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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Ijesa de Logun Ede, Não é o Mesmo Ijesa de Òsun?

Hoje vou comentar um pouco sobre esse que é, sem dúvidas, o toque mais popular do Candomblé, o Ijesa. Digo mais, esse toque extrapolou os limites da religião africana, tomando espaço também no cenário musical brasileiro. Prova disso, são os chamados Grupos Carnavalescos de Afoxé, que possuem em sua estrutura rítmica o Ijesa (Filhos de Gandhi, Korin Efan, etc.).


Ademais, há ainda, diversas músicas de conhecimento público cuja base é o Ijesa, como exemplo, menciono o quase hino “É D’Oxum” de Gerônimo (imortalizado por Gal Costa, Jauperi e, tantos outros) e “Muito Obrigado Axé”, interpretada por Ivete Sangalo e Maria Bethânia. Sobre a última, é importante frisar que, a marcação rítmica do Ijesa realizada por Márcio Brasil, percussionista de Ivete é primorosa, invejando a muitos Ogans (vejam vídeo abaixo e comprovem um verdadeiro Ijesa Nago).




No entanto, a ampla divulgação do toque, associada às suas diversas interpretações, a depender do segmento religioso ou na música profana, não foi somente benéfico ao mesmo. Hoje, deparamo-nos com alguns “Ditos Ijexás”, que em nada nos faz lembrar o toque como originalmente era executado. Em suma, esse ritmo é mais utilizado para Òsun, a grande Deusa das Águas Doces, mas há, também, uma infinidade de cânticos de Ijesa para Èsù, Ògún, Logun-Ede, Yánsàn, Osanyin, Òsàlá, dentre outros.

Muito embora, seja comum nos tradicionais Candomblés Ketu, ouvir um representativo número de cânticos Ijesa, eu estaria sendo leviano se olvida-se a origem deste toque, o identificando como Ketu.


A origem desse ritmo no Brasil remete-nos à Nação de nome análogo, que teve seu prestígio alavancado pelo Patriarca Eduardo Ijesa, dito detentor supremo do culto à Òsun e Logun-Ede no Brasil. Na casa de Pai Eduardo, contam os antigos que o único toque executado era o Ijesa, à exceção de uma cantiga, que por motivos óbvios não cabe mencionar aqui. Essa cantiga, não louvava nem Òsun nem Logun-Ede, mas sim, o povo de Ede, uma antiga província africana. Há também, o Ilé Asè Kale Bokun, da célebre Mãe Estelita do Ijesa. (foto: Pai Eduardo Ijesa).

Além do Candomblé de Seu Eduardo e o Kale Bokun, havia o Candomblé do Oloroke. Meu Pai Tarrafa, venerável Ogan Baiano, um dos meus Mestres, que fora suspenso no Oloroke, certa vez me disse que na Casa de Dona Matilde (assim que ele chamava a casa), tocava-se somente Ijesa. Narrou-me que, a própria Divindade de Dona Matilde quando chegava a terra, entoava certos cânticos no ritmo de Ijesa, tal como: “Oloroke Oloroke”. Comentava que era algo muito bonito, pois ao som do Ijesa (tocava-se somente Ijesa) as pessoas dançavam em homenagem à Divindade da Casa. (Foto: Mãe Estelita do Ijesa).

Outra importante casa, cujo toque era o Ijesa, era a de Júlia Bugan, na Língua de Vaca. Na casa de Mãe Júlia Bugan, o ritmo do Ijesa era tocado por mulheres, nos tambores chamados “Ilu Bata Demi”. Essas mulheres à época das festividades de Òsun iam até o Gantois, tocando Ijesa nestes tambores, onde eram recebidas por Mãe Menininha.

Achei oportuno esse intróito, ante a importância deste toque para o Candomblé e, sobretudo, por Ijesa não ser somente um ritmo, mas também uma Nação. Mas, como enuncia o título: Ijesa de Logun-Ede não é o mesmo Ijesa de Òsun?

Não! Não é o mesmo!

