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terça-feira, 10 de abril de 2012

O Silêncio dos Atabaques - O Período Fúnebre nos Terreiros Nago

A maioria dos meus artigos refere-se à musicalidade da Religião dos Òrìsàs, o poder evocatório, o poder de transcender o profano chegando ao sacro por meio dos atabaques, enfim, todos os aspectos relacionados a essa cultura sobremaneira rica da musica no Candomblé e das pessoas que conseguiram destaque por meio dela. No entanto, hoje vou abordar um tema pouco comentado “O Silêncio dos Atabaques”, que é a forma com a qual eu defino o “Luto na Religião dos Òrìsàs”.
Diferente, por exemplo, de um terreiro de Egúngún em que os rituais ligados aos Ara Orun (habitantes do além) são realizados por meio dos atabaques (inclusive Àsèsè), no culto aos Òrìsàs esses instrumentos silenciam-se diante da morte, anunciando o início e término de um período fúnebre. Por questões obvias da manutenção do Awo (segredo) da minha cultura, que dita que o mistério não pode ser revelado aos não iniciados, não posso discorrer com profundidade sobre as exéquias dos atabaques, que não são poucas e que devem ser realizadas por pessoas capacitadas para tal, mormente pela sua significância e complexidade. No entanto, posso dizer que a importância dos atabaques é tão representativa que, mesmo em silêncio, eles possuem o poder da comunicação.

Quando erigidos no barracão, os Atabaques comunicam-se com os Òrìsàs. Na alvorada eles Salvam a Casa, eles anunciam a chegada dos Òrìsàs nas festas, anunciam sua despedida, enfim, o atabaques comunicam-se integralmente com os Deuses Africanos.
Diante da morte, os atabaques prostram-se vivendo um período de latência. Seu silêncio quando da morte do Babalòrìsà ou Ìyálòrìsà imprime o luto de no mínimo 1 ano que aquela casa deverá guardar em homenagem ao antigo Sacerdote. É sem dúvidas, o período mais difícil de uma Casa de Candomblé, ao passo que a mesma encontra-se uma semi clausura. Ecoará, então, somente o som das cabaças utilizadas nas cerimônias de Àsèsè, realizadas em homenagem àquele que partiu do Aye para o Orùn.
Dessa forma, os atabaques que em seu formato crescente, representam o ciclo da vida, dão espaço aos chamados “tambores de água”, que por sua vez representam o nascimento e o renascimento, reproduzindo a imagem e o simbolismo do ventre genitor feminino. Aqui vale recordar que, uma das primeiras cantigas do Àsèsè nos ensina que na verdade, a morte é um renascimento, desta feita, daquele ancestre (Ibi Ibi Lobiwa...).
Isto posto, o silêncio dos atabaques, anuncia um período de renúncia e entrega, marca o período de luto que a casa deverá salvaguardar, que a casa deverá seguir de forma decisiva para o seu futuro religioso. Por isso afirmo que mesmo em silêncio os atabaques falam.
Mas enganam-se aqueles que pensam que o luto em um Terreiro de Candomblé limita-se tão somente ao Silêncio dos Atabaques ou a plena inatividade da casa. O luto é imprescindível, sendo que é também um agente de comunicação com aquele que partiu. Mesmo quando um Sacerdote morre, ele permanece ligado àquela comunidade. Afinal, tudo o que acontecia, tinha sua supervisão (Oros, Festas, etc), isso é ainda mais contundente quando o ancestral era o Fundador da Casa. Dessa forma, a manutenção do luto prega que, nesse período fúnebre, o mais novo ancestral compreenda a sua morte e, dessa forma, aceite após o período fúnebre, a condução oficial daquilo que ele construiu, por outra pessoa que, será determinada por intermédio do jogo de búzios e também com o seu aceite.

