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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Um Toque Esquecido...

Em uma de minhas postagens nesse blog, comentei acerca da pluralidade de toques do chamado Candomblé Kétu-Nàgó, um conjunto de ritmos oriundos da herança africana, que foram perpetuados nas mãos dos antigos Alagbés da Bahia. Comentei, ainda, sobre a incessante busca pelas famosas 17 passagens da Hamunha de Ìrókò ou do toque do cântico Toke Daju-a de Nàná. Em suma, os dois toques mencionados, são pouco conhecidos pela maioria dos Alagbés, no entanto, amplamente comentados, pelos mesmos.

Ao analisarmos a magnífica variedade de ritmos existentes no Candomblé baiano, além dos toques pouco conhecidos, mas bastante “comentados” (conforme os dois exemplos citados), deparamo-nos com toques pouco conhecidos e pouco comentados, um deles o motivador desse pequeno artigo.
Não tenho dúvidas de que, os toques que não são de domínio da maioria, mas que são muito comentados, serão naturalmente disseminados (provavelmente vai ocorrer isso com os toques mencionados acima). Esse é um processo natural, quer seja pela busca do Alagbé (perguntar aos Mestres, aos mais velhos, etc.), quer seja pela atenção mais acurada do novel ao observar esses toques, sempre que executados por aqueles que sabem.

Mas se o novato não sabe que existem outros toques além do leque que lhe foi apresentado/comentado? Bom, nesse caso, resta a sorte e, oportunamente ouvir alguém comentar/tocar e, sobretudo, estar atento. Mas há um problema que dificulta ainda mais essa oportunidade. A saber: Se a cantiga de um toque “em extinção” também é pouco entoada, a chance de se ouvir esse toque (e obviamente, tocado da forma correta), torna-se cada vez mais escassa. Creio que há no mínimo, 5 toques nessa condição, mas hoje vou abordar somente 1 deles, pelo fato de existir um registro sonoro do mesmo, propiciando uma melhor ilustração do artigo.

Tenho convicção que muitos irão comentar: “Se há um registro sonoro do referido toque, como o mesmo está em extinção”? Respondo: Muitos sequer sabem que existe esse registro sonoro. Há também os “desatentos”, que até ouviram, mas jamais escutaram (nessa ótica, existe uma significativa diferença entre ouvir e escutar) e, claro, existem aqueles que sabem da existência, escutaram, mas retém a informação para si, numa espécie de cerceamento de cultura.

É interessante frisar que, coincidentemente ou não, também ouvimos cantar menos para o Òrìsà “dono” do toque que vou abordar (Obaluwaiye/Omolu). Isso é sobremaneira confuso, ao pensarmos que, essa Divindade, certamente é uma das que mais possui cânticos.  Aqui temos alguns “fenômenos” que “justificam” isso. Nesse caso, os cânticos tradicionais do Kétu-Nàgó, foram deixados de lado, em função da supremacia atual dos cânticos do Jeje para os Deuses da chamada família Kerejebi. Reflita sobre qual foi a última vez que você ouviu ser entoada a cantiga: “Oniye, Omolu Pajuba...”? Creio que faz tempo...

Assim sendo, do mesmo modo que, quase não ouvimos mais cantar “Oniye, Omolu Pajuba...”, vamos ouvir menos o correto toque dessa cantiga. Muitos acreditam que a mesma é sotaque. Sobre isso, minha recomendação é de que procurem um nigeriano para desmitificar alguns “mitos coletivos”.

Fato é que, quando raramente entoada, mais raro o seu toque é executado da forma correta. Eu mesmo demorei em aprender o toque correto, na verdade muitos anos. Isso ocorre, muitas vezes, em razão da informação não chegar, não estar acessível, etc. Aqui em SP, o toque mais comum de se ouvir para a aludida melodia é o toque das cantigas de Omolu "embaixo" (refiro-me, por exemplo, ao toque do canto: "Onile Wa Lese Òrìsà"), já ouvi assim, mesmo em Salvador, mas tive a sorte, de ouvir na mesma cidade de Salvador, o toque pleno, conjuminando com a dança de forma sem-par.

Cada vez mais, quero sugerir (alertar) os Alagbés, sobre a importância da observação da dança dos nossos Deuses. Um Alagbé observador, com ouvido e sentimento apurado, vai observar que, quando o Òrìsà dança a cantiga: "Omolu Pajuba..." ao som do toque da cantiga "Onile Wa Lese Òrìsà”, algo não está em consonância. Comigo foi assim, eu tocava errado e, percebia que faltava algo, mas aprendi desde muito cedo a ouvir muito e a perguntar pouco. Então, nunca perguntei como era o toque, esperei a oportunidade chegar e, um dia chegou. Após um ou dois anos de ter aprendido o toque, comprei em um sebo o disco de Mãe Olga do Alakétú, quando me deparo com a cantiga que demorou anos para eu aprender a tocar corretamente... Confesso que aprendi com algumas variações distintas das constantes no disco, o que é normal, mas acho esse documento sonoro perfeito para dar vida à postagem, razão pela qual compartilho aqui.

