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terça-feira, 13 de setembro de 2011

O Toque de Guerra e o Toque de Caça

Hoje quero chamar atenção para esses dois importantes toques do Tradicional Candomblé Nago-Ketu, o Toque de Guerra e o Toque de Caça, que são amplamente confundidos ou fundidos. Nas minhas andanças e mesmo em alguns vídeos do youtube, observo que há uma falta de entendimento sobre esses toques, mais usualmente utilizados para as Divindades Ogun e Òsóòsì, respectivamente (no entanto, não somente para esses Òrìsàs).

Para ilustrar o meu discurso, inicialmente quero que prestem atenção à gravação infra, da faixa de Ògún, do disco Odun Orin.


Resumidamente, no toque constante na gravação acima, há uma marcação básica do Hun: “Kupá Kupá Kupá Kunban”, ou seja:

Slap de Mão, Slap de Agidavi
Slap de Mão, Slap de Agidavi
Slap de Mão, Slap de Agidavi
Open de Agidavi, Open de Mão

Essa marcação conjumina de forma plena com a dança de Ògún, o Deus da Guerra, em que o mesmo “corta” transversalmente com o seu Aladá (Facão) algo imaginário, a depender do cântico. Nesse aspecto, há uma interação sine qua non entre as frases musicais do atabaque e a dança do Òrìsà.

É importante frisar que, há outra dança de Ògún que também “corta” perpendicularmente (na qual ele traz a faca junto à cintura para esquerda e direita), nesse sentido, peço que não confundam com essa dança, pois essa será mote de outra postagem futura.

Desta forma e, pensando que os toques dos Òrìsàs estão sempre em consonância com as danças, eu indago: como se pode “caçar”, tocando o ritmo de guerra? Acho que fica um pouco incoerente, no mínimo.

Isto posto, peço que se imaginem dançando caça (por exemplo, a cantiga arawara tafa rode) com o toque de guerra, de Ògún. Para facilitar esse insight, posto abaixo, uma curta gravação do toque de guerra (sem voz, somente atabaques) executado por Vadinho, no célebre disco de Mãe Hilda.


Se você tentou dançar “caça” com o toque postado acima, certamente sentiu dificuldade em encontrar o tempo da dança com o atabaque, correto? Fique tranqüilo (a), a culpa não é usa e, explico o porque: DANÇAR CAÇA COM O TOQUE DE GUERRA, É COMO DANÇAR VALSA COM RITMO DE SAMBA, compreendem?

Talvez algumas pessoas mais relutantes digam que estou “criando moda” ou querendo encontrar toque para tudo. Mas como sempre olho para trás à busca do futuro, valho-me desta feita, da antológica gravação imortalizada nas mãos de Dudú, do Terreiro de Mãe Bebé, no Buraco da Gia, tendo a cantiga “Arawara Tafa Rode”, entoada por Vadinho do Gantois no disco “Shire Orishas Ede Yoruba”.


Aqui, peço novamente que escutem com atenção e tentem encontrar a marcação do toque de guerra que mencionei no início da postagem (“Kupá Kupá Kupá Kunban”).

Bom, aqui as frases musicais são muito mais complexas, há muita mão, muito slap de madeira e, sobretudo, não há guerra, somente caça. Essa gravação é sem dúvidas uma das minhas preferidas, pela execução sem-par de Dudú e, mormente por esse toque ser um dos meus prediletos.

Mas não acreditem no que eu escrevo, peço que escutem novamente e da mesma forma que tentaram dançar caça no toque de guerra, dancem novamente, no entanto, o façam utilizando o ritmo certo.

Se você tentou e, óbvio, se conhece bem a dança da caça, certamente notou que o ritmo do atabaque encaixa-se perfeitamente com os passos da dança, diferente da discrepância entre a dança da caça e o toque de guerra.

Sei que, muitos que escutaram atentamente aos dois toques e que, principalmente, tentaram dançar com cada um deles, dirão: “mas isso é muito perceptível, como há pessoas que tocam de forma errônea?” Até concordo, no entanto, aqui deparamo-nos com alguns fatores que contribuem sobremaneira para a grande incidência dessa falha e, que responde ao questionamento. A saber, por ordem de importância segundo os meus critérios:

1º Falta de Mestre;
2º Não sabia que havia um toque específico para a Caça, distinto do toque de Guerra;
3º Até sabia que existia o toque, mas falta humildade em aprender com quem conhece.

