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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Atabaque, por Amor ou Dinheiro? A cobrança de Valores para Tocar/Cantar um Candomblé!

Desde que iniciei as postagens nesse blog, recebo e-mails (opotun@hotmail.com), pedindo para abordar esse tema. Muitas dessas mensagens me pareceram ter como objetivo impulsionador, não as possíveis dúvidas de quem as escrevia, mas sim, o intento em gerar uma quase que inevitável polêmica acerca da questão. Em miúdos, àqueles que não possuem coragem de falar, preferem sugerir esse tipo de tema para alguém que tenha. Confesso que relutei um pouco, sendo que o assunto em questão é verdadeiramente polêmico, no entanto, vez que resolvi escrever um blog que resumidamente aborda tópicos sobre Ògáns e Atabaques, em algum momento teria que discorrer sobre o assunto em título.

Existem duas opiniões que, invariavelmente se chocam quando falamos sobre a cobrança de valores por Ògáns, para que os mesmos toquem em uma Casa de Candomblé. A primeira, refere-se às pessoas que discordam, versando ser inadmissível um Ògán cobrar para tocar. A segunda, geralmente a do grupo dos Ògáns, é justamente oposta, discursando que Ògán não pode tocar sem receber para tal. Refleti bastante sobre o tema, buscando entender como surgiu esse “comercio” relacionado à Música Sacra do Candomblé e, cheguei a dois possíveis impulsionadores para isso. A saber:

- Babalòrìsàs/Ìyálòrìsàs;
- Candomblé (A Própria Religião)

Vou iniciar o meu raciocínio pela ordem mencionada. Quando digo que os Babalòrìsàs/Ìyálòrìsàs, foram os motivadores desse comércio desenfreado, justifico: Afinal, quem contrata os Ògáns? Por diversas vezes eu fui abordado por Sacerdotes que me perguntavam:

“Vinicius, quanto você cobra para fazer o meu Candomblé”?

A primeira vez que recebi o convite para fazer um Candomblé, eu tinha 14 anos de idade. Eu havia acabado de cantar o Sire no Ilé Alákétu Asè Airá - Batistini (primeira vez que havia cantado lá), quando um Babalòrìsà foi até mim e perguntou:

“Quanto você cobra para fazer a minha festa”?

Meu Pai, o saudoso Babalòrìsà José Carlos de Ibùalámo, logo disse ao referido Babalòrìsà que eu não fazia Candomblé pra fora. Além do Sire, pouco sabia de cânticos e toques, não havia a menor possibilidade de eu cantar um Candomblé do início ao fim. Embora eu não soubesse quase nada, os convites aumentavam no transcorrer daquele ano. Mas meu Pai não gostava que eu fosse à Candomblé de pessoas que ele não conhecesse e que não fossem amigas dele. Se não fosse por isso, seria difícil resistir a tantos convites, nos quais eu ganharia financeiramente para fazer algo que sempre fiz por prazer.

Dessa forma, quem despertou em mim, a possibilidade de ganhar dinheiro com o atabaque/cânticos, foram os Babalòrìsàs (contratantes). Mas como disse, meu Pai me barrava desse comércio religioso, “liberando-me” somente para acompanhá-lo em festas dos seus filhos de santo, para acompanhar meu Pai Pércio em festas que ele fazia e, em algumas casas de pessoas amigas. Geralmente, quem “planta” no Ògán a possibilidade de ganho financeiro por meio do Atabaque são os Babalòrìsàs.

Ainda sobre esse aspecto impulsionador (Babalòrìsàs/Ìyálòrìsàs) é preciso recordar algo. Cada vez mais, observamos que o Candomblé está deixando de ser uma religião de religiosos, para ser uma religião de comerciantes (não adianta tapar o sol com a peneira – isso é a mais pura verdade, infelizmente). Hoje, o Ògán pensa da seguinte forma: “O Babalòrìsà/Ìyálòrìsà cobra R$ 2.000,00 em um Ebó, R$ 4.000,00 em um Borí, entre R$ 7.000,00 e 21.000,00 para uma iniciação/obrigação, porque eu não posso cobrar R$ 500,00/R$ 1.000,00 para tocar o Candomblé dele”? Há então, um jogo de ganha-ganha, no qual ninguém quer perder. Aqui, em verdade o comércio tão somente desceu a estrutura hierárquica, nada mais que isso. Ademais, é salutar destacar que, se o Ògán está recebendo para tocar, é porque ele foi contratado por alguém, ou seja, o Babalòrìsà ou Ìyálòrìsà. Pelo menos, nunca fiquei sabendo que um Ògán obrigou um Babalòrìsà/Ìyálòrìsà a contratá-lo.