À exemplo do que sugeri na postagem sobre o "Toque de Guerra e o Toque de Caça", peço o mesmo aqui. Escutem a primeira gravação, do extraordinário Vadinho, tocando para Omolu e, dancem a cantiga "Omolu Pajuba.." (mas, por favor, atentem-se para o som do Hun e para o movimento de suas mãos na dança).

Se você fez o teste, observou que muito embora, seja um toque executado pelo maior Alagbé da história, não há harmonia entre o toque, a cantiga e a dança, correto? Simples, não é esse o toque, infelizmente, Vadinho não documentou em sua obra esse toque (sem bem que há um registro de Vadinho quase que inédito – raro ao extremo - de um toque muito próximo, mas de outra cantiga..., quiçá mote para uma postagem futura). Dessa forma, agora, sugiro exatamente o mesmo, todavia, ao som do disco de Mãe Olga do Alákétu e, por favor, observando principalmente o som do Hun, com os movimentos das mãos.

Não tenho duvidas de que, se você fez o teste, escutando as duas gravações, certamente se deu conta da diferença. É para isso que quero chamar atenção! Para as frases musicais tênues dos toques do Candomblé. É fundamental que, estudemos a nossa cultura, que resgatemos os nossos toques, cânticos, danças. Todas as danças do Candomblé conjuminam com o atabaque, se não está em consonância, ou a dança não existe, ou o toque está errado... Simples dessa forma.

Faz poucas semanas, um Babalòrìsà me disse: "Vinicius, eu leio o seu blog, mas vejo que você fala de uns toques que não existiam no passado, coisa nova, coisa mais moderna". Eu respondi: “Não! Muito pelo contrário, os toques que abordo no meu blog, em nada têm de modernos, na verdade, procuro fazer o resgate do antigo, daquilo que existia no passado, mas que não chegou para muitos e que está se perdendo”. Por isso, sempre procuro utilizar gravações antigas como exemplos comprobatórios. Há outra gravação desse canto, do Grande Hubaldo, mas por não ser comercial, preferi não publicar.

Por fim, ratifico meu intento com essa postagem, em chamar atenção para a importância em se tocar para o Òrìsà e, sempre, invariavelmente atentando-se aos pés do Òrìsà, à dança do Òrìsà. Espero, ter contribuído um pouco, para disseminação dessa linda arte dos Atabaques, de modo que a mesma se multiplique para aqueles que o Òrìsà escolheram para ser seus representantes.

Sem mais,
Opotun Vinicius

2 comentários:

  1. Mais uma vez, aprendendo com os textos maravilhosos do Opotun Vinicius. E, assim como sei da sua honra em poder ter aprendido e ainda aprender com os grandes mestres, sinto-me orgulhoso de tê-lo como mestre, onde a cada dia que passa, percebo o quão importante se faz dentro da nossa religião, o exercício da paciência, perseverança, respeito, humildade. E o Sr. Opotun Vinicius, nos mostra como é bom, uma volta às origens, tentar trazer o culto, dentro de suas várias nuances, o mais próximo daquilo que fora deixado pelos nossos ancestres, que tanto lutaram para que chegássemos onde hoje estamos, e que se sentiriam felizes se conseguirmos cada vez mais preservar mais os seus ensinamentos, sem invencionices e a cada dia vejo como isso é possível, através das nossas conversas, do ambiente litúrgico da casa do meu querido e amado pai, José Carlos Ibualamo, pessoa pela qual tenho uma admiração ímpar. Queria o candomblé ter mais pessoas preocupadas com essa preservação dos nossos costumes, costumes esses que nos fazem sentir orgulho da religião na qual acreditamos. Sua iniciativa com esse blog, mais do que nos mostrar de maneira corretíssima, vários aspectos que infelizmente tem passado despercebidos aos olhos de muitos, é mostrar como essa busca, por esse candomblé " perdido " relegado por muitos ao passado, é de suma importância para a sua manutenção. Parabéns meu irmão, pai, amigo, conselheiro. É uma honra para mim ter um mestre ( pois me considero um discípulo seu dentro dessa maravilhosa arte dos atabaques ) tão atuante a tão preocupado com aquilo que realmente importa na nossa religião: Os nossos Orixás.

    Meus sinceros respeitos, Carlos, Omo Orixá Nilê Ibualamo!

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  2. ViVendo e aprendendo,o sr Carlos Vinicius e um grande mestre da arte musical do candomble,e abre os nossos olhos ogans que o nosso candomble e rico e cheio de detalhes que deve ser percebidas

    Obrigado por compartilha seu conhecimento

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