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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo, Um Sacerdote que Edifica Sua Religião

Quando iniciei esse Blog, o mote principal era dissertar sobre as histórias dos Grandes Mestres do Atabaque, bem como a música nas Sociedades Ketu-Nago. No entanto, ao longo do tempo, observei a necessidade de falar sobre outros temas, pessoas e casas. Desta forma, além do proposto inicial (que não será descontinuado e que abordará também os Grandes Mestres de SP e RJ), vou escrever sobre temas e pessoas em geral, relacionadas ao Candomblé. Nessa nova etapa, resolvi falar um pouco sobre alguns Sacerdotes e suas respectivas Casas de Asè, mas não aquilo que todo mundo já sabe, algo novo, algo de diferente.  Nesse primeiro “Perfil Sacerdotal”, não poderia falar de outra pessoa senão, o Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo (meu Pai Carnal) e sua Casa, a Sociedade Ilé Alákátu Asè Ibùalámo. Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo Diante do Oparere de Ibùalámo.
Não poderia iniciar, sem antes comentar sobre a sua importância na minha vida. Tudo o que sou, que aprendi, na vida e na religião, essencialmente devo a ele. Mais que um Babalòrìsà de conduta ilibada, é um Pai no sentido mais amplo da palavra. Mostrou a mim e à Gabriela (minha irmã), a importância de termos valores, ética e, devoção naquilo em que mais acreditamos, os Òrìsàs. Mais que palavras, mais que discursos repreensivos, nos deu exemplos, sobretudo, exemplos de vida. Desde muito cedo, nos ensinou a compartilhar, sendo que ele não era somente o nosso Pai, mas sim, o Pai de muitos e tivemos que aprender isso... Nunca nos disse: “Não Use Drogas”, mais que isso, ele mostrou-nos o reflexo da destruição das mesmas nas pessoas, algumas inclusive, que tiveram a sua ajuda para a cura. Meu Pai não nos disse: “Vão trabalhar”. Novamente, ele nos deu exemplo, sendo que quando acordávamos, ele já havia saído para o serviço na Metalúrgica JR. Alipert e, quando íamos deitar, ele ainda estava acordado para ajudar as pessoas que procuravam pelo seu apoio espiritual. Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo e seus Filhos (Gabriela e Vinicius).

Desde cedo, mostrou-nos incondicional amor aos Òrìsàs, em Boiadeiro, Marujo e “Suspiro”, seu Ere (Deuses que somente nós, sabemos quão importantes são em nossa família). Ensinou-nos que no Candomblé, Deuses são os Òrìsàs e, somente eles. Ensinou-nos que, nossos Deuses são negros, africanos, que nossa religião é negra.  Recentemente me perguntaram em que momento despertou o meu amor pelo atabaque, afoxés e samba-reggae. Imediatamente, de forma muita viva, veio em minha mente, a imagem dele, colocando no toca discos que tínhamos em casa, o LP “Afoxés da Bahia”, com uma coletânea de Afoxés e Samba-Reggae ou então, o antológico Disco de Seu Luiz da Muriçoca, que ele sempre falava “era da casa de meu avô”! Esse foi o meu primeiro contato... Recordo-me quando ele segurava minha irmã pelas mãos, ensinando-a dançar o puro Samba de Roda do Recôncavo Baiano, ou ensinando para ela as rezas do mlé (unlé) e cânticos dos Òrìsàs. Hoje quem a vê sambando e rezando, até pensa que ela é baiana...Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo, lavando a cabeça do filho Vinicius, no dia de Òsun.

Só tive acesso aos Grandes Mestres, por causa dele, pelo incentivo dele. Lembro que ele falava ao meu Pai Tarrafa: “ensina ele, que ele vai aprender”. Levou-nos (Eu e minha irmã) à Bahia desde a infância, mostrando-nos não somente a nossa família consangüínea, mas também a Família de Santo, as origens, ensinando-nos a hierarquia da nossa religião. Ensinou-me as folhas dos Òrìsàs, mais que isso, ensinou-me a importância e utilização de cada uma... Ensinou-nos que, Òrìsà gosta de elementos que evidenciem sua essência e não de luxo, se fosse assim, não sairia com os pés descalçados e sim de sapatilhas. Ensinou-nos que, não adianta passar um ebó com 77 pratos senão se tem fé em nenhum, mas que se acreditarmos no poder do Òrìsà, um Ekò (Akassá) basta. Ensinou-nos que, a Religião dos Òrìsàs não é para arrumar emprego, namorada ou ganhar na sena, ensinou-nos que a Religião dos Òrìsàs é simplesmente uma Religião, na qual devemos estar para nos encontrarmos espiritualmente e, principalmente, nos religarmos às nossas ancestralidades. Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo e sua filha, Gabriela.

