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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Quando a Música, o Alagbé e o Òrìsà Tornam-se Um Só.

Todos os membros das Comunidades do Candomblé são importantes; do Abiyan ao Sacerdote, cada um possui um papel de fundamental importância. Mas não podemos olvidar-nos que a figura do Alagbé, destaca-se em meio a essa Sociedade, causando encantamento às crianças e, servindo de espelho para muitas pessoas que vão às festas. Quando digo Alagbé, não me refiro somente/ou ao Ògán que fora outorgado com esse título, mas sim, àqueles que diante dos Atabaques, conseguem estabelecer uma linha que transcende as fronteiras do mundo em que vivemos, para o mundo dos Deuses que cultuamos.



Para muitos, o ritual existente na “sala” (barracão) é tido como folclórico. Sobre isso, afirmo: Não existe folclore na minha Religião, a festa pública é um dos momentos mais mágicos e importantes que existe, pois é nela que os nossos Deuses, manifestados em seus filhos, abençoam seus fieis, comungando com alegria entre os seus. É também nesse momento que três fatores tornam-se únicos, mágico. A saber: A Música, o Òrìsà e o Alagbé. Antes de relatar sobre esse momento especial, quero primeiro, explicar a razão desse fenômeno.

Tudo no Candomblé é sacralizado, essa magia só ocorrerá, se todos os aspectos que a motivam, que a norteiam, tiverem sido realizados conforme apregoa os nossos dogmas. A denominada Orquestra Musical Religiosa (os três atabaques e agogô), só terão poder evocatório, se tiverem sido devidamente preparados – ou seja, sacralizados. Aqui não posso escrever esse processo, sendo que constitui um Awo – mistérios – do Candomblé, mas uma orquestra musical que não foi devidamente preparada, não tem valor algum, são apenas instrumentos em um lugar religioso e não, peças religiosas de um lugar (há uma diferença singular).

O outro elemento é o Maestro, o Mestre, o dito Alagbé. Reiterando que, quando me refiro ao Alagbé, estou falando sobre aquele que está à frente da orquestra e que, não necessariamente, é detentor desse título. Sobre essa figura, em verdade, de nada adianta sacralizar um terno de atabaques se, as pessoas que irão tocar (Alagbés) não estiverem adequadamente preparadas para tal. Há alguém que pode perguntar: “Então o Alagbé terá que ser sacralizado para tocar”? Não! Não é isso que quero dizer, o Alagbé não será sacralizado a cada festa para exercer essa função, mas há princípios que devem ser seguidos, tais como jamais, em hipótese alguma, subir ao Atabaque, ao efeito de entorpecente ou alcoolizado.

Ademais, há alguns procedimentos que poucos fazem, como por exemplo, purificar-se antes do Candomblé, por meio do banho sagrado dos Òrìsàs, que corroboram para o processo de magia. Eu utilizo o Òsè Dùdù que meu Pai carnal, o Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo, prepara, mas pode ser de diversas formas. Tudo isso potencializa o âmago espiritual do Alagbé, para que ele possa estabelecer uma linha única de comunicação com os Òrìsàs. Isso, aliado ao amor e estudo musical, propiciará o efeito mágico que mencionei no início desse texto (a Música, o Òrìsà e o Alagbé, tornam-se únicos).

Com efeito, assevero que, nós tocadores conseguimos sim, por meio dos atabaques, estabelecer um canal de comunicação com os Deuses. Não somos manifestados pelos Òrìsà, não obstante, somos energizados por eles, de forma contundente ao tocar e cantar (considerando os pontos já mencionados).

Observem um grande Alagbé (um Mestre) tocando no Sire, sem a manifestação do Òrìsà na sala. Por mais virtuoso que ele seja, o som, as frases musicais, a emoção, não serão os mesmos, quando esse mesmo Alagbé tocar para o Òrìsà manifestado em uma filha (à exceção dos toques evocativos, em que o processo de “transe” do Alagbé, também se inicia – nesse momento, o elo entre o Alagbé e o Òrìsà já foi realizado). Dessa forma, o Alagbé ao tocar para o Òrìsà, deixa de estar no plano do mundo humano, estabelecendo uma ligação única com o sobrenatural (por isso mencionei “transe”, mas não confunda com incorporação).

Quando o Alagbé realiza uma seqüência de passagens, respondidas pelo Òrìsà por meio da sua dança, é como se ele fizesse uma pergunta ao seu Deus e, esse Deus, o respondesse imediatamente. Muitas vezes, esse Òrìsà vai ao Atabaque cumprimentar o Alagbé, como forma de reconhecimento pelo incondicional amor que ele demostra. Para o Alagbé (ao menos os verdadeiros) essa é a grande recompensa, o maior pagamento. Para o Alagbé, receber o abraço do Òrìsà durante a sua dança é como receber direto do mundo sobrenatural, a mensagem de que, tudo está em consonância com a vontade do Òrìsà (eles tornam-se um só).

