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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Os Toques do Hunpi e HunLé São Todos Iguais?

É muito comum ouvirmos de grande parte dos Ogans, a seguinte máxima: “No Kétu, Hunpi e Hunlé são tocados da mesma forma”. Em suma, os mesmos Ogans completam dizendo: “No Angola que há diferença dos toques do Hunpi para o Hunlé, no Kétu não”. Há algum tempo estou querendo chamar atenção para essa importante e sutil diferença, que há entre o Hunpi e o Hunlé em muitos toques da tradição Kétu-Nàgó.

Em verdade, não podemos deixar de lado que, há casos, em que as frases musicais executadas no Hunpi e no Hunlé são exatamente as mesmas, como exemplo, cito o caso do Daró, Kitipo, Izo, Adahun, dentre outros. Entretanto, há toques em que a marcação é distinta, a depender do atabaque (Hunpi ou Hunlé). Nesse espaço mesmo, já comentei um desses casos, o Ijesa de Òsun, Òsàlá, Ògún, etc. Obviamente que não há verdade absoluta, há casas renomadas, de grande tradição musical dentro do Candomblé, em que as frases músicas, por exemplo, do Ijesa, são idênticas. Todavia, vou discorrer sobre aquilo que aprendi e que pratico.

Já comentei nesse Blog, que comecei a aprender a tocar atabaques com os discos do Vadinho, somente depois tive o privilégio de ter grandes Mestres para me auxiliar e orientar-me em relação as minhas inúmeras dúvidas. Ao ouvir os discos de Vadinho, sempre tive mais facilidade para “reproduzir” (ou ao menos tentar reproduzir) as frases músicas do Hun. Quando eu era criança, as pessoas diziam “Ele só quer tocar Hun”. Isso não era verdade, fato é que, ao ouvir os discos (na verdade velhas fitas), eu não conseguia compreender de forma clara as frases do Hunpi e do Hunlé e, mesmo sendo as frases do Hun muito mais complexas, eu conseguia entendê-las com maior clareza.

A dificuldade em compreender os toques do Hunpi e do Hunlé, devia-se em parte, a dois fatores: 1) Fita velha, somente depois de anos consegui os discos originais. 2) Eu não sabia que o Hunpi e o Hunlé estavam marcando diferente. Afinal, todos afirmavam que ambos marcavam da mesma forma. Assim sendo, eu tentava fazer em somente um atabaque (ou o Hunpi ou o Hunlé), aquilo que era proveniente do som de dois atabaques distintos (o Hunpi e o Hunlé). Aquilo me deixava bastante confuso, pois não me conformava em não conseguir reproduzir com exatidão, aquilo que eu acreditava estar ouvindo dos discos. Ao ouvir muitos Ogans tocando, eu observava e também não conseguia identificar no que eles faziam, o mesmo “swing” dos discos.

À época, eu escutava somente três gravações, a saber: “Seu Luís da Muriçoca”, “Candomblé Korin Nago” de Vadinho e “Cinqüentenário de Mãe Menininha” também de Vadinho. Eram gravações antigas e, por meio delas, não conseguia interpretar de forma exata a diferença entre o Hunpi e o Hunlé. No entanto, o mito de que os toques da tradição Kétu Nàgó, no Hunpi e no Hunlé eram idênticos, morreu quando consegui mais duas importantes gravações: “Candomblé – Documentos Sonoros Brasileiros” (tocado por Vadinho e cantado por Mãe Hilda) e “Baiafro”, tocado por Vadinho e, seu irmão Dudú.

As últimas faixas do disco “Candomblé – Documentos Sonoros Brasileiros”, são somente toques. Ao ouvir pela primeira vez, imediatamente consegui observar que havia algo de muito diferente no Agéré e no Ijesa. Nessa gravação, sem a interferência do coro e, bem mais lento que as gravações que eu possuía até então, eu conseguia enfim escutar a diferença entre o Hunpi e o Hunlé. Isso era mais evidente no disco “Baiafro”, ao passo que nessa, há somente o Hun e o Hunpi, evidenciando de forma muito clara as frases musicais do Hunpi. Naquele momento, surgiu um novo universo de estudo, era necessário entender que, diferente do que a maioria afirmava, havia sim diferença entre o Hunpi e o Hunlé para muitos toques.

