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terça-feira, 25 de setembro de 2012

Há algum tempo não escrevo...

Há algum tempo não escrevo...

Há algum tempo não escrevo, em verdade, faz muito tempo que não escrevo nesse blog. Hoje não vou discorrer sobre os grandes mestres dos atabaques, ou sobre os importantes toques da sacra música dos Òrìsàs, mas brevemente o farei, garanto. Hoje vou falar um pouco sobre o período de luto que estou vivendo em razão da morte física do meu Pai, que ocorreu há quase sete meses. Escrevo, também, por acreditar que de alguma forma, minhas palavras possam confortar alguém que já tenha passado pelo que estou passando e, eventualmente, preparar um pouco aqueles que, invariavelmente passarão por isso um dia.
Nesse período, deveras aprendi muito, chorei muito, me decepcionei muito e também, porque não, tive algumas poucas e gratas surpresas. Mas nesse período, sobretudo, aprendi que somos bons quando somos bons. Apesar da aparente superfluidade da fala, a redundância aqui é válida.

Num primeiro momento fiquei surpreso acerca da questão do luto em si. Muito embora a minha religião pregue a existência do luto, parece que eu e minha irmã estamos emergindo com algo novo na Sociedade Nàgó. Parece que estamos infringindo alguma convenção que dita que o luto não existe, desenhando-nos assim, como os vilões em meio as santidades daquilo que chamo de “o novo Candomblé”.

Numa religião em que antes de cultuarmos os nossos Deuses, devemos louvar e reverenciar a nossa ancestralidade, sou questionado a cada dia por guardar luto pela morte do meu Pai, uma verdadeira dicotomia candomblecista que me decepciona sobejamente, mas que em momento algum, me põe em dúvidas acerca das minhas convicções, sendo que elas são fundamentadas na tradição que acredito. Mesmo assim, me incomoda parecer mais um criminoso do que religioso, simplesmente pelo fato de estar sendo religioso (um contra-senso desmedido).

Por vezes, me pego pensando que a minha religião está sendo tão deturpada pela maioria que, quando a minoria faz algo que sempre existiu, essa minoria é dita como revolucionária rebelde.

Essa questão do luto é muito importante, mas não posso olvidar que, as regras que o cercam variam de casa para casa, nesse aspecto que pena que não há a figura do sumo sacerdote, mas todas as orientações devem ser respeitadas em suas casas, mas não impostas às outras... Dessa forma, na nossa casa, o Ilé Ibùalámo, aprendemos desde sempre que o luto é algo muito sério que deve ser guardado.

Exemplifico com a morte da minha querida avó Maria, Ìyálòrìsà do meu Pai. Quando ela faleceu, meu pai ficou um ano sem tocar Candomblé e sem ir à Candomblé, mais que isso, ficou três anos sem tocar para o santo da sua cabeça, nosso Pai Ibùalámo. Recordo-me que eu sempre dizia: “Pai, o senhor não vai fazer a festa de Ibùalámo esse ano”? Ele respondia: “você tem muito que aprender Vinicius, ele não quer festa, ele quer só o feijão fradinho nos pés dele”! Meu Pai todos os anos jogava e perguntava à Ibùalámo sobre a festa, mas ele não queria. Após três anos ele disse que sim! À época não compreendi muito bem, confesso, hoje, por outro lado, vi que ele estava somente cumprindo luto em razão da morte da mãe dele.

Logo o que digo e reafirmo é que vou sim guardar luto pela morte do meu Pai. O meu luto acabará no dia em que o luto da Sociedade Ilé Alákétu Asè Ibùalámo acabar, não significa necessariamente que seja quando o Àsèsè de um ano for arriado, isso significa que o meu luto findará quando a casa do homem que me criou, educou e me fez homem for reaberta. Alguns podem pensar, mas se a casa não for reaberta? Isso não ocorrerá, pois o Asè que minha avó plantou naquela casa é forte e multiplicador, ela será reaberta, pode ser após 1 ano, 2 ou 3, isso não importa, mas será quando o Òrìsà determinar e respeitamos a vontade do Òrìsà. Pois na Sociedade Ilé Alákétu Asè Ibùalámo, quem manda, ontem, hoje e sempre se chama Ibùalámo, ele é o chefe da casa e o respeitaremos sempre!

