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segunda-feira, 4 de junho de 2012

AWO! UM TOQUE MINORADO POR MUITOS, MAS IMPORTANTE PARA OS ÒRÌSÀS

Primeiramente quero agradecer ao Roger Zanela, que conseguiu converter para videos, os links de exemplo constantes nesse artigo. Há alguns dias estou com essa postagem pronta, mas sem publicar por não conseguir converter meus arquivos de áudio em vídeo.


Retomando as postagens que deram origem a esse Blog, hoje resolvi abordar um toque que muitos acreditam ser bastante simples, para não dizer simplório, o que invariavelmente induz muitos Alagbés ao erro na aplicação de suas diversas e complexas variações. Assim sendo, creio que muitos Ogans irão surpreender-se com as diversas vertentes/aplicações do toque “Awo”, um dos mais usais do Candomblé e, na mesma proporção, um dos menos estudado.


Inicialmente, creio que seja necessário, ilustrar que toque é esse, de modo que todos saibam sobre qual ritmo estou me referindo. Awo na grande maioria das vezes é mais utilizado para os cânticos de folhas (Sasanyin). Na região Sudeste, principalmente em SP, diferente de Salvador, ele é chamado de “Ogele” (Oguelê), à exemplo da confusão que ocorre entre “Agabi”, “Vasi” e “Lagun-lo” e, tantos outros... Especificamente sobre o “Ogele” propriamente dito, muito provavelmente será tema de outra postagem, quando oportuno.
Mas porque “Awo”? Na Religião Yorùbá, acredita-se que todos os elementos da natureza possuem um poder intrínseco, no entanto, sendo necessário despertá-lo para que produzam o efeito esperado. Isso é realizado, na grande maioria das vezes, por meio de evocações e toques. As folhas, por exemplo, possuem poderes mágicos que lhe são próprios, mas que só serão potencializados (transformadores de Asè) se corretamente evocados. Para tanto, com o objetivo de atingir esse propósito, diversos rituais são realizados. Na construção desse processo, o toque do atabaque também possui um papal de grande importância, fazendo emergir de cada elemento, o segredo (Awo) inerte no seu âmago até então intocado. Dessa forma, um dos papeis desse ritmo musical é aflorar o “Awo” de determinados elementos. Ademais, é importante recordar que esse toque, em uma de suas variações, possui o poder de trazer os Deuses à terra, algo sublime, mágico e misterioso (Awo).
Muitos podem estar pensando, mas o que ele vai falar sobre um toque que quase não há variações, que com pouco estudo poderá ser executado e, deixado de lado à busca de ritmos mais instigantes como a Hamunya. Aqui está o grande engano. Como disse acima, o toque Awo é mais utilizado para a maioria dos cânticos de folhas, mas essa não é a sua única aplicabilidade. Há cânticos específicos de Òsun, Nàná, Òsàlá, Òsòósì, Ògún, Yewa, Sàngó e outros, cujo toque é Awo, entretanto, com frases musicais bastante distintas, a depender do cântico, dança ou Òrìsà. Mas não é tudo igual? Não! Não é! Aqui está o “Awo” do “Awo” (os segredos do toque Awo).
Obviamente que nem tudo é diferente, mas há particularidades que faz, por exemplo, o Awo de Òsàlá ser totalmente distinto do Awo de Òsanyìn e por aí vai. Repiso, então, algo que sempre comento e que realmente faz toda a diferença no processo de formação de um grande Alagbé, “Os pés do Òrìsà”. É essencial que o Alagbé sempre esteja atento aos "Pés do Òrìsà", ou seja, "À Dança".
Quando tocamos “Awo” para Òsanyìn, resumidamente a dança abrange três variações básicas. Uma que seria a "base" e duas que concernem ao que habitualmente chamamos no Candomblé de "Dobre". Quando analisamos as frases musicais do Awo de Òsanyìn com a sua respectiva dança, podemos observar que os dois se conjuminam perfeitamente. Para ilustrar esse comentário, valho-me novamente nesse espaço, do antológico disco Sire Òrìsà Ede Yorubá doe Maestro dos Atabaques, Vadinho do Gantois. Peço que atentem-se as passagens do atabaque e imaginem a dança de Òsanyìn.


