Pesquise no Meu Blog

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Alagbé - O Maestro da Sacra Música do Candomblé

Alagbé,

Inicialmente agradeço as mensagens que recebi no meu e-mail (opotun@hotmail.com), pedindo que eu voltasse a discorrer nesse espaço. Sobre isso, esclareço que jamais tive a intenção de parar, contudo, o tempo cada vez mais escasso, não me permite escrever na periodicidade esperada. Assim, não poderia deixar de agradecer pelo carinho, atenção e compreensão de todos. Espero sempre poder estar à altura das expectativas das pessoas que leem esse blog, bem como, contribuir ainda que de forma singela, com a fomentação e disseminação da religião da qual sou partícipe, o Candomblé.

Hoje vou abordar sobre um dos títulos mais emblemáticos e importantes nos Terreiros de Candomblé, que é outorgado ao Ogan que exercerá o papel de Supremo Maestro dos Atabaques, o Alagbé. Os Ogans da Bahia, que carregam em sua herança ancestral, uma forte e pujante cultura concernente à música, sonham desde muito cedo em alcançar esse título, que em verdade, ocupa um grande lugar de destaque em Salvador.

Afirmo Salvador/Bahia, não por bairrismo, sobretudo por não ser baiano, ainda que minha cultura e pais sejam. Afirmo Bahia, pois não vejo em outros lugares uma cultura tão arraigada no que tange a esse título, como ocorre na Santa Terra em que nasceu o Candomblé e pela qual tenho especial carinho.

Ao longo do texto, creio que vou conseguir justificar essa disparidade de conceitos. Antes disso, vou dar a minha visão sobre o título, que para muitos estudiosos, na sua raiz lexiológica, não condiz com o exercício do cargo, como é praticado no Brasil. Para esses estudiosos, Alagbé é o tocador de Agbé (cabaça) e ponto final. Em verdade, na acepção Ipsis Litteris do termo, realmente Alagbé seria o Tocador de Cabaças (Agbé). Mas se nós usamos atabaques, tocamos atabaques, porque o Maestro dos Atabaques é chamado de Alagbé e não Olubata ou Onilu, a exemplo de como ocorre na terra madre da nossa cultura, a África?

Para mim, isso é muito claro. À época do advento do Candomblé na Bahia, nossos antepassados cultuavam os nossos Òrìsàs às escondidas, ao passo que a nossa Religião era tida e julgada como contravenção. Diferente da África, terra em que o Culto ao Òrìsà nasceu, não podíamos exaltar os nossos Deuses por meio dos atabaques, pois o som que os mesmos produziam, invariavelmente, alarmavam que naquele lugar, um grupo de negros se reuniam para a “baderna”. Vale ressaltar ainda que, nessas regiões, desprovidas de edificações robustas e em escala, o som dos atabaques ecoava por grandes distâncias, fazendo com que esses Africanos fossem facilmente localizados e, por consequência presos.

Dessa forma, na incontinênti busca da preservação dos seus costumes, eles não deixaram de louvar os Deuses com a música, algo intrínseco das culturas africanas, no entanto, abdicaram-se dos atabaques utilizando-se de cabaças, que alcançavam o mesmo objetivo, qual seja; “atingir o sagrado por meio da música”, entretanto, sem causar alarde à polícia.

Assim, na minha percepção, nasceram os “Alagbés”, ou seja, os Tocadores de Cabaça, perdurando o nome até os dias de hoje. Aqui, há quem possa dizer que Agbé é o instrumento feito a partir de cabaça e envolto de sementes, búzios ou contas e sendo assim, Alagbé é o tocador desse instrumento e que partindo desse princípio, o tocador de cabaças deveria se chamar “Alagbá” (fazendo alusão a Igbá – cabaça) e não Alagbé.

Um raciocínio bastante perspicaz, mas que particularmente eu discordo. Bom, sobre isso, desta feita valho-me da etimologia yorùbá respeitante a classificação linguística de sua flora. Os frutos da cabaça, em yorùbá, recebem diversos nomes, a depender do seu formato e tamanho. Há por exemplo, aquelas pequenas cabaças que usamos para as vestimentas de Obaluwaiye/Osumare/Osanyin, etc. Esses frutos são chamados de “Ado”. Há aquelas cabaças em formato de sopeiras, utilizadas para assentamento de Òrìsàs, que por sua vez, são chamadas de Ìgbá. Há, também, as cabaças com um formato mais apropriado para a música, que são chamadas de Agbé (independente de estar ou não envolta por algo). Lembrando que essa é a minha visão sobre o surgimento desse título para os Maestros dos Atabaques, mas que em nenhum momento, tem como objetivo ser uma verdade absoluta.