Meu Pai, em verdade, me ensinou muito, mas, sobretudo, me ensinou a ser gente, a ser íntegro, simplesmente me tornou um Homem. Todos os dias penso, quantas pessoas são tristes por não terem orgulho de seu pai? Quantas pessoas se envergonham por seu pai ser alcoólatra, drogado, não possuir caráter, brio, honra? Sempre que penso sobre isso, chego a conclusão de que tenho que agradecer muito aos Òrìsàs e à Olodunmare, pois o meu caso é justamente o oposto. Orgulho-me hoje e sempre por ter o Pai que tenho, homem honesto, que não se vendeu, de brio, íntegro, generoso. Quiçá um dia se ter filhos, eu ser para eles somente um décimo do que meu Pai é para mim. Quiçá, ainda, eu ser um décimo para meu Pai, do que ele foi para meus saudosos avós, os seus pais, que não tenho dúvidas, mesmo do Orùn, emocionam-se em ver que não criaram um filho, mas sim, um exemplo à ser seguido... Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo e seu filho Vinicius.

Como narrado inicialmente, não poderia falar sobre o Sacerdote, sem antes falar sobre o meu Pai, que me cria, que me educa e que me ama, mais que todos. Findo essa explanação sobre a importância dele em minha vida, para discorrer um pouco sobre a importância dele para as demais pessoas e para o Candomblé, um pouco de sua história e do Ilé Alákátu Asè Ibùalámo.

Meu pai, o Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo, nasceu na cidade de Castro Alves, no recôncavo baiano, reduto dos Candomblés ortodoxos da Bahia. Oitavo filho de Percilia Araújo (descendente de índios, profunda conhecedora de ervas e seus poderes para a cura) e Rosalvo Santana. Desde muito cedo esteve intimamente ligado à religiosidade baiana, fazendo parte de sua vida, desde o ventre de sua mãe. Ilustro essa ligação, com uma história narrada por minha avó, Percilia Araújo, conforme segue: Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo, no Àgbó de Òsóòsì.

"Eu sempre fui pegar lenha para o fogão de casa. Quando eu fiquei grávida de Bim (apelido dado ao Babalòrìsà José Carlos, pelos seus familiares ainda na infância) eu continuei pegando lenha, eu pegava na mata perto do riacho. Teve uma vez que estávamos eu e Firmina, quando eu fui pegar o feixe de lenhas, eu vi um homem negro e alto lá em cima da árvore, na margem do rio. Esse homem me encarou e deu uma flechada na minha barriga, então eu desmaiei e não vi mais nada... Quando eu acordei, Firmina me perguntou o que tinha acontecido, se eu estava bem. Eu me peguei a chorar, dizendo que tinha perdido a criança, pois um homem negro flechou a minha barriga. Quando eu acabei de contar a história, Firmina começou a rir da minha cara, que eu não tinha perdido meu filho não, pois nenhum homem tinha atirado uma flecha em mim não, que eu na verdade tinha visto Òsóòsì, que era o santo que usava flechas e que vivia na mata”. Foto: À frente os pais carnais do Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo (Seu Rosalvo e Dona Percilia).

A história acima mostra-nos a predestinação de Olodunmare, acerca do destino do Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo. Quando meu pai foi iniciado, minha avó perguntou para qual santo ele tinha sido raspado. Ao falar “Ibùalámo”, minha avó afirmou que ele tinha sido enganado, que o santo dele estava errado. Meu Pai perguntou por que ela achava isso. Foi quando ela falou que ele era de Òsóòsì, pois quando ela estava grávida dele, Òsóòsì tinha flechado a barriga dela e, lhe contou a história até então desconhecida por ele. Surpreso, ele falou que ela ficasse despreocupada, pois Ibùalámo era também um caçador, que vivia no fundo do rio, mas que usava flechas quando ia para mata caçar e que tinha um grande fundamento com Obaluwaiye. Prontamente, minha avó mudou de idéia e disse: Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo Diante do Oparere de Ibùalámo.

“Então você é mesmo desse Ibùalámo, pois eu fui pegar a lenha na mata que ficava na margem do rio, e a mulher que estava comigo (Firmina) era de Obaluwaiye, então você é mesmo desse Ibùalámo”.

