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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Reflita muito, antes de chamar àquele que te iniciou de Pai ou de Mãe, pois um dia, você terá que ser filho e talvez, só tenha disposição para ser um Omo Òrìsà.

Confesso que tive dificuldade em dar nome ao título dessa postagem. Ainda não tenho a plena certeza se o supramencionado é o melhor, todavia, acredito que ao longo desse texto, me farei entender, independente do título.

Nasci e cresci, vendo as pessoas que admiro dentro da Religião, referir-se aos seus Sacerdotes, como “Meu Pai Fulano”, “Minha Mãe Beltrana”, etc.. Valho-me do exemplo do meu Pai, o Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo, que sempre exclamou:

“Minha Mãe Maria de Nana”;
“Meu Avô Camilo”;
 “Meu Pai Tarrafa”;
“Minha Avó Célia”;

O mesmo presenciei de meu Pai Pércio que dizia: “Minha Mãe Simplícia”, “Meu Pai Manuel”, etc.


Hoje, habitualmente, escuto dos Omo Òrìsà, em relação aos seus respectivos Sacerdotes: “Sou filho de Santo de Fulano”, “Minha Mãe de Santo é Beltrana”, etc...

Acredito que muitos podem pensar que isso é simplesmente uma questão de semântica, nesse sentido, penso diferente. Sempre que me deparo, por exemplo, com um filho de santo da aclamada Mãe Menininha do Gantois, todos se referem à mesma da seguinte forma:

“Minha Mãe Menininha me iniciou”...
“Nossa, como Minha Mãe Menininha era boa”...
“Minha Mãe Menininha me ensinou muita coisa”...
“Minha Mãe Menininha tinha uma voz maravilhosa”...

Invariavelmente, observa-se a presença, sempre de forma enfática do pronome possessivo “Minha”. Essa diferença tênue de tratamento esconde na verdade, uma diferença brutal de ligação do filho (Omo Òrìsà) acerca de seu Sacerdote.

No passado, os Omo Òrìsà, tinham na figura do seu Sacerdote, a contundente imagem paterna ou materna (não todos, mas a grande maioria), criando um vínculo que extrapolava a Religião. Ratifico essa tese, ao lembrar que esses Pais/Mães muitas vezes, diante da postura do seu Omo Òrìsà também o consideravam como filho/partícipe da sua família consangüínea.

Essa ligação/preocupação era tão presente, que em alguns casos, o Babalòrìsà/Ìyálòrìsà intervinha com suas relações sociais, para a edificação dos filhos. Exemplifico com o caso de Pai Preto, venerado Ògán do Gantois à época de Mãe Menininha. Seu filho, meu Tio Gamo da Paz, me narrou:

Vinicius, minha Mãe me disse que, o emprego que meu Pai tinha, foi minha Mãe Menininha que conseguiu. Ela mandou o recado pro chefe e ele empregou meu Pai na hora. Muita gente daquela época foi ela que conseguiu o emprego”.

Meu Pai mesmo, o Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo conseguiu emprego para muitos Omo Òrìsà. Mas a questão é: isso é papel do Babalòrìsà/Ìyálòrìsà? Obviamente que não, não cabe ao Sacerdote isso, o Omo Òrìsà não pode esperar isso do Babalòrìsà. Mas quem o faz, é porque tem na figura do Omo Òrìsà, a imagem de um filho, muito mais que espiritual...
Alguns podem pensar que necessariamente, o Omo Òrìsà que vê no seu Sacerdote muito mais que a figura de mentor espiritual (e sim a figura de um Pai ou Mãe), não possui família, fazendo com que o mesmo transponha para o mundo religioso aquilo que não possuí no mundo social. Sobre isso, não posso olvidar que, muitos dos antigos Babalòrìsàs e Ìyálòrìsàs dos antigos Terreiros de Candomblé, abarcaram em seus Asè, pessoas que não tinham família, fortalecendo essa relação de Pai e Filho. Isso é fato, mas não é uma condição sine qua nom.

Digo isso, pois muitos dos Omo Òrìsà que ultrapassaram os limites do sagrado em relação ao seu Sacerdote, vendo no mesmo, a imagem materna/ paterna, possuíam uma relação sem-par com sua família biológica, não havendo a necessidade (s.m.j) de preencher uma lacuna existente, no que concerne a sua ascendência.

Mas qual o problema de se ter no Sacerdote Espiritual, nada mais que a figura do Sacerdote Espiritual? À luz do meu ínfimo conhecimento? Simplesmente problema algum! Afinal ele é Sacerdote e não Mãe ou Pai!