Mas Alagbé não é somente o responsável pelos atabaques (o que salvo melhor juízo já seria muito, haja vista a importância desses instrumentos no Candomblé). Alagbé é também, o Ogan responsável pelos cânticos e condução da festa pública. Cabe ao Alagbé, saber a sequência de cânticos para todas as festas, saber quais podem ser entoados em determinadas ocasiões e quais não podem, quais que enaltecem os Deuses, quais são utilizados para trazer à terra determinado Òrìsà, etc.

Mais que Maestro dos Atabaques, o Alagbé é o Maestro da Sacra Música do Candomblé. É responsabilidade do Alagbé cuidar e preservar os instrumentos do Terreiro. Também cabe ao Alagbé, a responsabilidade de sacralizar os atabaques e agogô, de modo que o som dos mesmos consiga transcender o mundo em que vivemos, para chegar até o sobrenatural, comunicando-se com os Òrìsàs. Esses são somente alguns dos fatores que mexem com o imaginário do Ogan, fazendo aflorar o seu desejo em um dia, tornar-se um Alagbé de uma casa.

Esse desejo é reforçado pelo fato de muitos dos grandes nomes do Candomblé da Bahia, serem justamente Alagbés. Só para citar alguns, exemplifico com os lendários Cipriano e Jorge (ambos Alagbés do Terreiro da Casa Branca), que possuem os nomes cravados na história do Candomblé, não somente pela arte musical, mas pela postura religiosa apreciada pela maioria. Impossível não mencionar o célebre Manuel Alagbé, do Terreiro de Òsùmàrè, conhecido, sobretudo, por sua versatilidade musical diante das cabaças, em obrigações fúnebres. E, por fim, aquele que, provavelmente mesmo depois de falecido, é tido como o maior dentre todos os Alagbés, o mais que virtuoso Vadinho Boca de Ferramenta.

Isso corrobora o início da minha postagem, em que falo que a figura do Alagbé é muito mais arraigada na Bahia, sobretudo quando comparado a São Paulo. Afinal, todos querem ocupar o lugar que um dia foi desses grandes nomes e, infelizmente, não temos aqui no sudeste, exemplos como esses para nos espelhar. Temo sim, grandes e exímios tocadores e cantores de Candomblé nos quais devemos nos espelhar, mas não que sejam Alagbé de título, conforme dita o Candomblé da Bahia. Em São Paulo, por exemplo, quando pensamos em Alagbé, logo nos vêm à mente o nome do meu irmão de santo, Ogan Paulinho de Ògún, que é referência para a grande maioria dos Ogans de SP, no entanto, apesar de muitos acreditarem que ele seja Alagbé, em verdade ele é Balogun. Desse modo, o “Alagbé” mais conhecido na nossa cidade é Balogun. Eu mesmo, até pouco tempo atrás, podia jurar que ele era Alagbé (pois  ele sempre foi chamado dessa forma), mas depois ele me explicou que não recebeu esse título, mas que, como fazia muitos Candomblé, as pessoas o chamavam assim.

A confirmação do Alagbé é algo muito especial e mágico. O Alagbé quando confirmado é honrosamente aclamado por meios de cânticos específicos para o seu título. Mais do que uma faixa com um nome em yorùbá, ele é verdadeiramente consagrado Alagbé e, posteriormente, respeitado pela comunidade a qual faz parte.  Há casas, que o Alagbé antigo, antevendo a sua morte, inicia a preparação do substituto de modo que o seu legado não seja findado.

Mas, além disso, há outro fator que justifica essa cultura ser mais disseminada na Bahia do que em São Paulo. Na Bahia, a cultura dos antigos Terreiros, reza que o Candomblé é tocado e cantado pelo Alagbé. Ou seja, a condução da festa, em sua grande totalidade, é realizada por essa figura emblemática, sendo que em alguns momentos (os de maior fundamento), são liderados pelas Ìyálòrìsàs/Babalòrìsàs. Em contrapartida, em São Paulo, a cultura do Candomblé é inversa, sendo que as festas públicas, em sua totalidade, são cantadas pelos Sacerdotes, ficando ao Ogan, a responsabilidade de tocar.