Naquele momento, senti a sensação da Eureka de Arquimedes. Meu entusiasmo prolongou-se alguns dias, até conseguir compreender todas aquelas diferenças, mas terminou quando me dei conta de que, ainda havia outros toques que eu executava e que não tinham aquele “swing” dos discos. Aí surge então, a figura dos Mestres e Amigos, que muito me ensinaram e orientaram na minha jornada à busca do conhecimento dos toques do Candomblé.

Como exemplo, menciono nessa condição, os toques: Agabi (quando eu digo “AGABI”, estou me referindo ao toque que é executado de mãos nos três atabaques e não o Vassi que é executado de Agidavi), Jiká, Ijesa, Agéré, dentre outros. Hoje não vou postar gravações com exemplos, nem mencionar todos esses toques, desejo somente, motivar aqueles que se interessam em, da mesma forma que eu, estudar, estudar, estudar e, sobretudo, recorrer aos Mestres. Acredito que esse veículo de comunicação ajuda a esclarecer muitas dúvidas, entretanto, de modo algum, substitui o ensinamento dado pessoalmente, Lese Òrìsà pelo Mestre.

Com esse pequeno artigo, quero despertar um interesse maior ao estudo do Hunpi e do Hunlé, sendo que, se esses dois importantes atabaques não estiverem executando suas frases musicais de forma correta e plena, nem mesmo o maior dos maiores Alagbés, conseguirá desenvolver sua arte com excelência ao Hun.

É fundamental extinguir o preconceito no que tange os puxadores de Hunpi e de Hunlé, bem como os de Agogo. Esses instrumentos são de suma importância para a cadência rítmica do Candomblé. São tão importantes que, conforme me ensinou o Grande Maestro Gamo da Paz:

Vinicius, se existir quatro tocadores, você vai usar os três atabaques (Hun, Hunpi e Hunlé) e o Agogo, se tiver somente três trocadores, serão usados o Agogo, o Hunpi e o Hunlé. Se for somente dois tocadores, o Agogo e o Hunlé e, havendo apenas uma pessoa para tocar, somente o Agogo vai ser usado...”

Acho que isso ilustra bem, a importância desses instrumentos que, infelizmente hoje, estão sendo desprezados em razão da incessante busca pelo Hun. Bom, espero que uma vez mais, ter contribuindo um pouco para o entendimento e esclarecimento sobre os Tradicionais Toques do Candomblé Kétu-Nàgó.

Sem mais,
Opotun Vinicius

5 comentários:

  1. Mais uma vez seus textos esclarecem de forma magnifica,parabens mais uma vez pelo seu enteresse de fortalecer nossa Religião e nossa cultura e tbm por compartilha seu conhecimento.Pois tbm ouço muito o cd Odun Orin de Gamo da Paz e vejo o Dvd do grande Babalòrìsà Percio que seu Mestre esta presente(Robson)que Hun é esse...! e sei que Agueré o Hunpi eo Hunle se tocam diferente mais com a mesma armonia... gostaria de saber tbm quantos toque na Nação Ketu existem?


    Meus Respeitos:Jaime Narciso

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    Respostas
    1. Jaime Narciso,

      Obrigado pelas palavras, fico feliz que goste do nosso trabalho. Nem tudo posso colocar no blog, mas aquilo que posso eu compartilho sim. Esses dois são grandes mestres, Gamo e Robson, tenho grande privilégio de comungar da amizade deles. Sobre a quantidade de toques, veja a minha postagem nesse blog, sobre os toques de Candomblé, uma das primeiras. Abs. Vinicius.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Olá, Opotun! Nessa postagem podemos aquilatar a importância de seu trabalho. Em geral até mesmo nas grandes casas e tradicionalmente se diz que o Rumpi e o Lé tocam da mesma forma. Me lembro em minha infância que isso não era verdade e cheguei já a discutir com "alabês" bem conhecidos sobre isso. Na mãe África cada tambor faz uma voz e isso se perpetuou por aqui, mas está sendo gradativamente esquecido, assim como os códigos de invocação do Rum. Em breve colocarei em meu blogue uma postagem a respeito e espero que comente. Ayan Ire O!

    Obashanan

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  4. http://acervoayom.blogspot.com.br/2012/01/desvendando-os-misterios-do-rum-o.html

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