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terça-feira, 22 de outubro de 2013

Escrevemos a História – A Perpetuação do Ilé Ibùalámo – Candomblé de Família!

 
Não existem palavras que consigam expressar o que vivenciei no último dia 19 e 20 de Outubro. Antes de tudo, agradeço de coração as centenas de pessoas que se locomoveram rumo ao Ilé Ibùalámo, para conosco louvar o Patrono da nossa Casa e prestigiar a assunção da minha irmã, Ìyá Gabriela ao trono. Agradeço, outrossim, o empenho, dedicação e fé intangível de cada Omo Òrìsà – sem vocês, nada seria possível.
 
A cerimônia pública que marcou a continuidade do Ilé Ibùalámo foi a conclusão de um ciclo que teve início na partida do meu Pai José Carlos para o Orùn. Conforme apregoa os nossos costumes, todas as obrigações fúnebres foram realizadas. Nesse período, guardamos luto de forma séria e responsável, nos privamos de tudo – confesso foi árduo.  Depois de concluída essa dura e dolorosa etapa, o dono da casa, nosso Pai Ibùalámo fora consultado por meio de uma cerimônia específica, com o objetivo de saber sua vontade acerca do destino da nossa comunidade – seu desejo? Minha irmã, Ìyá Gabriela Santana é a nova Ìyálòrìsà do Terreiro de Ibùalámo.
 
Isto posto, foi decidido que aos dezenove dias do mês de outubro de 2013, a casa abriria novamente as suas portas para louvar o seu patrono – o tradicional Sire Faraimora. Foi decidido ainda que, aos vinte dias de outubro – data da fundação do Terreiro e Odun religioso do nosso Pai José Carlos, seria realizada a festa de Òsun a esposa de Ibùalámo – assim aconteceu no último final de semana nesta terra da garoa, que cessou o frio e chuvas, para fazer brilhar o Ofá na Sociedade Ilé Alákétu Asè Ibùalámo.
 
Foi um mês de muitas funções, muitas cerimônias, muitos rituais para que tudo ocorresse em plena harmonia. Rendemos homenagens aos nossos ancestrais e solicitamos a eles a autorização para realizar todas as festividades. A Èsù Alákétu, o rei de Kétu, pedimos que tudo ocorresse em plena harmonia. Cuidamos de nossos Ori, pois somente é possível cuidar dos Òrìsàs se o nosso Orì estiver alimentado e, por fim, realizamos as obrigações (Oro) de Ibùalámo e Òsun. O Asè foi novamente revitalizado, renovado e multiplicado. Em nossos corpos, o poder do Batenté revigorou-nos para que pudéssemos seguir adiante, mesmo sem a presença física do eterno líder da nossa comunidade.
 
Cuidamos daqueles que cuidam da porteira da nossa casa, ofertamos a Ona, Ògún e Ìyá, pedindo-lhes que permitissem entrar naquela casa, somente àqueles que estivessem com o coração aberto para louvar os Òrìsàs. Que qualquer tipo de Ajé fosse aplacado e jamais fossemos acometidos pela cólera das Ìyá – e Graças aos Deuses, podemos receber centenas de pessoas sem que houvesse um dissabor, sem que houvesse uma única discussão – todos estavam lá para louvar os Deuses Africanos. Como foi lindo.
 
Ao longo de todo o dia, fogos anunciavam que o Ilé Ibùalámo estava em festa. De hora em hora, o Alagbé do Terreiro Fábio Ferreira nos surpreendia com os rojões. A cada explosão o grito espontâneo de todos os filhos: “Oke Aro! Oke”.  Nesses momentos, me recordei de meu Tio Gamo que sempre me falou: “O convite do Candomblé é o rojão, o som dos fogos”. Assim foi, estávamos convidando a comunidade fundada pelo meu Pai, para uma vez mais louvar os Òrìsàs.
 
No final da tarde, tudo estava pronto. No olhar dos filhos da casa um turbilhão de sentimentos. A hora que todos esperavam estava chegando. O barracão vestido para a festa possuía uma moldura especial, uma linda foto daquele que sonhou, idealizou e concretizou o nosso Ilé, meu Pai José Carlos de Ibùalámo. Em qualquer direção que olhávamos nos deparávamos com o Ofá de Ibùalámo, a nossa grande bússola – o nosso norte. No chão, as folhas forravam o solo sagrado para que todos de pés descalçados (Lese Òrìsà) pudessem enfim, dançar o Sire dos Òrìsàs. Os atabaques no barracão bradavam a Hamunha, comunicando-se por meio da música com os fiéis como quem diz: “entrem e dancem, pois a vida está se renovando”.
 
Dar início ao Candomblé, com a roda repleta dos filhos do meu Pai, agora filhos da minha irmã tem um peso especial, uma carga emocional diferenciada – a emoção da continuidade. Os filhos do Ilé Ibùalámo continuam filhos do Ilé Ibùalámo – que satisfação. Eu e minha irmã nos preparamos muito emocionalmente e preparamos todos os filhos do Terreiro. Sempre falávamos: “Vocês devem se preparar para um Candomblé sem a presença do nosso Pai, para a festa de Ibùalámo sem o nosso Pai aqui, devemos nos preparar”. Pois eu digo, foi bom sim nos prepararmos para isso, no entanto, em momento algum senti a falta do meu Pai, em momento algum senti a ausência dele. Ele estava lá conosco abençoando tudo.
 