A formação de um verdadeiro Alagbé leva anos, pois ele deverá conhecer todos os toques e suas variações, bem como, milhares de cânticos para todas as Divindades do nosso panteão. O Alagbé é uma pessoa muito próxima da Ìyálòrìsà/Babalòrìsà e de sua confiança, pois será ao Alagbé que o Sacerdote confiará as palavras mágicas que quando entoadas, terão o poder de evocar as diversas personalidades dos Deuses, sejam elas positivas, sejam negativas. Resumidamente, o Alagbé é uma das pessoas masculinas, mais importante dentro de um Terreiro.

Lembro de meu Tio Erenilton, Elemoso da Casa de Òsùmàrè, mas nomeado pelo povo, o Alagbé do Brasil, que com saudosismo dizia para mim, para seu filho Ney e meu irmão Christiano, em Salvador: “Tá vendo essas cantigas de Alagbé? Isso é coisa das antigas.... Hoje o povo dá posto de Alagbé e nem canta as cantigas do Alagbé... E o Alagbé, que nem sabe a cantiga que recebe outro Alagbé”. Lembrando desse dia, resolvi hoje escrever sobre esse título, torcendo para que essa cultura não morra, não se acabe...

Por fim, é importante destacar, no entanto que, quando alguém está ao Atabaque, louvando e evocando os Òrìsàs, ele naquele momento é também um Alagbé. Naquele momento único e especial, ele está aproximando o profano do sagrado. Ele está se comunicando com os Òrìsàs que, por meio de suas danças, respondem formando um diálogo excelso. Mas isso, é reservado somente àqueles que conseguem por meio do atabaque, amplificar a pulsação do coração, despertando a atenção do Òrìsà.

Abaixo, segue um vídeo que tive o prazer de gravar ao lado dos Ogans/Alagbés do Terreiro de Òsùmàrè, que fala sobre o tema em título.

Sem Mais,
Opotun Vinicius


6 comentários:

  1. MAIS UMA VEZ O SENHOR ESTÁ DE PARABÉNS PAI VINICIUS.
    EU, FERNANDO FARGIORGIO, INICIADO PARA SERVIR O ORISÁ AYRÁ, RECEBI O CARGO DE ALAGBÉ PELO OSÀLÁ DE MINHA IYÀLÓRISÁ.
    E AOS POUCOS ESTOU EM BUSCA DO APRENDIZADO PARA LOUVAR NOSSOS ANTEPASSADOS COM PERFEIÇÃO, TENDO EM VISTA AJUDA DE GRANDES MESTRES COMO MESTRE ROBSON, SEU ALUNO OGAN BUDA, E OGAN DOUGLAS DE OGUN (PAI TONINHO DE XANGÔ), E CLARO, COM TODAS SUAS POSTAGENS NESSE BLOG.
    UM GRANDE ABRAÇO!!
    OGAN FERNANDO FARGIORGIO - ALAGBÉ DO ASÉ ARAKÉ OBÀLUFÁN.

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Primeramente fico feliz de saber que voltou a escreve,agora o blog que mais gosto de acompanhar esta em atividade de novo.E mais uma vez um belo texto apresentados para nos.E falando em alagbes e ogans ontem fui numa festa de Osum em SP aonde eu conheçi ogan Bunda osaguian pessoa do bem,nao so ele mais como todos os ogans presente gostei muito de conheçer a casa e todos dela.Eu vi o mesmo respeito e carinho que foi me ensinado pela minha familia de Ase ali naquela casa de Ase.Vi ele louvando vibrando adorei essa experiência nao vou mais esqueçer sou do litoral de SP e vi o mesmo louvor ao ORISA ali eu vi que todos tem a mesma missão.

    Obrigado por Voltar ;) forte abraço

    ResponderExcluir
  4. Olá Vinicius. Belíssimo texto. Sobre os alabês, aqui vai minha contribuição: http://acervoayom.blogspot.com.br/2010/08/notas-sobre-ayom-iii-quem-sao-os-alabes.html

    ResponderExcluir