Cheguei a ouvir que, no dia em que “eu resolver” acabar com o meu luto, talvez não tenha mais espaço em SP para eu tocar atabaques, afinal, muitos Ogans bons estão emergindo a cada dia e se aperfeiçoando na arte dos atabaques, afinal quem irá descer para você (Vinicius) subir?

Sobre isso, o que penso é que, primeiro não sou Ogan, logo não luto por atabaque, sou Omo Òrìsà Adosu, o que é diferente! Segundo que nunca fui um exímio tocador. Sou sim uma pessoa que toca com a alma, que toca com o coração, que ainda chora ao tocar Agéré para Òsósòsì ao tocar Alujá para Sàngó. Isso me fez ser notado primeiro pelo Òrìsà e não pelas pessoas. Isso me fez ser reconhecido, não as passagens que executo ao Hun. Logo, pouco me importa a fala das pessoas. Isto posto, em nada me entristece se nunca mais eu poder tocar em nenhuma Casa de Candomblé de SP, pois sempre haverá uma, na rua Savério de Simone, 07, que sempre estará de portas abertas para poder ouvir o meu Agéré. Mais que conhecer os atabaques daquela casa, aquela casa conhece o meu atabaque, e para mim isso é, sem dúvidas, o que mais me importa. Mesmo que meu Pai não esteja fisicamente lá, Òsóòsì sempre irá ouvir a batida do meu coração pulsando quando eu estiver tocando o Agéré...

Eu e minha irmã somos alvejados por que muitos falam: “Eles estão fazendo o Àsèsè do próprio Pai, isso é um absurdo”! Outro recorrente engano. Primeiro nem eu e nem minha irmã fizemos nenhum Àsèsè do meu Pai, sequer eu toquei alguma cabaça em alguma obrigação. Mas meu Pai foi, em verdade, um homem muito sábio. Ele nos ensinou como queria suas obrigações e anteviu muito do que está acontecendo. Nós estamos sim, à frente da casa, mas não à frente da obrigação. Mas orientamos e instruímos aqueles que estão e, sempre será assim. No entanto, se houver um dia, que não tivermos ninguém ao nosso lado (algo que não vai ocorrer, pois Òsóòsì é Pai), não duvidem, honraremos a memória do nosso Pai, pois ele nos orientou para tal. No Ile Ibùalámo sempre será realizado aquilo que meu Pai pregou, simples assim!

Somos criticados até por não servimos bebida alcoólica nas obrigações. Sobre isso, acho que está mais do que na hora das pessoas se conscientizarem que Candomblé não é bar, mas sim religião! Àqueles que quiserem homenagear a memória do meu Pai, a casa estará sempre aberta, aqueles que quiserem “beber o defunto”, que vão ao bar e que fiquem por lá. Quiçá um dia, as Casas de Candomblé parem de servir bebida como em um open bar, assim teremos menos pessoas nas festas e mais religiosos de fé...

Aqui, peço sinceramente aos Babalòrìsàs e Ìyálòrìsàs, não furtem seus filhos do conhecimento. Acreditem, todos um dia vão morrer, dessa forma, nada melhor que cada um de vocês prepararem seus filhos e Omo Òrìsàs para o momento mais difícil de uma Casa de Candomblé, pois mesmo que eles sejam criticados e alvejados como eu e minha irmã estamos sendo pela maioria, eles estarão com o coração tranqüilo por estarem realizando tudo da forma como vocês queriam. Por isso, sou muito grato ao meu Pai por sempre ter orientado eu e minha irmã sobre o que ia acontecer! Orientem seus filhos, sou novo, muito novo, mas sei com propriedade do que estou falando...