A história acima, nos ensina algo muito importante. A pessoa não escolhe seu Òrìsà ou o seu destino. Muitas pessoas almejam ser Babalòrìsà ou Ìyálòrìsà, meu Pai se tornou Sacerdote naquele dia, por escolha do Òrìsà, antes mesmo de nascer. Naquele dia, minha avó não tinha a consciência que um Deus Africano, havia escolhido o seu filho para cumprir uma missão, a missão de zelar por ele e pelas pessoas. Naquele dia, Ibùalámo, o grande patrono da nossa família escolheu um representante, que se tornaria no futuro, um dos Babalòrìsàs mais respeitados e admirados, na metrópole paulista.

O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo, foi iniciado no Culto aos Deuses Africanos, pela saudosa Ìyálòrìsà Maria de Nàná, fundadora do Ilé Asè Silanje (Feira de Santana - BA), da casa de Camilo José Machado – Pai Camilo da Vila América. Era muito querido por sua Ìyálòrìsà, que o chamava carinhosamente de “Dofono de Ibùalámo”. Eu tinha somente 7 anos, mas me recordo muito bem que, na chegada de minha avó Maria de Nàná em São Paulo, em razão da fundação da Sociedade Ilé Alákátu Asè Ibùalámo, a primeira coisa que ela disse à meu Pai, foi: Foto: A Ìyálòrìsà Maria de Nana, Sacerdotisa do Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo.

Dofono, trouxe meu Pai Ibùalámo para a casa dele”.

Ela se referia ao Ìgbá do Deus da Caça, que a partir daquele dia, estava nas terras que havia escolhido para morar. Ao lado dela, as irmãs de santo de meu Pai, Deni de Yànsán , Nanansi, a Ìyálode Neide de Òsun e o decano da família, meu Pai Tarrafa, todos vindos da Bahia, para plantar o Asè do filho querido. Fato é que, quando Mãe Maria de Nàná, inaugurou o Asè Ibùalámo, certamente, “plantou” não somente o Awo, mas sim, a tradição ímpar de uma família norteada pela palavra dos Òrìsàs e do respeito ao ser humano. Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo e sua Ìyálòrìsà, na Inauguração da Sociedade Ilé Alákétu Asè Ibùalámo.

Mesmo após a fundação da Sociedade Ilé Alákátu Asè Ibùalamo, por anos meu Pai conciliou as atividades do Asè, com suas funções de chefia na Siderúrgica JR. Alipert. Aos finais de semana, eu o acompanhava à roça, para mim, era como uma aventura, sendo que não havia qualquer tipo de estrutura, somente água, mata e, aquilo que o motivava, os Òrìsàs. Minha Mãe falava: Foto: A rua do Ilé Ibùalámo, ainda de terra, sem água e iluminação.

“Zé Carlos, você é louco! Você comprou a mata do governo” (RS).

De fato o início não foi fácil, tínhamos que ir até à um sítio próximo para pegar água (era o chamado “poço do japonês”). Luz era algo que tínhamos somente pela manhã e a tarde, sendo que com uma precisão britânica, o disjuntor da Eletropaulo sempre desarmava as 19 horas. Foto: O Ilé Èsù, a primeira construção da casa.

Essa "jornada dupla" durou alguns anos. Uma crise que acometeu o País refletiu na metalurgia e, a empresa em que meu pai trabalhava abriu concordata. Acho que essa foi a primeira prova que tive na vida, do poder dos Deuses. Lembro que estávamos na roça e o Boiadeiro do meu Pai o pegou, chamando minha mãe, minha irmã e Eu. Naquele dia, ele nos disse, principalmente à minha Mãe, que não ficássemos preocupados, pois o "Seu Zé Carlos" não seria mandando embora. Que muita gente seria mandada embora, mas ele não. Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo, eleito funcionário padrão da Alipert.

A preocupação da minha mãe tinha uma razão. Afinal, o terreno do Ilé Alákátu Asè Ibùalámo havia sido comprado fazia pouco tempo, bem como, a casa em que morávamos (ambos não quitados à época). Sei que durante anos meu Pai continuou trabalhando, quase que como funcionário derradeiro na Alipert. Era algo impressionante, por vezes, eu acompanhava um antigo amigo da família (Carlão) que buscava meu Pai no Serviço. Quando dava o horário ninguém saía, somente ele, a empresa era gigantesca e até parecia que somente ele estava lá trabalhando.