Findado o Sire, na residência do meu Pai, mais precisamente no quarto que foi o quarto dele estava minha irmã. Ao seu lado, nossa Ìyálòrìsà Mãe Luizinha de Nana com nossa família, Pai Giba, Pai Carlinhos, Mãe Elza, Mãe Dani, Mãe Gui, Tia Magui. No olhar da minha mãe carnal, Mãe Nalva, observava a lágrima correr. Eu parecia já ter visto aquela cena. Minha irmã, à exemplo do meu Pai, com o Ori rodeado com as sagradas folhas de Akoko (A Folha do Título), segurando nas mãos da nossa mãe de Nana. Há exatamente vinte e seis anos, meu Pai também com o Ori rodeado com as folhas de Akoko era anunciado como Babalòrìsà por nossa avó Maria, também Ìyálòrìsà de Nana. Aqui, valho-me do yorùbá: “Omo Jo Baba-o” (os filhos são a imagem do Pai), a história estava se repetindo com louvor.
 
Antes de ser apresentada ao público, nossa Mãe Luizinha apresentou a nova Ìyálòrìsà do Terreiro ao chefe da casa, ao nosso Pai Ibùalámo. Em seguida, àqueles que fizeram a história antes de nós, àqueles que edificaram a nossa casa e a nossa religião. Ela foi apresentada aos ancestrais do Terreiro.
 
Caminhando em direção ao salão festivo, minha irmã saudou todos os quartos de santo. Quando chegamos diante do Opa Orere, nos deparamos com Ogan Ney de Òsóòsì, que chorou cantando o Àsèsè do meu Pai e que neste momento sorria por ver a continuidade desta casa.
 
O rufar dos atabaques liderados pelo maior mestre dessa cidade, meu Mestre Robson, anunciava ao Terreiro a chegada da nossa nova mãe. O barracão abarcava grandes amigos, Ògáns, Babalòrìsàs, Ìyálòrìsàs e a comunidade do bairro que meu Pai liderou por tantos anos. Aqueles que não conseguiram entram se acomodavam nas janelas para testemunhar a história ser escrita.
 
Minha mãe Luzinha entoou: “Ìyálòrìsà-ooo Bogun De” e nesse caso, somente quem conviveu com os antigos, quem teve a sorte e privilégio de estar ao lado de quem aprendeu o tradicional Candomblé, sabe a história dessa cantiga. Desse modo, minha amada e querida irmã foi empossada Ìyálòrìsà do Terreiro Ilé Alákétu Asè Ibùalámo, na cadeira que traz trás importantes símbolos para nós. O Ofá de Ibùalámo - o dono da casa, o Sasara de Obaluwaiye - o Òrìsà da Ìyálòrìsà da casa e o Abébé de Òsun – Divindade de ambos! Minha mãe Elza, com seu conhecimento, por sua vez cantou: “Egbe Ayo Awa Aboorisa”. E sobre essa cantiga valho-me das palavras da venerada Mãe Bida: “A comunidade está em alegria, pois nós somos adoradores de Òrìsà”.
 
 
Eu pedi Ago (licença) à minha Ìyálòrìsà e à Ìyálòrìsà da casa para cantar as cantigas que sei que Pai entoaria nessa ocasião. A primeira diz sobre a importância da folha de akoko na outorga de um título. A segunda que versa sobre a história do nosso Asè, que evoca os Òrìsàs de Pai Otávio e do meu Avô Camilo de Òsóòsì. A terceira que discorre sobre a chegada do Povo de Kétu. Que momento, único, mágico e carregado de Asè. Por fim, uma cantiga para que todos os filhos da casa pudessem dançar para sua Ìyálòrìsà, a cantiga diz: “O Céu e a Terra estão em festa”. E, não tenho dúvidas, o Céu e a Terra estavam em festa.
 
Decorrido esse momento de grande Asè, pedimos aos presentes que tinham condições de se ajoelhar que o fizessem, pois renderíamos homenagens ao nosso Pai José Carlos. Emocionei-me ao ver o barracão de joelhos, mesmo a assistência composta por muitas pessoas que sequer são de Candomblé, mas que certamente se lembraram da importância do meu Pai em suas vidas. E diante do Asè central da casa, a Comunidade do Ilé Ibùalámo saudou o seu fundador: “Baba Baba-o... Baba Oku-o A Ope lare-o... Oro Eleda... Awa De kerekere”... O coração já tomado pelo sentimento, pelas lembranças já interfiam na voz, que tentava ecoar. Candomblé não é feito de palavras bonitas, Candomblé é feito de emoção e isso o Ilé Ibùalámo é impregnado.
 