http://www.youtube.com/watch?v=G51zvOhS_fc
Bom, conforme mencionei acima, as frases musicais do atabaque estão totalmente alinhadas com as passagens da Dança, acho que isso fica bem claro por meio da gravação exposta.
Mas até aqui, não explanei nenhuma novidade aos ouvidos da maioria sobre esse ritmo. Assim sendo, convido o leitor a mais uma experiência, qual seja: Imaginem-se dançando algum Awo de Òsàlá, no entanto, ao som do Awo de Òsanyìn, existente no disco de Vadinho. Awo de Òsàlá? Bom, vou recordar dois exemplos para facilitar o teste: "Ofururu Oyeye...." ou a cantiga "Awa Derola Motibi-o". Confesso que não consigo descrever em texto, com é a dança desses cânticos, mas creio que a grande maioria das pessoas sabe. Pois bem, se você sabe como é a dança desses cânticos, pode constatar que a mesma não “casa” com o toque do Awo de Òsanyìn e isso é simples, o toque embora seja “Awo”, possui variações distintas.
É claro que se o leitor não souber a dança, fica um pouco mais difícil para compreender a linha tênue que há em querer dançar esses cânticos de Òsálà, com o toque de Òsanyìn. Mas para facilitar a compreensão, valho-me de outro disco, desta feita um belo documento sonoro produzido pela Fundação Gregório de Mattos. Nela, a primorosa execução do Awo de Òsálà, realizada por Iuri Passos e o grande Asogba do Gantois, Yomar Passos. Aqui, creio eu que, mesmo o leitor desconhecendo a dança, as frases musicais o levará a interpretá-la e, por consequência, observar de forma mais clara a diferença do "Awo de Òsanyìn", para o "Awo de Òsàlá".


http://www.youtube.com/watch?v=zj8DpFHIgGI
Bom, se escutado com atenção, não é necessário um ouvido de músico para observar a grande diferença dos toques “Awo de Òsanyìn e Awo de Òsàlá”, muito embora a base (Agogo, Hunpi e sejam “Awo”).
Há, também, o "Awo" de Sàngó, esse eu confesso que vejo a execução errônea de forma coletiva. Mas as pessoas irão indagar: "Awo de Sàngó"? Sim, como exemplo, menciono a cantiga que acredito ser bastante conhecida da grande maioria "E Di Mama Jagbo Tapa Tapa". Esse sem dúvidas é um Awo distinto do de Òsanyìn, a iniciar pela não utilização do Agidavi no Hun. Diferente do que a maioria acredita e executa, os "Awos" de Sàngó, no Hun, são tocados com as mãos, à exemplo do Alujá e do Agabi e não com Agidavi, conforme os demais Awos.
Não tenho conhecimento de nenhuma gravação em que esse importante toque fora registrado, para poder ilustrar esse artigo de forma mais didática. No entanto, posso afirmar que o Awo de Sàngó no Hun, é totalmente distinto do Awo de Òsanyìn, tendo em comum, somente a base rítmica (Hunpi, Hunlé e Agogo). Assim sendo, o Awo de Sàngó não é o Awo de Òsanyìn tocado com as mãos, como alguns podem imaginar. As frases musicais existentes são distintas, complexas e totalmente alinhadas à dança.
Há também, conforme mencionado acima, o Awo das cantigas de Nàná que, muito embora tenha algumas frases musicas idênticas aos Awos de Òsanyìn, possui algumas variações distintas, que são fundamentais para a execução plena das passagens da dança do Òrìsà. O Mesmo é observado no Awo de Òsun, em que é necessária a atenção do Alagbé à dança do Òrìsà, para executar o ritmo com perfeição. Contudo, não vou aprofundar detalhadamente em cada um desses toques, em suas variações rítmicas, danças, etc. Em verdade, o grande objetivo desse pequeno artigo é despertar ao Alagbé, a grandeza do universo musical Nàgó. Não tenho a intenção de que alguém leia o meu Blog e por meio dele, esteja apto a tocar os ritmos do Candomblé, mesmo porque isso não é tão simples assim.
Dessa forma, meu intento é tentar mostrar que o universo musical dos Òrìsàs é muito maior do que a maioria acredita ser. Principalmente, muito maior do que os Ogans acreditam ser. Para que um Alagbé tenha o preparo para "comandar" uma festa, são necessários anos e mais anos de estudo e dedicação. E, quando digo estudo, me refiro ao estudo empenhado, espelhando-se em verdadeiros mestres, detentores de conhecimento.
Espero, uma vez mais, ter contribuído um pouco para a disseminação e esclarecimento dos importantes toques da cultura Kétu-Nàgó,
Sem mais,
Opotun Vinicius

8 comentários:

  1. Essa é mais uma postagem que pelo menos a mim, deixa-me boquiaberto diante de tantas variações onde para a grande maioria ( esmagadora até ), essas variações passam desapercebidas. E o blog cumpre brilhantemente sua função de explicar sem aprofundar nos " awos " da liturgia, porém, mostrando-nos de maneira clara, as vertentes sobre vários temas que por hora podem parecer simples, mas que ganham ampla complexidade em cada palavra bem colocada pelo meu irmão Opotun Vinicius. Estudo, estudo e mais estudo. Tornar-se um grande tocador de atabaques, requer bem mais que apenas talento, pois esse, dissociado do estudo apurado, torna-se obsoleto, quase sem validade. Mais uma vez, aqui no blog, tiro uma lição daquilo que sou apaixonado, o candomblé e também, obviamente, a sua complexa musicalidade, impregnada de minúncias que só os mais atentos, os " detentores do conhecimento ", como bem falou Opotun Vinicius, podem nos mostrar de maneira lúcida, límpida como as águas da nossa mãe Òsun. Opotun Vinicius, obrigado por nos brindar com mais essa bela explanação sobre algo tão belo dentro da nossa religião, de uma forma simples, porém rica, em conhecimento e elucidação desmistificando conceitos errôneos e " abrindo os olhos " para o horizonte, o horizonte do saber. Sei, como vc mesmo diz, que tens muito a aprender, mas ainda bem, que também tem muitíssimo a nos ensinar! Parabéns, mais uma vez e que todos os orixás, como sempre o fazem, cubram-lhe de bençãos. Sou feliz por fazer parte da família Ibualamo. Sempre!!!

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    1. Ozmandias,

      Como sempre, muito obrigado pelas palavras... Realmente, as variações desse toque a depender do Orisa e da cantiga, passam desapercebidas pela grande maioria... Tudo que eu puder esclarecer, obviamente, restringindo-me a não publicação de “Awos”, desta feita não o toque, mas os mistérios que cercam nossa religião, o farei. Espero, sinceramente, estar contribuindo com a perpetuação da arte dos Atabaques.

      Abs.
      Vinicius

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  2. A sua bença meu velho...

    Bela postagem...

    Mas e quanto ao toque executado por Gamo da Paz no cd Odun Orin, Faixa Iroko...
    "zoe po so ma do bê..."

    É um toque destinado apenas àquele Òrìsà ?

    Abraços
    Afikodé

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    1. João Gabriel, Ògún nos abençõe, a benção.

      Olha que quando eu escrevi essa postagem, ainda pensei em falar sobre esse toque, no entanto não o fiz por um motivo. Todas as variações mencionadas na aludida postagem, são denominadas em Salvador de “Awo”. O toque do CD Odun Orin, executado como excelência por meu Tio Gamo, no Hunpi e no Hunlé são “Awo”, contudo o conjunto (com o Hun) é denominado de outra forma, razão pela qual não comentei nessa postagem e quiçá será mote de algum artigo. Mas sim, o toque é exclusivo de Iroko. Mas muito bem observado por você. Parabéns!!!

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  3. Entendi Pai, legal... Eu admiro muito o toque e nunca vi ninguém tocando igual... Todavia, não se vê Iroko em qualquer lugar, contumaz em São Paulo né ?

    Apesar de ter apenas 6 meses de iniciado, nunca vi ninguém executa-lo...

    Aguardo a postagem do Lagun ló...

    Abraços
    sua bença

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    1. É verdade, mais difícil que ver Iroko é ver as danças e toques deste Orisa sendo executados de forma correta. Que pena que você não teve a oportunidade de assistir as festas de Iroko no Ilé Ibualamo, sempre em 25 de janeiro. Em razão da morte do meu Pai, a casa está em luto, mas no futuro, será um prazer recebê-lo.

      Abs.
      Vinicius

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  4. Como sempre postando textos com muito ensinamento parabens sro Opotun.
    Mais gostaria que o sro podesse me esclarecer uma duvida, sei que o Awo de Sango,Osala e Osayin o Hun são completamente deferente, mais gostaria de saber se o Hunpi eo Hunle tambem são diferentes ou e o mesmo Awo so muda o Hun

    OBrigado pelo seu trabalho,de enriquecer a nossa cultura
    Meus Respeitos Jaime Narciso

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    1. Jaime Narciso, muito obrigado por sua pergunta. Quando as pessoas participam ativamente do Blog, realizando questionamentos, o trabalho com toda certeza fica mais rico... Muito obrigado mesmo, pela participação! Em relação a pergunta é que só há variações no HUN, o Hunpi e Hunlé são executados da mesma forma e sem mudanças (em SP é muito comum, por exemplo, mudar o toque do Awo na dobrada, algo que eu, particularmente não pratico).

      Abs.,
      Vinicius

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