Há uma confusão generalizada no que diz respeito ao Toque de Ijesa de Logun Ede. Nesse sentido, não preciso discorrer muito, basta observar a dança. Vejamos, se os toques do Candomblé estão com consonância com a dança dos Òrìsàs, como fica a dança de Logun-Ede, com o Ijesa de Òsun?

Bom, vou procurar mostrar essa diferença, fundamentando-me em 4 discos, todos realizados por renomados membros do Candomblé. São eles:

Ijesa de Osun: Cinqüentenário de Mãe Menininha;
Ijesa de Osun: Odun Orin
Ijesa de Logun Ede: Candomblé da Casa de Òsùmàrè
Ijesa de Logun Ede: Luiz da Muriçoca

O Ijesa de Òsun:

Antes do que vou dizer, é importante frisar que, há diferenças entre casas, mas vou falar sobre o modo o qual aprendi e da forma que está registrada nos Discos de Mãe Menininha e no Disco Odun Orin.

Assim sendo, é importante saber que em nenhum dos três atabaques, o toque de Ijesa é executado da mesma forma. Ou seja, a marcação no Hunlé (o menor dos atabaques) é distinta do Hunpi (médio) e, obviamente do Hun (o maior dos três e que faz as variações). Além disso, há a importante marcação do Agogo. Como sei que muitos vão indagar: “O Hunpi é diferente do Hunlé”? Peço que escutem atentamente a faixa de Osun, do disco Odun Orin (pode ser o de Mãe Menininha também, mas pelo fato da gravação ser antiga, o ouvido tem que estar bem apurado, razão pela qual peço que escutem o Odun Orin. Está bem mais fácil de identificar a diferença).

Bom, peço que vejam (com atenção) a marcação básica do Hunlé, iniciada aos 23 segundos (slep, "slep, open, slep" – 1, 2, 3). Aos 25 segundos, entra o Hunpi, com uma marcação de 4 batidas invertidas (totalmente distintas do Hunlé, identificaram?). Esse é o chamado Ijesa de Òsun.



E o Ijesa de Logun Ede?

Bom, valho-me do antológico disco de Seu Luiz da Muriçoca e do Disco de Meu Tio Erenilton:



Aqui não há muito que dizer, basta ouvir a diferença deste Ijesa (de Logun Ede) nestes dois Discos, para o Ijesa de Osun, constantes nas outras gravações. Basta falar que, no Ijesa de Logun, diferente do Ijesa de Osun, o Hunpi e Hunlé começam com batidas e tempos diferentes. Vejamos:

Vamos tentar ilustrar da seguinte forma: Open (batida aberta) e Slap (a batida seca – fechada).

Hunlé do Ijesa de Osun:
Slap – Open – Slap

Hunlé do Ijesa de Logun-Ede:
Open – Open – Slap – Open – Slap – Slap – Slap – Open – Open

Bom, nesse sentido, acho que a diferença é notória. Vale destacar, também que, no Ijesa de Osun, há casas (das três principais escolas) que a marcação no Hunpi e no Hunlé é a mesma. Mas em todas, o Ijesa de Logun Ede é distinto do Ijesa de Osun. Parece algo simples, mas há uma diferença significativa, outro “swing”. Como disse em uma das minhas postagens nesse blog, muitos almejam as “17 passagens da Hamunya” ou “Toque Daju-a”, mas há ainda, uma profusão de toques que devemos nos atentar e que estão sendo esquecidos.

Espero, uma vez mais, ter esclarecido um pouco sobre mais um dos importantes toques do chamado Candomblé Nago-Ketu, o qual pertenço.