Mas a questão é que, muitas vezes quando um Omo Òrìsà acorda “virado”, ele acredita que na vida dele nada está dando certo. A primeira coisa que ele faz é procurar o “Pai” ou “Mãe”.

Meu Pai! Minha Mãe! Estou com dor de cabeça! Meu marido me abandonou, tem alguma coisa que Òsun pode fazer por mim? Perdi meu emprego, será que tem algum ebó para me ajudar? Oh meu Pai, estou com uns problemas de saúde, será que não tem alguma coisa que o senhor pode fazer? Minha Mãe, meu filho foi preso, o que a senhora pode fazer para ele sair de lá, não tem um ebó?”

São nessas horas que vemos emergir, como um milagre, o sentimento de amor ao Sacerdote/Sacerdotisa, nesse momento, eles tornam-se “Meu Pai, Minha Mãe”.

Como disse, à luz do meu ínfimo conhecimento, não vejo problema algum em o Omo Òrìsà ter o Sacerdote, nada mais como um Sacerdote. Nessa mesma ótica, não vejo problema algum do Sacerdote ignorar as solicitações expostas acima. Afinal, o Papel do Sacerdote é zelar pelo Òrìsà e não conseguir um ebó para trazer o marido de volta!

Quando um Omo Òrìsà busca o “Pai” ou a “Mãe”, para saber da doença grave de seu filho que está na UTI, ele não está buscando o Sacerdote. Como disse: o papel intrínseco do Babalòrìsà/ Ìyálòrìsà é zelar pelo Òrìsà. Nessa hora, o Sacerdote deixa de ser Sacerdote e passa a ser Pai/ Mãe. Ele escuta, consulta o oráculo, aconselha, mas, sobretudo, ele pede aos Deuses não como Babalòrìsà e sim como Pai ou Mãe, regando às Divindades que cuidem para que tudo dê certo. E não duvide, o Òrìsà escuta mais o sentimento do Pai/ Mãe (que pode ser traduzido como amor) do que a voz do Sacerdote, puramente!

Mas à exceção de momentos como o narrado acima, quando você pensa no seu Sacerdote como Pai ou Mãe? Reitero, Sacerdote é Sacerdote, mas senão conseguimos separar isso nos momentos mais difíceis de nossas vidas, porque não nos lembramos deles como Pai ou Mãe nos nossos bons momentos da vida, ou nos momentos de dificuldade deles...

Afinal de contas, acreditem Babalòrìsàs e Ìyálòrìsàs também são humanos, também tem pesadelos, também ficam doentes e, também precisam de conselhos. Nessa hora, muitos daqueles que chamavam de “Meu Pai”, “Minha Mãe” (na hora da UTI do filho), voltam a referir-se ao Sacerdote como:

“Fulano é quem me iniciou”, “Beltrana é a minha Ìyálòrìsà”... Ah minha vida está muito corrida para eu pensar nesse negócio de Candomblé e de “Mãe/ Pai de Santo”.

Invariavelmente, nessas horas, nascem e morrem filhos! Os filhos que nascem, são aqueles que não vêm somente o Sacerdote como Sacerdote e que, na minha visão, tem o direito de abusar do Pai/ Mãe quando o filho está na UTI. Por outro lado, morrem os filhos que só se recordam que são filhos (ou melhor, que têm Pai ou Mãe) quando da própria necessidade. A morte não é física, não me refiro a isso. Para a Mãe ou o Pai, ele continuará sendo filho, mas para o Òrìsà... Tirem da mente que Òrìsà perdoa, pois não ele não perdoa!!!

Demorei muito tempo para chamar meu Pai Pércio de Pai, na verdade demorei seis anos. Recordo-me que, quando fui iniciado no Candomblé, eu chamava de “Tata” (apelido que ele tinha). Fato é que, muitos o chamavam assim e eu, no alto dos meus onze anos de idade, não me sentia nada confortável em lhe chamar de Pai, sobretudo de “Meu Pai”. E olha que nessa época eu já dizia: “Meu Pai Tarrafa”, “Minha Avó Maria” – pessoas do Candomblé que eu respeitava e admirava como parte da minha família. Lembro que ao chamá-lo de “Pai” pela primeira vez, uma irmã de santo me disse: “Nossa, nunca vi você chamando o meu Pai de Pai, o que aconteceu”? Eu respondi: “Hoje eu considero como um Pai e, não somente como meu Sacerdote...”.

Reflita muito, antes de chamar àquele que te iniciou de Pai ou de Mãe, pois um dia, você terá que ser filho e talvez, só tenha disposição para ser um Omo Òrìsà.