Após alguns anos, novamente, o Boiadeiro do meu Pai o pegou e, como na primeira vez, chamou-nos. Desta vez o discurso foi outro e me lembro muito claramente de suas palavras, como se fosse hoje: “Vocês não fiquem preocupados, mais Seu Zé Carlos vai ser mandado embora da onde ele trabalha. A partir de agora a vida dele vai ser os Òrìsàs e os Encantados. Ele só vai sair de lá porque Eu  (Boiadeiro) e o Sr. Òsóòsì queremos, pois senão, agente deixava ele lá trabalhando pra sempre. Mas agora ele vai cumprir a missão dele com os Òrìsàs”. Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo Diante da Casa de Boiadeiro.

Recordo-me, também, das lágrimas e falas preocupadas da minha Mãe: “Mas seu Boiadeiro, como que vai ser? ele não pode sair do serviço!”.

Seu Boiadeiro, por sua vez disse:


“Dona Nalva, eu não disse para a senhora não ficar preocupada? Eu me chamo Boiadeiro, enquanto Eu, Marujo e o Senhor Òsóòsì existir, nunca vai faltar nada nessa casa, nem para a família de Seu Zé Carlos, ou eu não me chamo Boiadeiro”.

Chorando copiosamente eu afirmo: Conforme as palavras ditas por meu Pai Boiadeiro, naquele dia, nunca nos faltou nada, nunca! Dessa forma, meu Pai, se entregou por inteiro ao Candomblé, consolidando sólidas raízes e, tornando o Ilé Alákátu Asè Ibùalámo, uma das Casas de Candomblé mais tradicionais e respeitadas de São Paulo, onde o mais importante é o Òrìsà. Foto: Barracão Central da Sociedade Ilé Alákétu Asè Ibùalámo.

A Sociedade Ilé Alákátu Asè Ibùalámo, tornou-se tradicional, primeiramente pelo poder e vontade do Òrìsà. Mas, verdade é que, meu Pai não se vendeu às tentações do “Candomblé Moderno”, mantendo intacta a cultura que aprendeu no recôncavo baiano. Uma casa simples que eu brinco ser “a casa dos baianos chatos”. Em verdade, meu Pai faz as coisas pelo, para e a mando do Òrìsà, ele mesmo faz questão de confeccionar não somente a roupa de Ibùalámo, mas também a de muitos filhos. Alias, muitas vezes eu o presenciei entregar as roupas de Ibùalámo para filhos de santo que ainda não tinham condições. Quando um ìyáwò recolhe para ser iniciado, acorda antes da alvorada para pessoalmente colher as folhas da esteira e, potencializar uma por uma, por meio das rezas e cânticos. Foto: Festa no Ilé Ibùalámo.

Por suas mãos, muitos filhos foram iniciados, todos como diz ele estão bem e trabalhando, graças à Ibùalámo e pela vontade de Ibùalámo, algums saíram, simplesmente pelo fato de não se adequarem ao Asè, em que não se admite luxuria ou a profanação do Candomblé.  Sempre valorizou a importância da manutenção das tradições para as religiões futuras, por isso, as crianças sempre tiveram espaço cativo no Ilé Alákátu Asè Ibùalámo. Sempre comenta: “Quero nossa Casa de Candomblé cheia de crianças, pois serão elas que vão cuidar de tudo no futuro...”. Nesse sentido, algumas das Egbon da casa, foram crianças na roça e, algumas até participaram de projetos Sociais existentes. Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo e seus filhos, diante do Àgbó de Òsóòsì.

Aliás, quando falamos em Projetos Sociais, a Sociedade Ilé Alákátu Asè Ibùalámo, está à vanguarda em São Paulo. Nesse aspecto, novamente as Divindades tiveram participação ativa, para esse cenário. Essa missão fora outorgada ao Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo, pelo nosso pai Boiadeiro, que disse que ele deveria “fazer coisas para ajudar a quem precisa” e, assim ele faz até hoje. Foto: Placa de Inauguração do Telecentro Ile Ibualamo.

