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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Uma Pessoa de um determinado Asè pode receber um título (Oye), em outra casa?

Assim foi a mensagem que recebi no meu e-mail, na qual um dos seguidores do meu Blog informou que é filho assíduo de uma casa, mas lhe foi outorgado um título honorífico (Oye) em outro Asè. Ele me narrou que após isso, ficou com receio de ir à sua casa, com medo da sua Ìyálòrìsà achar que ele havia traído a sua casa matriz.

Antes de tudo, quero agradecer o e-mail com a dúvida, pois me permitiu abordar um tema que, até então, não havia pensado discorrer. Só não vou mencionar o nome da pessoa, haja vista a mesma ter pedido que não o fizesse, embora não a conheça pessoalmente.

Essa prática é muito comum em Salvador e a meu ver é algo muito positivo para a edificação do Candomblé, pois estreita laços de amizade entre as pessoas e suas respectivas casas. Corrobora, ainda, para a formação do tão falado, mas pouco praticado “Ajo” (“união”).

Conjecturo que essa prática teve início no Ilé Asè Opo Afonjá, à época de Mãe Aninha. A célebre e visionária Ìyálòrìsà conferiu títulos para pessoas de outras casas (por exemplo, para alguns irmãos de santo seus, filhos do Ilé Ìyá Naso Oka) e títulos “não religiosos” para intelectos da sociedade baiana.

Afirmo visionária, pois os escolhidos por Mãe Aninha para receberem títulos (sejam religiosos ou não), tinham grande destaque na Bahia, contribuindo dessa forma, para o fortalecimento da sua casa recém-surgida em São Gonçalo, bem como, para a promoção da Religião dos Òrìsàs, propriamente dita. Fato é que, na história do Candomblé, talvez nenhuma Ìyálòrìsà fora tão politizada como Mãe Aninha.


Com uma sagacidade ímpar, Mãe Aninha conferia postos não religiosos aos intelectuais baianos e estrangeiros que por lá residiam, dando-lhes certa notoriedade em meio às comunidades-terreiro, entretanto, não lhes facultando nenhuma atividade religiosa. A despeito disso, gerava o vínculo que levaria à sociedade a palavra dos Òrìsàs, talvez fosse esse o seu mote principal. Aos filhos de santo de outros terreiros (como o já mencionado exemplo da Casa Branca), outorgava títulos religiosos, com funções e graus hierárquicos distintos, a depender da confiança.

Assim, podemos afirmar que a prática é fundamenta na tradição do Candomblé Baiano, pois há amplo registro documentado e oral sobre o tema. No entanto, a decisão de outorgar um título honorífico para uma pessoa deve ser muito bem pensada. Essa decisão, em verdade, implica em varias reflexões, sobretudo quando o escolhido para receber essa honra, é membro de outro Asè. Todo um cuidado deve ser tomado, pois a decisão deve ser inequívoca.

Caso a concessão do título não ocorra de forma muito transparente e com sapiência por parte do Sacerdote, aquilo que tinha como objetivo homenagear uma pessoa e estreitar laços, poderá acarretar em constrangimento e mesmo em uma desavença entre casas.

A transparência é necessária, pois o Sacerdote que vai outorgar o título a alguém de outra casa, deverá antes conversar com o Babalòrìsà/Ìyálòrìsà daquela pessoa, explicando, por exemplo, que deseja conceder ao seu filho um título, pois ele é muito amigo e querido da sua casa, sem nenhum intento de “roubar-lhe”. Isso mostra cavalheirismo e ética religiosa.

Apesar da angustia da pessoa que me escreveu estar relacionada a sua Ìyálòrìsà e sua Casa de Asè (aqui, fortemente motivada pela falta de transparência de quem lhe deu o posto), acho que o mais sensível é, na verdade, o relacionamento daqui em diante com a casa que ele recebeu o título. Por isso falei que é necessária sapiência da pessoa que está outorgando o título, vejamos.

Quando um Sacerdote resolve conceder um título em sua casa, para uma pessoa de outro Asè, ele de certo modo está preterindo alguém de sua casa e aqui está o problema.

A intenção da homenagem é quase sempre salutar, no entanto, o Sacerdote precisa ter plena certeza que essa sua ação não causará um desconforto com os filhos da casa e, principalmente, dos filhos da casa com a pessoa que receberá o posto. Explico.