Hoje digo, só não abandono o Candomblé pois talvez eu nunca tenha sido membro dele, sou sim, Aboorisa (Adorador de Orisa) e esse eu jamais vou abandonar, pois eles jamais vão me abandonar. Na hora em que mais preciso o Òrìsà sempre me escuta, sempre me apóia. E graças a educação e orientação que tive, sou grato ao Òrìsà por tudo que tenho e por tudo que ele me proporciona e sempre serei. Tudo que sou, tudo que tenho e tudo que vou ter, devo ao Òrìsà!

Um dia, ouvi a mais que sábia Mãe Bida dizer ao meu amado Pai Pércio: “Pércio, eu sou triste porque não tenho mais Mãe Menininha para pedir a benção, sou triste porque não tenho meu Pai Nezinho para me orientar, para me falar as coisas..”. Hoje eu compreendo aquelas palavras, pois também queria meu Pai Pércio para pedir a benção e ouvir dele o que sempre ouvi: “Meu filho, que Dada Omo Nisabi olhe por você, sempre”! Sou triste porque não tenho meu Pai José Carlos para me orientar, me reprovar e me mostrar a realidade da vida, como sempre fez.

A despeito disso, sou muito feliz também, porque foi diante da dor que mais conheci as pessoas e foi diante da dor que conheci pessoas de bem, que nos ajudam, orientam e confortam. Essas pessoas terão meu respeito e admiração hoje e até o momento do meu suspiro derradeiro, pois sei ser grato. Quando penso que tudo está acabado, me deparo com alguns exemplos que me fazem acreditar que ainda há solução. Mas isso, isso meu Pai sempre me disse, talvez tenha aprendido um pouco tarde.

Acho que nossa religião está precisando urgente passar por uma reflexão, retomar valores, repensar conceitos. Acho que as pessoas da nossa religião precisam olhar mais para o Òrìsà, para a terra e entender de fato o que é o Candomblé e qual o mote do Candomblé. A nossa religião possui sim uma filosofia, mas que precisa ser relembrada e ensinada.

Sempre vou acreditar no Ofá de Òsóòsì, o como dizia meu Pai Pércio, “nas pedrinhas”, “nas pedrinhas”... Mas as pessoas? Ainda acredito que o ser humano pode ser bom, acredito que ainda há pessoas em se confiar, que ainda há pessoas dispostas a ajudar, que ainda há pessoas que querem o bem das outras... Quem são elas? São aquelas que ainda acreditam no poder de um acaçá, só um acaçá!.

Sem mais,
Opotun Vinicius

3 comentários:

  1. Bem meu caro compadre Vinicius dentre suas palavras com exatidão e precisão tenho certeza que
    o Ilé Aşẹ Ibùalámọ não se abatera diante de tais coisa por que lá é regido por orixá vivo detre fé e tradição tenho plena certeza que o orixá sempre estará presente seja visto tudo isso que está no axé mesmo de luto todas as coisas estão fluindo através de trabalho e muita fé tenho plena convicção que em breve todos estaremos louvado orixá com festa e alegria por que no momento são homenagem tenho certeza que a iyá e você estarão prontos a receber os mesmo que hoje abrem suas bocas para desdenhar por que Ibùalámọ vive e vivera para sempre em sua casa lá abita o respeito hera quia e obediência ao orixá e nada é feito sem sua permissão quando houver a primeira hamuya o primeiro agéré em louvação ao orixá todos terão a certeza que tudo que se faz no axé é pelo orixá e ninguém melhor do os herdeiro do axé a frente e orientado como está sendo feito isso é obediência respeito viva sempre Ibùalámọ

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Suas palavras vão no fundo do coração de qualquer pessoa....
    É muito triste ver que hoje em dia as pessoas,estão mais preoculpadas com dinheiro, status e roupas, do que com os nossos Deuses, é muito triste ver o verdadeiro se acabando.. Mais felizmente existem pessoas, como o senhor, a Iyá Gabriela e a Ojubonã que são um exemplo de amor e fé.
    Acima dos fofoqueiros, está Orisá e Orisá sabe de tudo !!!
    Que a vontade do pai e de Ibualamo sempre seja feita, e é assim que somos mais fortes, respeitanto a vontade deles.
    Kolofé Opotun !

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