quero chamar atenção para um fato. “SE NOSSA FALA TEM PODER EVOCATIVO (OFÓ), EU TENHO QUE TER CUIDADO COM O QUE CANTO". Ainda valendo-me de Ògún como exemplo, durante um Candomblé eu posso cantar algo que diz:

Ògún em um momento de loucura cometeu a pior violência de sua vida, envergonhado e arrependido desapareceu”. Nesse caso, estou referindo-me à um fato triste na história deste Òrìsà, mas algo que já aconteceu e que ele se arrependeu.

Ou posso simplesmente, posso cantar, dizendo que:

Ògún está nervoso, ele está com o seu facão na mão e vai matar a todos, ele vai cometer uma grande violência”. Nesse caso, eu estou usando o meu poder evocatório “Ofó” para falar que Ogun vai matar à todos, estou pedindo isso, evocando isso à Ògún, compreendem a diferença?

Hoje, na incessante busca de muitos em mostrar que são os “cantores” do Candomblé, cânticos são entoados na hora errada ou simplesmente errado mesmo. Outros exemplos que deparamo-nos, sempre:

Obaluwaiye vai cortar a cabeça das pessoas’
Ògún vai iniciar uma grande guerra”
Sàngó irá destruir a casa com a pedra do raio”
Yansan derrubará casas com o seu vento”.

Mas existem cânticos que dizem isso? Sim e, não são poucos. Mas para tudo há sua hora. Eu, por exemplo, jamais vou cantar durante uma tempestade, que Sàngó destrói uma casa com a pedra do raio, pois estarei evocando aquilo naquele momento, despertando sua maior cólera. O que quero ilustrar é que, infelizmente, cantamos muita coisa em hora errada, ou as vezes, pensamos que as nossas Divindades, são pessoas comum, que sentam ao nosso lado numa brincadeira entre amigos, o que é uma grande inverdade.

Sim, temos o privilégio de comungar fisicamente com os nossos Òrìsàs, de estar ao lado deles, de abraçarmos, de reverenciarmos, mas não podemos esquecer que eles são Deuses, Os Deuses de Natureza, que detém o poder sobre ela (desta forma, imaginem como natureza, não somente as águas calmas, o arco-íris, mas também o furacão, o vulcão, a onda que avassala, o vento que leva cidades inteiras, tudo isso é o Poder da Natureza). Logo, temos que ter cuidado com o que cantamos, pois ao invés de louvar, podemos estar despertando a cólera da natureza e, nesse sentido, lembrem-se do poder do Ofó.

Mas como anuncia o titulo dessa postagem, os cânticos também podem ser de insultos. Uma pessoa que domina bem o idioma, pode trocar uma palavra e, pronto, estará insultando outrem até mesmo no Sire.

No entanto, existe uma infinidades de cantigas, antigas, que geralmente homenageiam um rei (o dono da casa) em detrimento de outro (a visita), esses cânticos (sotaque), em suma, são os chamados “Oye”. Todos os Oye são sotaque? Não! não todos, mas um grande número, com certeza. Ademais, como disse, se a pessoa conhecer bem o idioma, troca uma frase e insulta alguém. Vou exemplificar, com fragmentos de Oyes, que são muitos versados nos Terreiros de Candomblé. A saber:

“Na minha casa, somente eu que mando”;
“Eu sou o dono desta casa e você é a visita”;
“Você fala mais que papagaio”;
“Por acaso, você é pássaro para voar”?
“Convivo com os falsos, pois os verdadeiros já se foram”;
“Eu sou como o tigre e você como um gato”.

Em Salvador, por exemplo, há inúmeras histórias de Ogans que, ao entoarem determinados Oyes, em casas vizinhas, acabaram por serem expulsos da festa. Muitas brigas ocorreram por conta de Oyes. Vejam a sutileza do sotaque, do segundo exemplo acima:

Eu sou o dono desta casa e você é a visita”. Se eu cantar isso dentro da minha casa é uma verdade, não há problemas! Afinal eu sou o dono, posso normalmente cantar para alguém, dizendo que esse alguém é meu visitante..... No entanto se o visitante cantar esse mesmo Oye na minha casa vai ficar assim:

Eu (o visitante/estrangeiro – Alejo), sou o dono desta casa e você (o verdadeiro dono da casa – Onile) é o visitante”. Desta feita, estou dizendo por meio deste Oye, que me apropriei da casa da pessoa e que eu sou o dono agora. Dependendo de quem canta, o significado é totalmente inverso, compreendem?

Se eu cantar isso na casa de quem não entende, nada vai acontecer, mas se eu cantar na casa de quem sabe? Pronto, foi o estopim para começar a confusão! (e acontece confusão mesmo, lembrem-se do poder do Ofó).

Por essa razão digo, todo cuidado é pouco ao cantar na casa de alguém; Oye então é melhor não cantar, o ideal é guardar essas cantigas para nossa casa, à exceção de se saber de fato o que está cantando. As vezes, a pessoa nem cantou por maldade, sequer sabia o que a cantiga dizia, mas se o dono da casa souber o que significa, dificilmente conseguirá reverter que “focinho de porco não é tomada”.