As Ações Sociais do Ilé Ibùalámo, nasceu com o Projeto Oluwá (antonomásia de Deus em yorùbá), que além de aulas de dança-afro, percussão, inglês, contava com uma creche comunitária, distribuição de comida, sopão, distribuição de leites, etc. Desde então, o Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo, por meio do Ilé Alákátu Asè Ibùalámo, realiza dezenas de atividades, que tem por objetivo mitigar os problemas sociais que acometem a população circunvizinha à roça. Sua proximidade com o Bairro é tão significativa que, exerceu por três mandados consecutivos, a Presidência da Comunidade do Bairro e, nesse aspecto, é salutar destacar que, só deixou porque não desejou mais participar do cargo. Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo ao lado da então Prefeita de São Paulo, Marta Supliciy.

Conseguiu inúmeros benefícios ao Bairro do Jardim Varginha, São Marcos e adjacências.  Hoje quem vai visitar o Ilé Alákátu Asè Ibùalámo, depara-se com água encanada, esgoto, iluminação e asfalto, mas nem sempre foi assim. Meu Pai lutou incansavelmente para que luz, água, esgoto e asfalto chegassem ao bairro. Lembro-me que, após um mês com água encanada no bairro, uma fila de moradores formou-se à frente da roça. Todos eles queriam saber como resolver o problema da conta da água. Recordo-me da frase do meu Pai aos moradores: Foto: Encontro dos Moradores, realizado pelo Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo.

Vocês toda vida usaram água do poço ou clandestina, agora vocês tem água encanada, mas é paga! Vocês têm que ter consciência na hora de usar, não é para ficar lavando calçada com água da rua à tordo e à direita, pois se usar como usava a água de poço, vocês não vão conseguir pagar a conta do mês. Não tem nada de errado na conta, tem em como vocês usam a água. Vocês que vão ter que se reeducar, aprendendo a usar uma coisa que é paga e não de graça”.

O mesmo aconteceu quando da legalização da rede elétrica, onde todo o bairro novamente foi à roça, pedir ajuda em função do elevado valor da conta:

Vocês toda vida usaram gato, então ficava o dia inteiro com a luz acessa, com televisão, chuveiro, ferro, tudo ligado. Agora vocês estão pagando. Então tem que passar toda a roupa de uma vez, não pode ficar 2 horas no chuveiro, vocês vão ter que se conscientizar”.

Mas que conscientização da população, meu Pai conseguiu junto à Eletropaulo, a doação de milhares de lâmpadas econômicas, que foram distribuídas gratuitamente aos moradores do bairro, contribuindo dessa forma, para a diminuição dos gastos referentes à luz elétrica.

Quando adolescente, lembro que ele ia até um sacolão, no bairro do Grajaú, pegar frutas e legumes para distribuir para as pessoas carentes do bairro. Ele pegava tudo aquilo e fazia um sacolão na roça de Candomblé. Eu ia dirigindo uma Brasília muito velha que meu pai tinha, que só pegava no tranco. Quando chegávamos à roça, junto com o caminhão de mantimentos, ele mandava eu ajudar a descarregar. Eu dizia: “Caramba! Esse pessoal podia vir ajudar a descarregar esse caminhão. Eu não vou ficar carregando caixa não”. Ele prontamente reprimia: “Filho, eles não tem o que comer, como é que vão ter força para descer essas caixas e outra, fazer exercício é bom para você emagrecer - rs..”. Além do “sacolão”, ele fazia o Sopão, que era distribuído à centenas de pessoas, sem falar em distribuição de roupas e cobertores no inverno. Teve um ano, que ele distribuiu mais de 300 cobertores à população carente... Foto: Distribuição de Leite no Ile Ibualamo.

Muitas pessoas realizam esse tipo de atividade, com o único objetivo de se promover. Com o Babalòrìsà José Carlos de Ibùlámo, nunca foi assim. Há dezenas de ações que jamais foram participadas às pessoas. Certa vez, ao saber que um conterrâneo seu de Castro Alves, encontrava-se em São Paulo, há meses sem contato com a família e com problemas de drogas, não titubeou em ajudar. Nesse sentido, mesmo sem conhecer a pessoa (somente a família), prontificou-se em encontrá-lo, com a única informação que tinha - o rapaz vivia como mendigo na região da cracolândia. Juntamente com meu Tio Miguel, alguns parentes do rapaz e a proteção dos Òrìsàs, foram à busca, numa das regiões mais violentas de São Paulo, com o objetivo de trazer o rapaz à nossa casa, para então, levá-lo novamente para Castro Alves. Foto: Médicos realizam campanhas, no Ilé Ibùalámo.