Mas, nesse processo de comércio, ambos perdem. Vejamos. Um corpo de Ògáns contribui para o processo de formação da tradição/história de uma casa. No entanto, quando um Babalòrìsà contrata um time de Ògáns, a casa dele está perdendo a oportunidade da formação da sua identidade religiosa, sendo que ele, sempre estará fadado à tradição do Ògán contratado que, pode não ser a mesma que a sua (na verdade, quase sempre não é). O Ògán também perde, sendo que, eventualmente, ele terá que fazer algo que não queira, mas não há como reclamar, pois ele não é Ògán daquela casa, mas sim um profissional executando o seu papel.

Mas além do fator Babalòrìsà/íyálòrìsà, falei que também há o fator “Candomblé”. Sobre isso, recordei de uma tradição do Candomblé, em que os Òrìsàs saiam recolhendo dinheiro e, posteriormente, jogavam aos pés dos atabaques, para os Ògáns (para mim, esse insight foi como a Eureca de Arquimédes). Hoje isso não ocorre com tamanha frequência, mas isso foi muito comum em tempos não distantes e, apesar de tradição, não podemos olvidar, corroborou com o despertar dos Ògáns pelo dinheiro, afinal, se até os Òrìsàs reconheciam o seu mérito, por que não cobrar dos seres humanos?

Nessa época, esse dinheiro era dividido entre todos os Ògáns que haviam tocado. Mas aqui, vale um destaque. Esse dinheiro não era a condição sine que non para que os Ògáns tocassem, era nada mais que, algo realizado em algumas festas, em alguns momentos, por alguns Òrìsàs. Não ocorria em todas as festas, logo, não havia como aqueles Ògáns (visitantes) saber se ganhariam algo naquela noite. Os Ògáns iam àquela festa por amor ao Òrìsà, por amor ao Atabaque e, as vezes, era presenteado com esse “mimo”.

Seguindo esse raciocínio, há quem possa afirmar que então hoje, os Ògáns que cobram para tocar, não possuem Amor pelo Òrìsà, não possuem Amor pelo Atabaque? Na verdade, eu acho que eles possuem sim amor pelo Òrìsà e pelo Atabaque. Afinal, eles não entraram no Candomblé para se profissionalizar por meio do atabaque. Contudo, não penso que eles façam todas as festas com esse amor e carinho, pois ele pode até estar fazendo a festa de alguém que ele não gosta, de que ele não comungue das mesmas ideias. Nesse caso, embora ele acredite no Òrìsà, embora ele tenha amor pelo Òrìsà, ele não vai se entregar de corpo e alma. Nesses casos ele está sendo somente profissional...

Não acho errado que um Ògán receba para fazer a festa de uma pessoa. Isso sempre existiu!!! Afinal, ninguém é obrigado a fazer festa na casa de ninguém. Não posso escrever que isso é algo que surgiu há pouco tempo ou que surgiu em SP. Se eu escrevesse isso eu estaria sendo leviano e mentiroso. Não obstante, não posso falar que comungo da ideia da profissionalização do corpo de Ògáns.

Sem mais,
Opotun Vinicius

7 comentários:

  1. Texto digno de aplausos. Miseravelmente, é o que presenciamos na maioria das vezes. Em muitas das vezes, as oferendas (ebo), iniciação ou Rito de Tempo de Santo, são pagos, e quando são cobrados, são valores, concernentes a manutenção de quem está de preceitos, bem como, dos demais que vão participarem dos ritos. Abraços respeitosos.