Sem mais,
Opotun Vinicius

12 comentários:

  1. Como sempre, muito bom!!!

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  2. Opotun Vinicius, não há como negar a importância desse trabalho árduo que você vem fazendo em prol da musicalidade do candomblé, esta musicalidade que é tão importante quanto qualquer outro fundamento litúrgico e que vinha se perdendo já que os grandes mestres estão indo e nem sempre estão deixando discípulos à altura com os mesmos conhecimentos de seus mestres. É louvável de sua parte abdicar horas preciosas do seu tempo, tanto para a pesquisa, quanto para elaboração dos textos e para alimentação do blog, sei que o faz por amor acima de tudo e também por sentimento de obrigação, de transmitir as outras pessoas que não tiveram assim como o senhor acesso aos grandes mestres, a fim de que essa arte sagrada não se perca e só se espalhe mais como forma de elevação da religião como um todo. Em nome de todos aqueles que assim como eu gostam de ler o blog, venho te agradecer e parabenizar por essa doação pessoal, por seu merecimento rogo a Olodumare e Orisá gbogboyoro que lhe dêem vida com saúde, e muito animo para continuar essa jornada, que Ogun lhe de seu axé, para que você possa desbravar essa floresta de ritmos sacros, e principalmente possa perpetuar para eternidade a memória daqueles que foram e são os grandes da música do candomblé, memória esta que simboliza a gratidão por nossos antepassados, pelo que fizeram e pelo que nos deixaram.

    Aproveito o ensejo para pedir humildemente que nos presenteie com um trabalho a respeito do maior mestre vivo ainda hoje, Ogan Erenilton Bispo dos Santos, Elemaxó da Casa de Oxumarê, que além de ser exímio perfeccionista na arte de tocar atabaques, é inigualável para entoar cantigas em louvor aos Orisás.

    Christiano de Airá

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  3. Diferenças entre Ijexá tocado para Logum Edé e Oxum. Explicações claras sobre o tema. O mesmo ocorreu na expalnação sobre Bravun e Sató. A importância do Vassi na estrutura musical do candomblé. Homenagens para ilustres representantes da nossa religião e cultura. Postagens sobre a postura religiosa que se espera de um adepto compenetrado com a religião, mostrando o que não devemos fazer para não macular a nossa moral perante a visão dos nossos deuses. Vinicius, te parabenizar virou uma redundância mais que obrigatória para cada nova postagem que você escreve. Seu lado de pesquisador dedicado, religioso comprometido e que acima de tudo tem um amor incondicional naquilo que acredita, fazem de ti, um exemplo a ser seguido dentro da nossa religião. Fico feliz por ter sido orientado pelo meu pai Oxalá, a entrar para a família Ilê Ibualamo e lá, encontrar o meu esteio, junto ao meu Pai José Carlos e você, que me abraçou como aluno, amigo para que eu possa iniciar uma nova era dentro dessa nova jornada na minha vida. Palavras, palavras, somente palavras. Já dizia Sheakspeare. Mas elas carregam um sentimento de gratidão e admiração, que nunca serão abandonados. Que meu pai Ogum, meu pai Oxalá, enfim, todos os orixás, possasm te abençoar cada vez mais. Você merece todas as vitórias que alcançar!!! E o fato de você partilhar conosco um pouco do seu conhecimento, nos torna também vitoriosos. Um abraço do seu mano!

    Carlos de Oxalá.

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  4. Vinicius, poderia ilustrar as batidas do Hunpi? ou serão iguais ao Hunlé?

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  5. Em verdade, vos digo.Você, meu caro,é a personificação daquilo que meu Pai, Gamo Da Paz, intitula de discípulo.De audição apuradíssima, reproduz o chamado "kum kum bam", gracejado pelo filho de Pai Preto, com "open" e "slap", de forma tão didática quanto ao tocador sublime nessa arte.Assevero, aqui, e sem medo de errar, que em um futuro muito próximo, você se tornará o símbolo AUGUSTO desse selecto clã de maestros, e oxalá, que muitos trilhem o seu caminho, valorizando a classe em epígrafe, e com isso contribuindo para a perpetuação dos ícones do pretérito. Parabéns, mais uma vez!!!!!