Com a precisão dos caçadores, meu Pai encontrou o rapaz e levou até o Ilé Alákátu Asè Ibùalámo. Lembro-me bem a situação do rapaz ao chegar em casa: O cheiro insuportável, como se nunca tivesse estado próximo à um chuveiro, as roupas todas sujas e gastas, a aparência deprimente de alguém que fora tomado pela força arrebatadora do crack., de fato um mendigo drogado. Por outro lado, a expressão de felicidade do meu Pai, em saber que uma vez mais, havia conseguido cumprir sua missão. Qual seja: Ajudar alguém que sequer conhecia. Lembro-me que meu Pai o fez tomar um banho, chamou a cabeleireira do bairro para lhe cortar os cabelos, deu-lhe roupas novas e, finalmente, saciou sua fome com a fartura ímpar da Casa dos Caçadores, revivendo aquele homem à aparência digna de uma pessoa. Minha Mãe, minha amada Mãe chorava. Quando indaguei a razão, ela me disse: “Não tem homem bom como o seu Pai não Vinicius, ele é bom demais” (acho que ele nunca soube desse comentário). Foto: Distribuição de Leite no Ilé Ibùalámo.

Quantas vezes, não nos acordaram na madrugada, chamando pelo meu Pai. Sempre alguém queria ajuda por conta de um filho que estava com problemas, com dificuldades, até mesmo para resolver problemas relacionados à tramites funerários em casos de morte. Comida então? Presenciei inúmeras vezes ele entregar cestas básicas para quem precisava, muitas vezes eu ia entregar com ele, na Brasília velha... Se não tivesse a cesta básica, ele dava os mantimentos dele mesmo e dizia: “Amanhã Òsóòsì me dá em dobro”. Mas ele sempre foi e ainda é assim. Há cerca de um mês ele foi à minha casa e, um pedinte tocou a campanhia à busca de comidas, meu Pai foi logo dizendo: “Dá comida para ele Vinicius, pois agente não pode negar comida pra ninguém”. Eu não agüentei e respondi: “Até parece que eu não vou dar, nasci e cresci vendo o senhor dando comida para todo mundo que entrava em casa...”. Ele deu risadas e, completou: “Nossa família é de Òsóòsì, nunca vai nos faltar”. Foto: Apresentação do Grupo Oluwá, da Sociedade Ilé Alákétu Asè Ibùalámo.

Preocupado com a imagem que o Candomblé transmite à sociedade, há mais de 20 anos toca Candomblé no início da noite, sobre isso sempre fala:

No passado, os antigos tocavam Candomblé de madrugada para se esconder da polícia. Hoje, nós não podemos nos esconder. O Candomblé é uma religião e, numa cerimônia religiosa, tem gente jovem, criança e idoso. Como alguém vai levar uma criança para uma cerimônia religiosa que começa as 2hs da madrugada e acaba as 7hs da manhã? Como que um idoso vai agüentar um horário desse? Toco Candomblé cedo porque é cerimônia religiosa, onde quero que meus filhos de santo, levem seus filhos”. Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo.

Ainda sobre a imagem do Candomblé, sempre nos mostrou sua indignação com o uso excessivo de bebidas alcoólicas:


“Tem muita gente que não vai ao Candomblé para ver Òrìsà. Tem muita gente que, infelizmente, só vai ao Candomblé para beber. Mas também, tem festas que o povo entra no barracão com dezenas de grades de cerveja. Tem gente que nem entra no barracão, só fica esperando acabar para beber. Minha casa não é bar, o bar é na rua. A pessoa que vem na minha casa que venha pelo Òrìsà. Na minha casa tem muita criança, não é essa imagem que quero que eles tenham do Candomblé. Não quero minha casa cheia com um monte de gente que não pensa no Òrìsà, que só vem para a diversão! Quero poucos e bons, que amem os Òrìsàs, é isso que quero”. Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo, em meio a alegria das crianças, à esquerda, sua neta carnal, Giovanna.

Há algumas coisas que para muitos, passam despercebidas, mas que ferem sensivelmente o coração do meu Pai e fere mesmo, por exemplo, um Òrìsà bater cabeça para uma pessoa. Na roça, ele sempre comenta.


Eu não entendo essas coisas de Òrìsà ficar se jogando no chão, eu tenho pavor disso. Como é que o Deus bate cabeça pra alguém? Eu não concordo e aqui em casa não bate! O Òrìsà reverencia aquele que zela por ele, que toca para ele, que canta, mas bater cabeça? Pelo amor de Deus, eu tenho pavor dessas coisas. Tem lugar que santo lava, passa cozinha, borda... Eu não concordo! Agente faz oro, faz obrigação, grita, acende vela, louva, evoca para depois mandar o Òrìsà varrer casa? Eu nunca vi isso na casa da minha Ìyálòrìsà”. Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo Diante do Ojubó de Ode.