A Ìyálòrìsà Gabriela de Omolu sequer permitiu-nos recompor e entoou a reza do Òsóòsì dos nossos avós e também do nosso Pai. Uma vez mais, o barracão de joelhos sentia a emoção de uma casa de tradição familiar que prega pela sua ancestralidade e por suas raízes. Por fim, acompanhada pelo o som dos “Awo” tocados pelo Ogan Paulo, Eperin da Casa, minha irmã cantou o Agéré mais emblemático da nossa casa, a cantiga que sempre chamou nosso Pai Ibùalámo à terra. Novamente a magia tomou conta da casa. O Hun abençoado por nosso Pai Ibùalámo, nas pancadas do meu Mestre Robson, emitia o som do mais perfeito Agéré. Ele verdadeiramente conseguiu ligar as veias do coração à ponta do Agidavi, fazendo vibrar o som que atravessou o oceano para trazer Òsóòsì da África ao Brasil.
 
Os Deuses Africanos chegaram para abençoar a nova Ìyálòrìsà do Ilé Ibùalámo! E se existe um toque que chama Òrìsà na nossa casa esse toque é o Agéré, o Agéré de Ibùalámo, o Agéré do rei da nossa nação. Ainda em meio ao calor que nos tomava, eis que chega a terra, na sua terra, na sua casa, nosso Pai Obaluwaiye. A casa é e sempre será de Ibùalámo, mas a Divindade que está regendo desta feita é Obaluwaiye e ele mostrou isso ao som do Opanijé perfeito. Ele também é dono do Ilé Ibùalámo.
 
Na saída dos Òrìsàs, ao som de “Ago Fé Nu Banba” todos os filhos novamente gritavam de forma eufórica a saudação dos donos da casa: “Oke Aro, Oke Aro, Atoto, Atoto”!!! A comunidade estava alegre, contagiada, realizada! Todos estão dando continuidade a missão iniciada por nosso Pai.
 
Òsóòsì tomou Hun de forma esplêndida, da mesma forma que sempre fizemos quando nosso Pai estava no aye, nada mudou. Obaluwaye por sua vez, emocionou todos dançando ao som das cantigas mais tradicionais do Candomblé, ao som da voz dos filhos da casa que abraçaram a nova Ìyálòrìsà como sua Ìyálòrìsà. Quem Candomblé! Que Candomblé!
 
Pouco antes do término, quando já estávamos conseguindo entender tudo o que já havia acontecido até então, somos novamente surpreendidos, desta vez, pelos filhos de santo da casa, que entraram no barracão, cantando “Omo Nile Ayo” (Os filhos da casa estão em alegria), entregando à minha irmã e a mim, lindos buquês de flores. Quanta emoção ver esses filhos da casa, juntos conosco em todos os momentos, lutando, batalhando e sofrendo conosco. Foi lindo os ver cantando uma cantiga que meu Pai tanto cantou naquele salão. Aqui, valho-me das palavras da minha irmã, proferidas nessa hora: “Ter amigos é maravilhoso, mas ter os filhos de santo do meu Pai não tem preço”. Que orgulho desses filhos da casa, que orgulho, vocês são o Ilé Ibùalámo Laila!!!! Novamente o Agéré se fez presente e novamente as lágrimas incontidas corriam dos nossos olhos e nos olhos de muitos que lá estavam.
 
O primeiro passo fora dado com louvor, com amor e com fé. No domingo, dia 20 de outubro, dia da fundação da casa, dia do Odun de santo do meu Pai, estávamos novamente aos pés do Òrìsà, agora para celebrar a festa de Òsùn, com todas suas rezas, seu Ipete e seu lindo presente. Como foi especial podermos louvar num único final de semana, as duas Deidades que regiam o Ori do nosso Pai.
 
A Sociedade Ilé Alákétu Asè Ibùalámo está em alegria e assim permanecerá para sempre! Viva Ibùalámo, Viva a Memória do Meu Pai e Viva a nova Ìyálòrìsà do Ilé Alákétu Asè Ibùalámo. Vida longa com saúde à minha irmã Gabriela de Omolu – Ìyálòrìsà Nile Alákétu Asè Ibùalámo.
Sem Mais,
Opotun Vinicius

6 comentários:

  1. Palavras épicas, meus parabéns que os orisás sempre olhe por nós !!!

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  2. Já disse e repito.. Suas palavras nos faz entrar na história. É de arrepiar .. Parabéns por mais essa vitória.. Abraços!

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  3. Kolofé meu irmão.

    Quantas palavras lindas. Lendo suas palavras eu senti a emoção que encharcou o coração de vocês.

    Que meu Pai Sòngó ilumine ainda mais seu asé......

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  4. Parafraseando você.....
    "Sem mais."
    Perfeito.

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  5. Meu respeitado Pai Vinícius ....Todas as honras do universo para o senhor e a mãe Gabriela .....Sempre renderei a vocês meu carinho e admiração ....Dofona D' Osun Sandra Costa

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  6. LINDAS PALAVRAS MEU IRMÃO OPOTUN VINICIUS CONSEGUI REVIVER OS MOMENTOS VIVIDOS NAQUELE DIA LENDO SEU MARAVILHOSO TEXTO PARABÉNS A VC E A MINHÃ IRMÃ YA GABRIELA COM MUITO CARINHO REGIANE!!!!

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