Mas como saber isso, se afinal cantamos milhares de cânticos e não temos o domínio do Yorùbá? Bom, há duas possibilidades: seus Mestres ensinar (mas para isso, o Mestre precisa confiar muito no discípulo, nesse processo a confiança é tudo). Ou, recorrer à um dicionário Yorùbá. Mas digo, em ambos podem haver falhas.

Vou exemplificar com o termo Olubaje: A pessoa pode pegar um dicionário, ver que “Olu”, significa “chefe/senhor” e que “Bajé “significa “podre”. Pronto, você chegou a tradução “O Senhor do Podre”, correto? Errado!

Olu” (Senhor/Chefe), “Gba” (Aceitar), “je” (Comer/Comida): Olugbaje: Aceitar a Comida do Senhor/Chefe (Omolu). E o Olugbajé não é justamente isso?

Então, antes de começar a sair traduzindo e, dizendo que tudo que os antigos cantavam está errado (pois não é), devemos tomar cuidado, muito cuidado. Primeiramente, é preciso entender estudar um pouco o idioma Yorùbá antes de sair traduzindo. É importante, entender ainda que, o Yorùbá que nossos ancestrais trouxeram da África, à época da escravidão não é o mesmo que se fala hoje na Nigéria. Nem o português que falamos hoje é o mesmo daquela época.

Além disso, temos que pensar ainda, que algumas palavras, simplesmente não possuem tradução ou talvez você não terá que traduzi-las ao pé da letra. Como exemplo, menciono os nomes das Divindades. Mas quando digo “Nome das Divindades”, não estou referindo-me aos nomes habituais que conhecemos. Os Òrìsàs possuem diversos nomes, que não são necessariamente aquele que nós conhecemos. Cito alguns exemplos:

Agbenigi (Um dos nomes de Osanyin)
Osin-Imole (Um dos nomes de Ògún)
Alamala (Um dos nomes de Sàngó)

Além dos nomes das Divindades, há também, por exemplo, o nome das Plantas. Ao traduzir, a SasanyinPeregun Alawo Titun-o”, não podemos traduzir “Peregun” (muito embora tenha o significado), mas nesses casos a tradução é totalmente dispensável, o que preciso saber é que existe a folha Peregun. No caso de uma Sasanyin que fala “Peregun” é fácil identificar qual a folha, mas nos outros casos? E nos casos que há mais de uma folha na Sasanyin? Aqui não existem milagres, é necessário estudo, estudo e estudo antes de aventar uma tradução.

Não é fácil saber o que se canta, mormente por cantarmos algo tão arcaico, mas impossível não é. Não é rápido, no entanto, com o tempo e hábito, tudo fica mais fácil.

Eu não sei ao pé da letra tudo o que canto, quiçá um dia saberei, mas sei o que estou dizendo e evito muitas cantigas perigosas. Isso é importante, de suma valia, sendo que dessa forma, você conseguirá louvar de forma mais eficaz e, conseguirá expressar seu sentimento no momento em que você está sentindo determinada emoção. Por vezes, um Ogan está tão emocionado em algum momento da festa, mas por não saber o significado do que canta, acaba versando que está tudo triste, que quer acabar com a festa, dizendo algo que, não era o que ele queria, se de fato soubesse a tradução.....compreendem?

Como escrevi no início deste texto, “o universo musical do Candomblé é infindo, complexo e almejado”, entretanto, espero ter contribuído um pouco para esse tema, que sempre está “na moda”, mas que poucos se aprofundam com proficiência.

Sem mais,
Opotun Vinicius

7 comentários:

  1. Vinícius, tu dispensas comentários. Seus textos são maravilhosos e quem sabe um dia se transforme em um livro, para que possamos saborear tão maravilhosa leitura. Seus ensinamentos são muito valiosos.

    Meu velho, obrigado pela lucidez com que escreves, e por se dispor a compartilhar isto conosco.

    A sua benção

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  2. sabias palavras estou gostando muito do seu blog e aprendendo tambem asé.

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  3. amigo como faço pra adquerir conheçimentos com o senhor me manda um email com as informaçoes por favor amigo até mais meu e-mail é alefloko@hotmail.com

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  4. Ode Funké,

    Muito obrigado pelas palavras, o objetivo é realmente esse, poder compartilhar um pouco daquilo que aprendi com os meus grandes mestres.

    Abs.,
    Vinicius

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  5. Oga Belo,

    Fico feliz, espero contar sempre com a sua participação aqui nesse espaço.

    Abs.,
    Vinicius

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  6. parabens meu caro, nao me conhece mas estive em sua casa sou oga tb, e aprecio suas postagens como tb seu conhecimento parabens mais uma vez e espero que com isso posso aprimorar os meus tb com esse espaço ase

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    1. Ogan Ronaldo,

      Poxa, da próxima vez se apresente para conversarmos, ok...

      Abs e obrigado
      Vinicius

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