Como disse, há coisas, geralmente que minoram o Òrìsà e que realmente o irrita. Outro exemplo é alguém lhe chamar de “Pai de Santo”.

“Eu não sou Pai de Santo! Eu sou Sacerdote de Òrìsà, o Pai que zela pelo Òrìsà. O Santo que é meu Pai! Aqui na roça, eu ensino meus filhos a me chamar de Pai ou Baba-Mi, mas não Pai de Santo, tenho pavor disso”. Foto: Vista do Barracão do Ilé Ibùalámo.

Meu Pai, além de um verdadeiro Abòrìsà (Adorador de Òrìsà) é um profundo conhecer de folhas, cultivando no espaço do Ilé Alákátu Asè Ibùalámo, árvores raras como: Odan, Atori, Iroko, Orogbo, Arabá, Baoba, Ewuro, e, ainda ervas como: Ogbo, Ogun Onire, Werenjeje, Etipon-ola e tantas outras. É muito procurado também, pela população do bairro, para fazer os seus famosos xaropes para combater a dor de garganta. No entanto, é muito cauteloso ao dar folhas à alguém. Lembro-me que, certa vez, uma jovem foi à roça, pedindo para ele algumas determinadas folhas para fazer um “banho”. Ele logo foi dizendo: Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo, colhendo Ewé Ògún Onire (Folha de Ògún).

“Você acha que eu sou burro? Que eu sou maluco? Você está grávida de quantos meses? Sua mãe sabe que você está grávida? Eu não vou lhe dar folha nenhuma, porque essas folhas que você tá pedindo não é para banho não, essas folhas são para aborto. Eu vou falar para a sua mãe que você está grávida”.

Ainda sobre as folhas ele comenta:

“Hoje todo mundo conhece folha, todo mundo sabe o nome yorùbá. Mas quero ver entrar na mata e achar a folha. Tem gente que só conhece a folha se tiver na foto na internet ou num determinado local do jardim, se a folha morrer e, nascer em outro lugar, a pessoa já não conhece mais a folham, isso é conhecer?”.

Mas o conhecimento não lhe sobe à cabeça. A coisa que mais gosta de fazer e que lhe dá satisfação e ajudar as pessoas. Sua alegria é a concretização do sonho de ter o Telecentro Ilé Ibùalámo, que em parceria com a Prefeitura da Cidade de São Paulo, atende mais de 1.300 pessoas por mês. O Telecentro que está alocado no espaço Social da Casa de Candomblé, propicia à população, 20 computadores ligados à internet, fomentando a inclusão digital e cursos de capacitação. Há ainda, a Biblioteca Comunitária Rosalvo Santana (nome em homenagem ao meu avô), construída em parceria com a Telefônica, que abarca mais de 6.000 títulos. Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo e sua esposa Ekeji Nalva, na Inauguração do Telecentro Ilé Ibùalámo.

Sempre que um Pai ou uma Mãe do bairro sobem às escadas da roça, para perguntar ao meu Pai:

“Seu Zé Carlos, o senhor viu se meu filho está no Telecentro, Biblioteca, aula de capoeira, dança, percussão, karatê, etc...”?

Eu tenho a plena convicção que ele está cumprindo sua missão com esmero. Ele conseguiu, fora da Bahia, fazer com que a população dos bairros, que circundam a roça, enxergue no Ilé Alákátu Asè Ibùalámo, não uma casa de “macumba”, onde se faz o mal, mas sim, uma Sociedade Religiosa de Matriz Africana que, por meio de suas iniciativas, contribui de forma decisiva para a formação educacional e social de seus filhos. Foto: O Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo, na Biblioteca Comunitária Rosalvo Santana.

Ensina-nos ainda, que o Candomblé pode sim ser visto com outros olhos pela população, que basta nos voltarmos para a essência da nossa Religião, os Òrìsàs e as pessoas. Findo esse texto com a certeza de que não escrevi um décimo do que queria, mas que elucidei ao menos um pouco da pessoa que mais admiro nesse mundo, o meu Pai.