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  6. Christiano,

    Rapaz, fiquei muito emocionado com suas palavras, de verdade. Digo isso, pois realmente muitos acreditam ser um trabalho fácil, mas não é. Como você disse é árduo. Ademais, há alguns pontos que as vezes, as pessoas não pensam, mas não é nada fácil se conseguir extrair um pouco de informação dos antigos, talvez eu tenha conseguido, justamente por ter sido sempre um processo natural, eu não perguntava, mas sempre ficava muito atento à tudo que me diziam e, sempre, os respeitei muito. Outro ponto importante é o tempo: Tempo esse escasso, diminuto, em função da minha vida fora do Candomblé, que me impede de escrever como queria (mas agradeço à Ogun por não ter esse tempo, pois foram os Orisas que me deram o emprego que tenho). Mas você disse algo que é a mais pura verdade, eu me sinto na obrigação de explanar essas informações, pois são informações que não são o sagrado da nossa religião, pois o sagrado só deve ser revelado à quem de merecimento. Tive muita dificuldade para aprender muitas das coisas que relato aqui, muitas das coisas que escrevo, mas que considero informações que deveriam sim ser participadas. E olha que quem me conhece intimamente, sabe como sou acerca da transmissão do conhecimento. Mas, eu nesse post, por exemplo, não estou ensinando como se toca o Ijesa, seja de Osun, seja de Logun Ede, mas estou instigando as pessoas a pararem, analisarem e, conversarem com seus mestres a respeito. Se analisar com acuro todo o meu blog, em nenhuma postagem eu ensino de falto algo, mas sim, dou a luz que alguns precisavam para aprender, para buscar o conhecimento. Esse post é prova disso, afinal há quantos anos esse disco de Seu Luiz fora gravado? Mas a verdade é que poucos pararam para prestar atenção. E digo mais, se parar para analisar mesmo, há toques que foram gravados, em antigos discos que já ninguém mais toca, mas aos poucos vou comentar aqui. Bom, muito obrigado mesmo pelas palavras!!!!!!

    Abs.,
    Vinicius

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  7. Anônimo, por favor, diga seu nome, ok?

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  8. Carlos,

    Obrigado pelas palavras de reconhecimento e motivação. Não sou exemplo, muito pelo contrário, mas uma coisa é verdade: Amo Incondicionalmente Aquilo em que Acredito! Sempre acreditei que há coisas que devem ser participadas, não tudo. Pode até não parecer, mas sou defensor que Awo é restrito à um número pequeno de pessoas, no entanto, há coisas que devem ser faladas, discutidas, recordadas e até melhoradas. Nesse espaço, em todas as minhas postagens, desde a primeira, jamais participei o segredo da religião, mas dei um norte à muitos que precisavam. Nesse caso, mesmo, eu não estou ensinando ninguém a tocar o Ijesa, seja o de Osun, seja o de Logun-Ede, no entanto, chamei atenção para algo que está gravado há anos e, poucos perceberam a diferença......

    Um grande Abraço.
    Vinicius

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  9. Meu Fidalgo Xaxá, sua bênção!

    Ainda que não seja aluno dele, sou discípulo e, não furtar-me-ei de buscar ter-lo na minha lista de mestres. Muito embora, sobretudo no último mês tive a honra de com ele muito aprender e, inclusive encorajando-me em novas empreitadas concernentes à nossa religião dos Òrìsàs. O “Open” e “Slap”, são oriundo das aulas com Gabi, que tive na federação, gostei da metodologia (rsrsrs). Todavia, não olvido do originalíssimo “Kum Kum Ban”, sendo essa inclusive, a forma que aprendi o “Toke Daju-a” e, tantos outros toques. Poxa meu nobre, fico muito comovido com suas palavras e Oxalá sua profecia se concretize. Obrigado, não somente pelas palavras, mas pela amizade, ensinamentos e confiança. Sua bênção. Vinicius

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  10. Parabéns meu caro, vc reúne duas características que identifica uma pessoa de caráter:SABEDORIA E HUMILDADE! Parabéns mais uma vez!

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  11. Muito bom ouvir falar de Meu Querido Avó Tarrafa! Muita saudade.

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    1. José Luiz,

      Você é neto de meu Pai tarrafa? entre em contato comigo: opotun@hotmail.com

      Abs.,
      Vinicius

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