Mas essa ligação do humano com o sobrenatural ocorre com todos os Alagbés? E com os Alagbés que isso ocorre, é sempre com todos os Òrìsàs? Não! Além dos fatores já mencionados, é importante destacar que, o momento da festa é a conclusão de um conjunto de fatores, que tiveram início muito antes do “Ogun Ajo”. Explico:

Quando um abiyan “bola”, aquele Òrìsà sempre reconhecerá o Alagbé que estava ao Hun. Nesse momento, surgi a primeira “conversa” entre ambos. O mesmo ocorre, quando uma pessoa é recolhida e, passa pelo “Adahun”, que tem objetivo evocar o Deus à terra. O Òrìsà reconhecerá futuramente, que aquele Alagbé, estava em sua primeira vinda do Orùn, ao Aye, conquanto isso ocorre também, com outras pessoas, como o Asogun que “deu comida” àquele Òrìsà. Isso mostra-nos, a simplicidade do Òrìsà que, mesmo sendo Deus, muitas vezes perigoso, admira algumas figuras que fizeram parte do seu retorno ao mundo dos humanos.

Via de regra, isso acontece entre os Alagbés da Casa, com os Òrìsàs da Casa. Mas esse fenomêno pode (e acontece) também com Alagbés visitantes, mas nesse caso, em suma, há uma ligação entre os dois, quer seja pelo Òrìsà manifestado ser o mesmo que rege o Ori do Alagbé, quer seja, pelo amor que o Alagbé tem por aquele Òrìsà, mesmo não pertencendo ao seu Ègbé. Observo isso, quando mesmo não sendo filho daquela Casa, o Alagbé possui laços estreitos com aquela família. Isso é mais comum em Salvador, sendo que muitos Alagbés são confirmados em um determinado Asè, mas seu pai e/ou mãe são membros de outro, não impedindo os laços de amizade e amor, muitas vezes nutridos desde a infância. Como exemplo, menciono um dos mais aclamados Ògáns de Salvador, que ainda será mote de postagem nesse blog, o incomparável Geraldo Macaco, que era confirmado no Gantois, mas que mantinha estreitos laços com o Terreiro de Òsùmàrè, sendo que sua família era de lá. Esse é somente um, de diversos exemplos existentes.

Nessa ótica, o bom Alagbé, é aquele que transcende à barreira existente entre o Aye e o Orùn, conseguindo por meio dos atabaques, evocar os Òrìsàs, comunicando-se com eles, de forma que poucos conseguem, tornando-se parte daquela energia. Não é à toa que, o lugar consagrado aos atabaques é um dos pontos detentores de Asè, existentes no barracão dos Òrìsàs, onde os Alagbés reverenciam os Deuses, com frases musicais especificas, a qualquer momento da festa, independente da cantiga e/ou toque executado.

Feliz do Alagbé, que um dia, conseguiu transpor essa fronteira invisível e que, por meio do seu amor, dedicação e arte, conseguiu falar com os Òrìsàs, tornando partícipe do elo Música, Alagbé e Òrìsà. Por fim, lembro conforme anunciado na página principal desse blog: “Tocar Atabaque é uma Arte, a Arte de Louvar os Òrìsàs”!

Sem mais,
Opotun Vinicius

5 comentários:

  1. fico feliz de ver sua evolução Vincius ... e de saber que ainda existem pessoas que enxegam além do que os olhos tem sobre visao (se é que me entende).Pode ter certeza que seu trabalho esta abrindo o lacunas para o conhecimento ser introduzido atravez desse seu blog . PARABENS

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  2. Pai Chiquinho de Sango2 de fevereiro de 2012 00:39

    Se para o Alagbé existe esta sintonia, digo o mesmo para os Eleguns, pois nos cria uma certa satisfação ao ouvir o rufar dos tambores bem entoados, claro, uma sensação única de alegria e leveza de corpo e espírito, nos propiciando a chegada do nosso Orisá com uma energia que chega ao ápice do que possa ser na hora da incorporação .

    Parabéns pelo belo trabalho !!!

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  3. Lindas palavras! Mais uma vez desenhou o concreto de uma maneira sublime! Basta ver em seus olhos que realmente se tornam um!

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  4. Muito bom!!!!! Cada vez aprendo um pouco mais com suas palavras, diferente de quem se apesenta publicamente só para falar besteiras! Parabens,asé!

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  5. Grande Vinicius! Realmente essa sintonia mágica e transe é o momento mais especial q um Ogan pode ter ao cantar para o Orisá. E acredito q todo estudo e disciplina de um Alagbé são "pagos" pelo abraço q o mesmo ganha e a energia q é repassada pelo vodun. A cada dia q passa fico mais feliz em tê-lo como amigo e poder ter o prazer de ler postagens tão cheias de sabedoria! Abraço!

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