Mas conforme eu comentei, enganam-se também àqueles que acreditam na plena inatividade da casa. Isso é utópico. Um Terreiro de Candomblé, sobretudo quando é uma Roça de Candomblé, precisa de cuidados que se deixados de lado por 1 ano ou mais, serão prejudiciais à casa e, mostrando igualmente desrespeito ao recente ancestral. Isto posto, atividades como o zelo pela casa não pode, jamais ser deixado de lado. Paralelamente aos Àsèsè, cerimônias internas como a reza aos Òrìsàs e oferendas de comidas secas são realizadas e, principalmente necessárias, sendo que o luto deve imperar no período, mas não a morte. Por outro lado, o sangue animal é vedado para obrigações distintas das fúnebres, o que pode causar a ira do ancestral.
É comum em todas as casas, em todos os estados, a apreensão dos Omo Òrìsà, Ògáns e Ekeji durante esse período em que a casa fica em luto. A ansiedade em saber a sucessão, via de regra, toma conta da mente das pessoas que, em função disso, acabam por deixar de lado aquilo que é mais importante nesse momento, que é zelar pela casa e pelas obrigações fúnebres do Sacerdote. Desse modo, torna-se imprescindível o entendimento de alguns pontos. A saber:
Durante o período fúnebre, não é necessária a tomada de nenhuma ação religiosa por parte dos Omo Òrìsà. Ou seja, haverá o trato aos assentos, limpeza, oferenda de comidas secas, mas somente isso. As pessoas não devem se preocupar com obrigações. Mesmo os Òrìsàs comungam da perda daquele que iniciou seus filhos!
Os filhos de santo do sacerdote falecido que, possuem Casas de Candomblé aberta, após geralmente o Àsèsè de 1 mês, retornam suas atividades normalmente. Obviamente isso varia em relação aos dogmas religiosos de cada Asè. Por exemplo, os filhos da Sociedade Ilé Alákétu Asè Ibùalámo que possuem suas Casas de Asè, são orientados que após o Àsèsè de 1 mês, podem e devem realizar todas as suas atividades normalmente, à exceção da festa do Òrìsà que rege sua cabeça. Exemplifico. Um Babalòrìsà, filho de Ògún irá realizar todo seu calendário religioso, menos a festividade em homenagem à Ògún, em respeito e luto pela morte do Sacerdote. Sobre isso, reitero que esse é o costume do Ègbé Ibùalámo, divergindo por vezes de outras casas, que devemos respeitar.
Não há necessidade da busca desenfreada por um novo sacerdote. Quando o Babalòrìsà e/ou Ìyálòrìsà falece, é obrigação sine qua non, do filho com o ancestral do seu Pai, a permanência até a definição do processo sucessório que se dá após o Àsèsè de 1 ano. Excetua-se os casos em que a Casa de Candomblé não terá continuidade.
Durante o período de luto, a casa é conduzida temporariamente, por um membro de grau hierárquico superior, em suma, a Ìyálasè ou Ìyákèkere do Terreiro. O respeito dispensado à essa pessoa é o mesmo conferido ao Sacerdote, sendo essa pessoa a liderança religiosa no período fúnebre. Após a obrigação de Àsèsè de 1 ano, o jogo de búzios é consultado, afim de saber quem ascenderá ao trono de Sumo Sacerdote.
Quando do falecimento do Sacerdote, um novo ciclo se inicia, mas não se finda o anterior. Porque digo isso? O Sacerdote, torna-se o grande Ancestral da Família, ocupando um papel de destaque singular. A partir de agora, tudo o que é realizado deverá ter o consentimento do Ancestral. Quando da sucessão, além dos Òrìsàs, o Ancestral deve consentir. Grandes obrigações devem ser apresentadas e permitidas pelo Ancestral Mor da Família. Ele continua orientando e contribuindo para a Edificação do Ile Asè, contudo, como Ancestral.
Obviamente, o período do Silêncio dos Atabaques, é um período de dor, entretanto, é também um período de renascimento, de resgate e preservação. É um período necessário para todos e, principalmente para a casa. Diferente do que a maioria acredita e prega, esse é um período de construção de laços e de fortalecimento, seja com a comunidade, seja para reafirmar sua identidade com a sua fé.
Apesar de toda a dor que cerca esse evento, a Religião dos Òrìsàs, conforme já mencionado acima, nos ensina que com a morte do Sacerdote Supremo de uma Casa, temos então mais uma Divindade para olhar, orientar e abençoar-nos. A Divindade Ancestral. Não podemos olvidar que na Religião dos Òrìsàs, origem é tudo. Um antigo provérbio yorùbá narra que “devemos saber o nome dos nossos pais, avós e bisavós, para sabermos dar nome aos nossos filhos, netos e bisnetos”.
As pessoas jamais morrem, mas sim renascem. E é nossa obrigação, mantermos vivo o legado, história e dogmas implementados pela nossa origem.
Sem mais,
Opotun Vinicius