Mas no começo dessa postagem eu escrevi “o Toque de Guerra e o Toque de Caça, que são amplamente confundidos ou fundidos”. Porque fundidos?

Nesse ponto, o Alagbé de fato deve atentar-se e muito. Nos toques de guerra, há uma passagem (constante no toque de caça) que finda uma seqüência do toque de guerra (é complexo, mas é isso mesmo). Caso o Alagbé esteja executando o toque de guerra e, por distração (ou falta de conhecimento) prolongar essa passagem ele estará incidindo no erro e transformando guerra em caça.

O inverso também é muito comum, ou seja, o Alagbé está tocando o ritmo de Caça e, na finalização da seqüência de frases musicais, acaba por colocar acidentalmente (ou, novamente por falta de conhecimento) uma seqüência do toque de guerra.

As duas falhas apontadas acima são bastante comuns e, pouco perceptíveis para a maioria das pessoas, no entanto, um grande Alagbé, observará a falha facilmente.

E como corrigir? Como saber? Não há milagres, a figura do mestre é fundamental, basilar nesse processo. Ao longo de anos (sim, anos. Não são dias ou meses e sim anos) o Mestre irá esclarecer essas dúvidas ao discípulo e, não tenha dúvidas que, se no meio do processo, o discípulo crer que aprendera tudo, o Mestre irá mostra-se Mestre, sempre com uma carta na manga, ou melhor, uma passagem no agidavi.... Ainda hoje, aprendo muito com os meus Mestres e, tenho certeza que daqui 50 anos, ainda vou me deparar com dúvidas à serem dirimidas.

Caros, uma vez mais, espero ter contribuindo com a disseminação da sagrada cultura dos atabaques. Espero ter trazido à tona, mais uma particularidade dos tradicionais ritmos do Candomblé mostrando uma luz para aqueles que estão à busca do correto, mas que foram cerceados por muitos que queriam centralizar em si o conhecimento.

Sem mais,
Opotun Vinicius

6 comentários:

  1. Eu curto, as batidas mas que as canção, mas e correto,o que tu fala e mostra... eu estou amando
    Mojubá.

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  2. Parabens Opotum Vinicios,realmente existem detalhes em nossa musicalidade religiosas que infelismente passam desapercebido,como mencionou no texto acima "hora por falta de um mestre que ensine ,hora por falta de humildade do alabé em querer aprender ou falta de esclarecimentos...Deveras nós sempre recorrermos à grandes mestres de nossa musicalidade para que possamos perpetuá a mesma de forma integra e correta .Mais uma vez parabens pelas maravilhosas postagens que nos remete à uma boa reflexão do que é a religião dos orisas e pelos esclarecimentos por parte da nossa musicalidade religiosa no anplo sentido...
    Asé lailai e continue sempre nos bridando com vossa sabedoria adquirida por anos seguindo com os grandes mestres da nossa religião.Kolofé
    ...ivo marques de obaluaie...

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  3. Parabens Ogan Vinicius pelo seu trabalho, e pela a divulgação do seu conhecimento assim vc ajudara muitos ogans e outros que queira aprender.
    Continue assim ;)

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  4. Ilé Ase Ade Omo Obá;

    Que bom que está gostando do blog, em breve novas postagens.

    Abs.,
    Vinicius

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  5. Jagunmale,
    Esse é problema, passar desapercebido. São muitas as particularidades, de muitos dos toques, como esse de guerra e caça. Obrigado pela participação de sempre nesse espaço, fico muito feliz em saber que mesmo àqueles que não são Ógáns, também se interessam por esse conteúdo que é importante para todos.
    Abs.,
    Opotun Vinicius

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  6. Narciso,

    Origado meu irmão! Meu objetivo é esse mesmo, poder compartilhar um pouco do pouco que aprendi, contribuindo para a manutenção dessa linda cultura.

    Abs.,
    Opotun Vinicius

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