Em suma, uma pessoa recebe um título em outro Terreiro, por ser querido nesse Asè. Na grande maioria das vezes, a pessoa além de ser querida pelo Babalòrìsà/Ìyálòrìsà é também querida pelos filhos daquela casa, possuindo fortes vínculos de amizade. Mas, o que o Sacerdote não pode olvidar é que, por vezes, o título poderia ser dado a uma dessas pessoas e quando isso não ocorre, invariavelmente, as pessoas da casa (ainda que gostem do recém-intitulado), podem iniciar os questionamentos:

“Ele é uma boa pessoa, meu amigo, mas será que não tinha ninguém aqui em casa para receber esse posto? Nossa tanta gente velha de santo aqui dentro, que não tem posto nenhum, mas para os de fora ele (ela) sabe dar? Que absurdo!”

Pronto, a pessoa que até então era querida e amada, passa a ser o alvo das discussões, das chamadas “rodinhas”. Dessa forma, surgem os problemas decorrentes do posto. A saber:
 

- Àqueles que gostavam da pessoa que recebeu o posto, passam a lhe tratar com desprezo;

 
- O Sacerdote ganha mais um problema interno, tendo que gastar sua habilidade para tentar resolver as “picuinhas”;

 
- Desprezado e se sentido como um peixe fora d’água, a pessoa que recebeu o título, deixa de frequentar a casa que foi amigo por anos, fazendo com que o título não seja exercido. Desse modo, de nada adiantou o posto.

 
Entretanto, quando o processo é realizado de forma clara, transparente, coerente e com ética, aquela pessoa passa a ter um papel importante na formação daquele Terreiro e o Terreiro passa a ter um importante papel na formação daquela pessoa.
 

Existem muitos casos, amplamente conhecidos em Salvador, de pessoas de um determinado Asè terem recebido algum título em outra casa e, contribuir para o sucesso desta, sem momento algum, deixar sua missão e vínculo com a casa a qual é iniciado/faz parte.
 

Tanto na casa do meu Pai, o Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo, como na casa do meu Babalòrìsà, Pai Pércio de Airá, existem casos como os relatados acima, em que pessoas de outros Asè receberam posto, sem que isso afetasse em nada a convivência, seja com os filhos da casa, seja com a casa a qual a pessoa faz parte.

Há sim títulos que não podem ser conferidos às pessoas de outras casas, há um grande número de Oye que só podem ser entregues aos filhos da casa, às pessoas que são de dentro daquele Asè. Não sei qual posto a pessoa de mensagem recebeu, mas só nesse caso havia com o que o se preocupar.
 

Sem mais,
Opotun Vinicius

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Atabaque, por Amor ou Dinheiro? A cobrança de Valores para Tocar/Cantar um Candomblé!

Desde que iniciei as postagens nesse blog, recebo e-mails (opotun@hotmail.com), pedindo para abordar esse tema. Muitas dessas mensagens me pareceram ter como objetivo impulsionador, não as possíveis dúvidas de quem as escrevia, mas sim, o intento em gerar uma quase que inevitável polêmica acerca da questão. Em miúdos, àqueles que não possuem coragem de falar, preferem sugerir esse tipo de tema para alguém que tenha. Confesso que relutei um pouco, sendo que o assunto em questão é verdadeiramente polêmico, no entanto, vez que resolvi escrever um blog que resumidamente aborda tópicos sobre Ògáns e Atabaques, em algum momento teria que discorrer sobre o assunto em título.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Alagbé - O Maestro da Sacra Música do Candomblé

Alagbé,

Inicialmente agradeço as mensagens que recebi no meu e-mail (opotun@hotmail.com), pedindo que eu voltasse a discorrer nesse espaço. Sobre isso, esclareço que jamais tive a intenção de parar, contudo, o tempo cada vez mais escasso, não me permite escrever na periodicidade esperada. Assim, não poderia deixar de agradecer pelo carinho, atenção e compreensão de todos. Espero sempre poder estar à altura das expectativas das pessoas que leem esse blog, bem como, contribuir ainda que de forma singela, com a fomentação e disseminação da religião da qual sou partícipe, o Candomblé.