Saiba mais sobre a Sociedade Ilé Alákétu Asè Ibùalámo em: http://www.ileibualamo.com.br/


Sem mais,
Opotun Vinicius

11 comentários:

  1. Boa noite,

    Realmente ,pelo que vi do Sr.José Carlos de Ibualamo ,você Vínicius tem muito do que se orgulhar!
    Sempre somos bem recebidos na casa,vemos a integridade e o respeito que o Babalorisá tem com o Orisá!
    Parabéns José Carlos,que Ibualamo cada vez mais te dê prosperidade e asé!

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  2. Mo Jùbá....

    Falar deste senhor é sempre um prazer.... gente fina da melhor qualidade, humilde, sábio, ama Orisá, trata seus filhos como um paizão mesmo... é uma raridade.... um exemplo a ser seguido. Sou feliz por Ibualamo ter me permitido ser amigo desta familia.... Forte Abraço.

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  3. Parabéns Vinicius pelo texto maravilhoso e emocionante.
    O candomblé precisa de pessoas assim, como vocês, que possuem o amor por tudo o que fazem e pelo Orixá.
    Sr. José Carlos Ibualamo um exemplo a ser seguido por muitos!

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  4. bonita historia deste sacerdote que tanto fez e esta fazendo asé...

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  5. Linda história, e admirável retidão deste ser !
    A vontade de conhecê-lo cresce à cada dia....

    Parabéns , Vinícios !!!! Me emocionei à cada linha lida....

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  6. Luan, bom dia!

    Não tenha dúvidas. Meu maior orgulho na vida é ser filho de quem sou. Quem sabe um dia, eu consiga ter um pouco da sensatez e da capacidade de transformação do meu pai. Fico feliz com suas palavras!!!!

    Abs.,
    Opotun Vinicius

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  7. Wemerson, bom dia!

    Que bom ver sua participação!!! Meu Pai é realmente tudo isso e mais um pouco. Mas acho que você falou algo que reflete mesmo o que ele é: TRATA SEUS FILHOS COMO UM PAIZÃO MESMO!!!! Isso é a mais pura verdade. Um grande abraço e estamos esperando você novamente, no Ilé Ibualamo.

    Abs.,
    Opotun Vinicius

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  8. Carla, bom dia!

    Muito obrigado pelas palavras, mas a verdade é que o texto só reflete a história que, nesse caso, realmente é maravilhosa e emocionante. Garanto-te, com toda a propriedade, a coisa que meu Pai mais ama no mundo, são os Òrìsàs. Ele simplesmente, nasceu para isso! Conto com sua participação, sempre!!

    Abs.,
    Opotun Vinicius

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  9. Ogan Belo,

    É uma linda história!!!! Meu pai trabalha intensamente para melhorar a imagem do Candomblé e, para ajudar aqueles que precisam! Acho que isso ele fez com um esmero singular, e melhor, faz por amor e com amor.

    Abs.,
    Opotun Vinicius

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  10. Susi,

    De fato, a história do meu Pai, é algo lindo e maravilhoso. Obrigado por sua participação no Blog e, não tenho dúvidas que o Ilé Alákétu Asè Ibùalámo, estará de portas abertas para receber sua visita e, conhecer pessoalmente meu Pai.

    Abs.,
    Opotun Vinicius

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  11. É, falar do meu estimado e querido pai, para mim, é algo de extrema complexidade. Explico: A forma como fui tratado, antes mesmo de adentrar no axé, me encantaram sobremaneira. E depois de um primeiro contato estabelecido ( contato pessoal ), ocorrido na casa do meu irmão Ivan de Yemanjá, ví o carinho que ele nutre pelos seus filhos, de maneira igual para todos. Fui agraciado por ter hoje a grande felicidade de fazer parte da casa desse senhor, que prega a união familiar como alicerce para galgarmos todos os nossos sonhos. Seriedade ímpar dentro dos preceitos litúrgicos da nossa religião, mostrando-nos como é importante a manutenção da forma mais " original " possível daquilo que foi passado pelos nossos ancestrais. Uma história de vida que impressiona a qualquer pessoa e que serve de espelho para que não venhamos a desistir de nada que queremos, pois com fé, tudo dará certo. Fé, algo que se encontra em estado supremo no meu pai. Seus ensinamentos simples, mas carregados de simbologias, nos mostram sempre o melhor caminho a seguir. Enfim, me sinto feliz por ser filho de quem sou, um pai zeloso, amoroso e que sempre valoriza os seus. Pai José Carlos, eu te amo!

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