2 comentários:

  1. Sobretudo esse é um período de reflexão.Fazendo um paralelo, os cristãos, no período da quaresma, mergulham teoricamente numa reflexão, sobre a caminhada de seu líder, suas andanças, feitos e obras até culminar sobre sua morte e ressurreição. Mesmo no período em que se celebra-se a morte, esse vale como reflexão e termina com a grande alegria da ressurreição, que traz onipresença e onisciência. Só por isso o líder deles evoluiu de um simples filho de carpinteiro para um mestre. Com a nossa religião o processo é análogo, quiçá este tempo seja usado para refletirmos sobre nossos líderes. Devemos deixar de lado as “mesmices” e disputas, e encarar o silêncio como uma oportunidade de discernimento, tendo ciência de que nossa caminhada depende de termos os pés bem fincados no chão. É tempo de reunir boas lembranças, laços que serão eternos na construção do futuro.
    Porque só o tempo é capaz de ajudar e entender nossas aflições.
    Dentre todos os dons que a Divindade concede ao homem, o tempo tem lugar especial. É ele que acalma as paixões indevidas, ensinando que tudo tem sua hora e local certos.
    É ele que cicatriza as feridas das profundas dores, colocando o algodão anestesiante nas chagas abertas.
    É o tempo que nos permite amadurecer, através do exercício sadio da reflexão, adquirindo ponderação e bom senso.
    É o tempo que desenha marcas nas faces, espalha neve nos cabelos, leciona calma e paciência, quando o passo já se faz mais lento.
    É o tempo que confirma as grandes verdades e destrói as falsidades, os valores ilusórios.
    O tempo é, enfim, um grande mestre, que ensina sem pressa, aguarda um tanto mais e espera que cada um a sua vez, se disponha a crescer, servir e ser feliz.
    E é o tempo, em verdade, que nos demonstra, no correr dos anos, que o verdadeiro amor supera a idade, a doença, a dificuldade, e permanece conosco para sempre.
    Neste mundo, tudo tem a sua hora. Cada coisa tem o seu tempo.
    Há o tempo de nascer e o tempo de morrer. Tempo de plantar e de colher. Tempo de derrubar e de construir.
    Há o tempo de se tornar triste e de se alegrar. Tempo de chorar e de sorrir. Tempo de espalhar pedras e de juntá-las.
    Há tempo de calar e de falar. Há o tempo de guerra e o tempo de paz. Mas sempre é tempo de amar. E se amarmos verdadeiramente às pessoas tanto quanto nossa boca fala, caminharemos junto com o tempo, e nunca por força dele. Nosso silêncio é reflexivo por quem amamos. E acima de tudo, deverá nos trazer alegria. Muita alegria, afinal de contas, o caçador traz alegria, e somos bons filhos para o caçador. Ao romper do nosso silêncio, estaremos juntos para nos abraçar e entoar:
    Omo Alaketure Faraimora
    Faraimora Oluwo Faraimora

    Um grande abraço,
    Jacson Nunes
    Omo orisa Nile Alaketu Ase Ibualamo.

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    1. Jackson,

      Não poderia esperar de você, palavras que não fossem tão sábias como as narradas acima. Em verdade, a comparação é justa. Nesse período fúnebre, em suma de 1 ano, devemos refletir sobre toda a história e missão do meu Pai até a ressurreição que aqui, faço analogia com a reabertura do Asè. E, não tenho dúvidas de que, conforme dito por você, ao romper do silêncio, estaremos juntos para nos abraçar e entoar: “Omo Alaketu Re Faraimora....”.

      Abs.
      Vinicius

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