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  3. boa tarde motumba eu acho que nao é uma questao de amor e sim que hoje em dia as coisas mudaram muito concordo plenamente com todo o texto dito por vc acima mas tambem concordo que hoje todos trabalhao e na verdade os ogans dependendo do candomble da distancia acaba sendo um gasto e nao sao só os ogans que cobra hoje tudo tem q se ver o bolso mas tenho certeza que na casa de asé de cada um se toca com amor e carinho é orisa entende o amor de cada um vejo as vezes um ogan tocando mas mesmo que estaja sendo pago ele toca com amor se emociona com orisa e isso é valido asé

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  6. Concordo em partes com a coléga acima e comungo muitissimo da ideia de Opotun. Eu e minha infinita ignorância , ainda mais no meio candomblé, creio quee orixá não precisa de nada mais que fé e amor para com sua existência. De fato, os temoos são outros. Porém, tomando como exemplo minha própria família, não redo pé da importância que os ogans e outras funções tenham dentro do funcionalismo todo. Quero dizer que, cresci vendo aquele lance de se fazer vaquinha ou dar ajuda a tds dentro da casa, não por obrigação, mas por irmandade mesmo. Tenho muuuuita saudade, de quando olhava para tudo aquilo com uma enorme inocência, crendo que a fora também deveria sr assim. Pois bem , a gente cresce, as coisas mudam, e então vemos que santo de casa é o que faz milagre. Lembro-me bem de passar horas conversando com um oganzinho que tinha a minha idade, uns 9 anos, vindo do RJ, td arrumadinho no social, seguindo os dois adultos no mesmo naipe tanto cantando quanto tocando. Não estavam lá por ganhos, mas minha tia fez questão de dar "algum" para eles. A empáfia dos caras ao atabaque hoje, a briga pra vr quem quebra mais aguidavi ou berra mais ao microfone, ta uma coisa um negócio desesperador!!! Será que eo orixá vem em terra dar a honra de um ser humano sustentar x ou y função em nome do sagrado, para vê-lo corromper-se a tal ponto? Não serei prolixa. termino por aqui dando graças à formação dada por seu Zé Carlos à Vinicius. Pois quem cuida em ter pra sí, emprestado não pede! A bênção.

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  7. Caro vinicius . Sou filho do ogan de minha casa de umbanda co traços de angola e herdei o dom dele. Desde pequeno ficava olhando direto para o atabaque durante as festas tendando adivinhar em que parte do atabaque ele conseguia tirar um som especifico. fora quando não estava sentado no pé do mesmo tenanto imitar meu pai. Não sabia que naquela epoca ja estava difinindo minha vocação dentro da lei.hoje me preparo para me confirmar como ogan . Meio que tardio pois era muito timido . Em uma ocasião a zeladora( minha tia material e madrinha espiritual) me pediu para tocar em uma festa ja que meu pai estava trabalhando (nossa casa só tem um atabaque) e não existia outro ogan na casa ,somente meu pai. Eu na mesma hora congelei , pois o que eu sabia tocar era em paredes, madeira de moveis etc... Nunca tinha enconstado um dedo no couro, e sabia que não ia dar muito certo . Era muito novo e corri para fora do terreiro. Não tinha ideia da responsabilidade de um ogan . Hoje meu pai quase não toca mais ,por conta de uma fratura no pulso que teve que fazer varias operações e devido a isso perdeu alguns movimentos ( teve que colocar platina) o pouco que sei hoje é graças a quase doentia atração pelo som que saia daquele ser. Não conseguia prestar a atenção na gira, somente no atabaque . Sei que nosso rito e completamente diferente das casas de nação , mas todo cuidado cpm o atabaque cabe a mim. Esse texto foi só para mostrar minha trajetoria como futuro agan. O atual atabaque de minha casa foi comprado por mim e lendo seu blog vi que o você comentando sobre um tipo de atabaque afinado por birro. Procurei em todos os lugare sobre o mesmo e nada encontrei. Gostaria de ter mais informações sobre o mesmo( como produzir, afinar , qual.o melhor material etc.) . E uma duvida . Qualquer ogan de uma casa pode tocar o run ou é uma qualidade do mesmo?

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