Sem mais,
Opotun Vinicius

8 comentários:

  1. Opotum dessa vez você foi na alma!!!!!!!!!!!!! Parabéns mesmo!

    Ogan Lúcio

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  2. Como sempre, você coloca em palavras aquilo q muitos precisam ouvir / ler e sempre com respeito a opiniões alheias e com exemplos verdadeiros como o seu com Pai Pércio. Importantíssimo essa colocação de Pai ou Mãe....ser "filho" é algo q deveria ser fundamentado em sentimentos e não em necessidades....parabéns por mais um post digno de alguém cheio de conhecimento e humildade! Asé!

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  3. Primo, querido....

    Meu pai/babalorisá Luiz d'Osun é o meu pai de verdade além de zelador do meu Orisá,uma vez ele me disse que somos um só (eu e ele) e é verdade, ele é o meu ombro amigo, ele é a primeira pessoa pra quem eu conto qualquer vitória que eu alcance...ele é a luz dos meus dias mais escuros, é a minha jóia preciosa, é o meu pai que eu amo tanto, é uma pessoa pela qual vou sempre brigar, seja qual for a situação....
    Eu amo o meu papai.....ele não é só meu babalorisá e eu não sou só "filha do meu pai Luiz d'Osun, nossa relação transcende..ultrapassa...ele é o meu PAI.
    Abraçossss
    Ekedji Juju d'Osun Asé Ilha Amarela

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  4. Fica difícil considerar como pai ou mãe alguém que cobra de 5 a 15 salários mínimos para fazer qualquer coisa por você, então é por isso que esta relação anda tão desgastada.

    Quando os sacerdotes e sacerdotisas se comportam como pais e mães, muitos valorizam, agradecem, respeitam e amam, porque isso é o que quase todo mundo quer: carinho, compreensão, acolhimento. Porém, os sacerdotes que tratam as pessoas com diferença por seu nível social, os que não acendem uma vela sem colocar preço (e bem alto), os que acham que religião é profissão (e das mais rentáveis!) jamais podem esperar encontrar filhos; vão é encontrar clientes.

    Mesmo havendo quem abuse, a verdade é que quem manda numa casa é sempre o sacerdote/sacerdotisa. Se esta pessoa quiser, pode muito bem afastar os folgados e escolher quem quer como filho. Mas quando o coração é fraco e o bolso é fundo, é mais fácil se fazer de vítima e responsabilizar os outros.

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  5. Texto muito bem escrito sobre uma relação importantíssima dentro da nossa religião. O que está escrito aqui, nos traz reflexões profundas sobre como encararmos tudo isso da melhor forma possível, onde, muitas vezes, só lembramos dessa relação de Pai/Mãe para Filho/Filha, nos momentos das nossas agruras sejam espirituais ou da nossa vida cotidiana, onde muitas vezes, passada a tormenta, o sentimento de gratidão fica escondido, revelando muitas vezes que em muitos casos, as pessoas, de uma forma geral, só nos tem importância quando podem suprir as nossas necessidades. Como sempre escrevi aqui e dessa não pode ser diferente, parabenizo meu pai, Opotun Vinicius, pela sua clareza nas palavras e pela disposição de nos passar não só conceitos sobre a arte sagrada dos atabaques e afins, mas também sobre relações religiosas e pessoais dentro da comunidade do candomblé, fazendo-nos pensar muito para não tomarmos atitudes que venham nos desqualificar perante nós mesmos e os nossos irmãos, pais, enfim, de todos de uma forma geral. Sinto-me regojizado, sinceramente, por fazer parte dessa religião mágica, linda, fantástica e poder contar com esse suporte importantíssimo. Parabéns!!! Mais uma vez.

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  6. Olà opotun
    Comecei a ler seu blog somente essa semana , mas agradeços pelos ensinamentos e pelos momentos de reflexão causados .

    Ogan nelson

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  7. Fico mutio feliz de saber que existem ogans ( quando digo ogans me refiro tambêm aos omo orixás do sexo masculino ) perpetuando os ensinamentos e procurando seguir o candonblè tradicional .
    Isso è muito importante !!!!!!!!!!!!!!
    Pois eu ja começava a achar que sria perpetuado somente a postura dos ogans tunberemins e budas de oguian da vida

    Alabê

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  8. Parabéns pela reflexão proposta !!
    Sou filha "dos meus pais" Heloísa e Alberto, muito antes de se tornarem TAMBÉM meu Bàbá e minha Yiá!! Os antigos possuíam valores que infelizmente com o passar do tempo se perderam. Neste mundo contemporâneo não"temos" muito espaço aos valores familiares. ( Graças a Deus e Orisa não generalizamos esta ideia) Devido a isso encontramos INFELIZMENTE" muitos iniciados e não filhos como aplicado no texto.

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